“A Single Man” e a beleza solitária de Tom Ford

Sensível e bonito de se ver. Essas foram as minhas primeiras impressões do trabalho de Tom Ford em seu primeiro Longa “A Single Man”. O filme é triste, melancólico, mas de uma beleza excepcional.

Provavelmente muito influenciado pelo seu trabalho no mundo da moda, o filme tem uma plasticidade que chega a ser absurda, com muitos detalhes, impecável! Tudo esta no seu lugar, tudo pertence onde se encontra. Só mesmo uma pessoa apaixonada pela beleza conseguiria chegar a esse resultado. Uma chance de enxergar o mundo pelos olhos de Tom Ford. Primoroso.

A história investe em um luto e os sentimentos que essa perda desperta. Perder alguém querido não é fácil e todos nós sabemos disso. Mas perder uma parceiro de vida, de 16 anos de convivência para um trágico acidente certamente é ainda mais difícil.

A cena em que vemos o personagem principal ao lado do seu amado, morto e no local do acidente é de muita tristeza e de muita beleza também, fato.

Tudo isso com os 60’s de cenário para contar essa história de amor trágica, que envolve questões que para a época não somente eram um grande tabu, como eram também ignoradas pela sociedade que se recusava a conhecer algo novo, diferente. Algo que pode se distanciar do que estamos vivendo hoje, mas que ainda se faz presente em nossa socieadade. O preconceito e a intolerância presentes nessa história de amor que se mantinha escondida para a sua própria sobrevivência. “Não vamos lidar com a situação, preferimos ignora-la”…infelizmente é o que muita gente prefere até hoje em relação as minorias.

Colin Firth me emocionou com a delicadeza do seu professor metódico, envelhecido, sozinho e triste, sobrevivente dessa história de amor de final trágico. Sua expressão quando seu personagem recebe a triste notícia da morte do seu parceiro é excepcional, tendo que manter as aparências ainda no telefone enquanto ouve de um familiar que além de tudo, a sua presença não seria bem vinda ao funeral. Triste e real, situação possível de ser repetida até hoje, em menor número, mais que ainda é possível de acontecer.

Seu personagem, George, se desmancha em lágrimas e quase desaparece sentado naquela poltrona enquanto absorve a informação de que o seu amado esta morto. Sempre fui fã do seu trabalho como ator, mas com essa atuação ele me ganhou de vez (e o sotaque british sempre colaborando pencas nas minhas escolhas, rs). Esqueça os trejeitos e características pessoais do ator, aqui Colin é um homem sério, que esta sofrendo por ter que lidar com essa situação de solidão precoce e inesperada.

George é um homem correto, alinhado, um professor apaixonado por sua profissão. Por onde passa, o charme de sua personalidade misteriosa e séria gera interesse dos demais, seja na escola ou em uma loja de conveniência. Talvez seja o charme das armações pretas e grossas de seus óculos, que é o meu apelo atual, fatão! (rs)

Durante o filme acompanhamos a sua forma de lidar com esse luto, que por sinal não é das melhores. Até que o seu personagem resolve por um fim a sua própria vida, vivendo o seu último dia antes de cometer o suicídio.

A cena angustiante em que o personagem “ensaia” por diversas vezes o disparo fatal é desesperadora. Na cama, com o saco de dormir, no chuveiro, ele não consegue decidir um forma digna de morrer, talvez pelo seu modo metódico demais de viver e não por falta de coragem. Tudo calculado com antecedência, facilitando inclusive a vida de quem tiver que lidar com a burocracia da sua morte.

E tem ainda a  relação com a sua melhor amiga e talvez “alma gêmea” que é de muita sinceridade e pode parecer até grosseira para a maioria das pessoas. Mas de um certo modo isso funciona para eles e assim os dois mantém a relação de amizade do casal  por tantos anos, uma relação honesta e sincera, e em alguns momentos talvez até demais.

Julianne Moore empresta sua beleza para essa mulher (a amiga) depressiva e infeliz, que vive de memórias boas do passado. Fico imprecionado com o tamanho da beleza dessa mulher, acho que ela é uma das poucas atrizes de sua geração que ficarão para a história como as nossas divas de agora.

Digna, bela e talentosa. Seu personagem, Charley, é inquieta, perturbada, quase invejosa, mas presente e é para quem George recorre imediatamente quando fica sabendo do trágico acidente com o seu grande amor.

O filme ainda conta com a participação de Matthew Goode (Jim) que é a outra metade do casal principal do filme. Seu personagem é quase um estereótipo da perfeição. E ele aparece em memórias de seu amado, relembrando os bons momentos que viveram juntos em sua casa de vidro (que por sinal é incrível).

E tmbm temos o jovem ator Nicolas Hoult como Kenny, fazendo o típico aluno apaixonado pelo professor mais velho e bem sucedido, buscando entender um pouco mais da sua condição. Fica para ele a tarefa de mostrar para George que nem tudo esta perdido e que é possível recomeçar.

E ainda tem o Lee Pace que dá um carão no filme, mas que não colabora muito com nada em uma cena que o que importa mesmo é o que esta acontecendo ao fundo, rs.

A fotografia do filme é algo a se destacar. Tudo é tão perfeito, tão arrumado que fica difícil acreditar em toda aquela organização. Mesmo quando não estamos  falando do cenário de convivência do personagem principal que justificaria tamanha obsessão por organização.

E os figurinos? Que perfeição não? Sem exageros, clean. Tudo bem que estamos falando de um filme do Tom Ford e isso não seria nenhuma surpresa.

Ternos bem cortados, alinhados, sapatos incrívelmente polidos, tudo muito clean. Os figurinos que se destacam mais na minha opinião são os da figuração, que transitam pelos cenários do filme. Muita informação de  moda e estilo, até mesmo quando trata-se do figurino das crianças, tudo muito bem cuidado, cheio de detalhes e bonito de se ver.

Tom Ford teve uma grande importância no mundo da moda, transformou a Gucci em algo que ela não é mais hoje em dia, talvez  até por sua ausência na marca atualmente. Sempre foi fã de fotografia e o melhor disso é que ele sempre foi ousado, nunca teve medo de provocar. Quando fiquei sabendo que ele faria um filme, eu tinha certeza de que seria algo belo, afinal ele sempre enxergou a beleza como ninguém.

E como diretor de cinema ele também se deu muito bem. Talvez a fama de metódico e controlador com o seu trabalho tenha colaborado para o resultado final de “A Single Man”. Cenas sutis, carregadas de emoções, as vezes contidas, as vezes exageradas. A saturação das cores nos momentos em que o personagem principal esta “sentindo” algo importante ou que de certa forma mexe com ele é de uma delicadeza notável. Pra vcs terem uma idéia, o cara consegue fazer uma cena com o ator principal sentado na privada (fazendo o que todos fazem quando estão sentados na privada) ficar elegante…comofaz?

E o resultado final do filme é surpreendente, quando o destino resolve tomar de volta as rédias da situação, não sem antes mostrar como demoramos demais para enxergar aquilo que não estamos preparados para ver ainda.

Mal posso esperar para um novo trabalho do agora tmbm diretor Tom Ford. Clap Clap Clap!

Uma pena o filme ganhar o título traduzido bocó de “Direito de Amar” por aqui…coisa mais cafona neam? Deixa a Tom Ford ficar sabendo disso…

Eu sei que eu já postei o trailler do filme por aqui faz tempo, mas eu acho tão digno que nunca é demais não é mesmo?

ps: DVD que deverá ir para o santuário, fatão!

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5 Respostas to ““A Single Man” e a beleza solitária de Tom Ford”

  1. My castle, my rules – O emocionado discurso do Rei « The Modern Guilt Says:

    […] de ganhar o seu merecido Oscar por “A Single Man”, que é outro filme maravileeeandro e altamente recomendado pelo Guilt, mas acabou perdendo para o Jeff Bridges, por “Crazy Heart”. Esse ano, de […]

  2. Renato Says:

    Texto ótimo! O filme tem algumas partes de uma angústia absurda. Muito bom.

    • Essy Says:

      Thnks! Como sempre, eu tenho uma certa tendência achar que ninguém vai ler os meus post maiores, rs
      Fiquei até com vontade de assistir de novo hein? E para isso, preciso lembrar de comprar o DVD.
      E realmente, a angustia é bem presente no filme. Cool!

      ps: e vc tmbm faz mixtapes no seu Miolão? Já gostei! rs

  3. American Horror Story – Freak, chic, porém tola « The Modern Guilt Says:

    […] de cada uma delas, senhas, documentos arrumadinhos e tudo mais,  foi um chupisco na cara dura de “A Single Man” do Tom Ford e eu bem reparei nisso. Não só reparei, como achei um […]

  4. Muito bem acompanhado nessas férias « The Modern Guilt Says:

    […] A Single Man […]

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