Desde quando a moda deixou de despertar o desejo para somente atender aos desejos do mercado?

 

 

Incômodo, foi isso que eu senti durante a última semana de moda de NY e isso se deu muito mais pelas críticas, resenhas e matérias que eu tenho lido a respeito do que a própria preguiça que observamos nas passarelas e a grande falta de novidade.

E isso me entristece e muito. Como consumidor me sinto ofendido quando vejo na vitrine algo que eu já imaginei antes ou que na maioria das vezes eu provavelmente já vi por ai. E como criador, fico imensamente decepcionado quando o mundo da moda se volta a atender ao mercado. Me sentia muito mais tentado quando a moda se preocupava em despertar o meu desejo, bons tempos.

Moda desde sempre foi business, mas de um certo tempo para cá os olhos e as cifras vem chamando cada vez mais atenção dos investidores. Todos querem a sua fatia gorda do mercado e para isso precisam vender, a qualquer custo. Nem que seja em grandes liquidações, para abrir espaço para as novas coleções que já estão para chegar, ou até mesmo em vendas especiais como no Fashion’s Night Out que tem o mesmo objetivo, com vários nomes importantes da moda envolvidos cada vez mais com a economia e o business.

Quando vejo uma semana de moda tão sem graça quanto essa edição do Verão 2011 em NY, eu fico incomodado profundamente, porque os talentos estão ai e todos nós sabemos disso, mas parece que agora para vc ser um bom criador de moda é importante que vc também seja um administrador. Não entende nada de números? Talvez vc não sirva para isso. Boring!

Esse é o atual perfil do mercado e se vc não se encaixa ou não de identifica, acaba ficando sem espaço, fato. Não existe um equilíbrio, ou vc é totalmente focado no business, ou arrisca a sua cabeça em uma roleta russa voltada a uma inspiração qualquer que pode ou não ganhar a atenção dos consumidores. O equilíbrio entre essas duas pontas da história já não existe mais e vc é forçado a escolher o seu lado.

Talvez por isso as vitrines ultimamente pareçam tão iguais e cansativas. Já não tem mais graça vc dar uma volta no shopping para ver uma vitrine. Gosta de acompanhar as tendências? Quer saber o que esta acontecendo no mundo da moda? Basta olhar uma única bela e boa vitrine bem servida de vários modelos que vc já viu todas.

Críticas a favor de uma limpeza nos looks, “por uma moda menos Gaga” como a que eu acabei lendo no FFW, ou as matérias que saíram a respeito do mesmo assunto no Times reforçam essa necessidade de optar pelo menos. Mas a minha leitura para o que esta acontecendo nesse momento, escondido nessa proposta é que esse menos não é um menos de “mais clean”, ou “menos exagerado”, não acho que seja isso que eles realmente querem dizer quando usam a palavra “menos”. Pra mim soa mais como um “menos de quem não quer se arriscar a perder dinheiro” onde me parece que ninguém mais esta disposto a arriscar sua cabeça por uma idéia qualquer, um sonho ou uma inspiração. Ninguém nunca esteve na verdade, mas parece que agora, com essa profissionalização cada vez maior no mercado por pessoas focadas apenas no negócio, ficamos menos inocentes e com isso menos interessantes também.

Talvez isso seja um reflexo do efeito da venda dessas grandes marcas do mercado da moda para grupos de investidores. Esses sempre me parecem muito menos interessados em criar novas propostas ou novas identidades, demonstrando quase sempre uma vontade maior de manter aquilo que esta dando certo nesse momento, o que as pessoas estão engolindo. Algo que obviamente esta garantindo os salários gordos e os lucros que aumentam a todo instante para essas pessoas no comando.

Tom Ford tenta fugir dos olhos rápidos do fast fashion e a indústria da cópia e faz uma coleção elitista, fugindo da simplicidade proposta por seus colegas e dando um valor para muitos “exagerado” ao glamour e a exclusividade das ricas e endinheiradas mundo a fora. Tentou esconder o ouro de todo mundo, mas não conseguiu e em pouco tempo depois, algumas imagens da sua tão exclusiva nova coleção já estavam disponíveis para o mundo todo. Diz que só vai liberar a coleção em cima da hora, quando chegar o momento de vender, o que eu acho arriscado, uma vez que novamente a palavra “desejo” volta a minha mente, onde para que esse tal desejo aconteça é necessário mostrar antes  o que vc tem para oferecer para que as pessoas possam sonhar com o que desejam compar. A não ser que ele pense nisso apenas para atender aquelas 30 mulheres ricas e poderosas que participaram da sua brincadeira e que já viram a sua proposta. Uma palavra: tolo.

Por outro lado vem os seus colegas de profissão, clamando por uma simplicidade, exigindo algo mais próximo da realidade, algo “menos Lady Gaga” e mais com cara da mulher de NY. Mas quem é a mulher de NY? Não pode ser ela várias versões dela mesmo ou de outras mulheres do mundo todo? É possível definir um estereótipo? Acho difícil…

Se a mulher idealizada por eles é aquilo que vimos nas passarelas durante a última semana eu diria que a mulher de NY é uma bela e boa preguiçosa.

Outra coisa que não sai da minha cabeça é a pergunta: desde quando os sonhos são palpáveis?

Moda é uma realidade, mas sempre transitou muito bem em um universo de sonhos, da fantasia. As imagens de passarela, pra mim sempre foram algo além da realidade, um sonho, uma construção de algo além do esperado.

Não quero chegar à primeira fila de um desfile e encontrar a mulher com o cardigã + vestido fluente + branco/nude/bege + e 3 ou 4 variações do mesmo sapato em todos os looks do desfile, como se eu estivesse vendo uma apresentação de stylist de como se vestir bem ou adequadamente para uma ocasião qualquer. Obrigado, mas para isso já existem bons profissionais e livros excelentes sobre o assunto.

Quero chegar na primeira fila e encontrar absurdos, quero inovação, quero vontade, quero despertar e não ficar com sono depois do 5º look  de passarela. Quero me emocionar! E se para isso, seja necessário potencializar, maximizar ou caricaturar, que é o que a Lady Gaga faz com maestria, que assim seja. Não quero que todas as mulheres tenham a sua cara, apenas a sua coragem basta.

Gosto de me emocionar quando assisto a um desfile, seja ele ao vivo ou por streaming e isso infelizmente vem acontecendo cada vez menos, seja em NY, em SP ou em Paris.

Com tudo isso, eu não quero dizer que a semana de moda de NY não valeu à pena ou que foi de total falta de criatividade porque nem tudo foi ruim e nem quero criticar esse ou aquele veículo, que são as minhas fontes de informação. Só quero dizer novamente  que eu senti falta de desejar e isso me parece algo bem  importante.

Pronto, desabafei…

ps: achei apropriado utilizar a imagem acima da série Bored To Death para ilustrar o tom  do final texto, rs

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2 Respostas to “Desde quando a moda deixou de despertar o desejo para somente atender aos desejos do mercado?”

  1. Tendencismos para o Verão 2011 da Europa antiga « The Modern Guilt Says:

    […] desabafei sobre o mesmo do mesmo da semana de moda de NY e acho que o chocho ainda vale para o que vimos nas passarelas da Europa antiga durante essa temporada. Poucos riscos, […]

  2. E agora, a 2ª edição do The Modern Guilt Awards 2010 « The Modern Guilt Says:

    […] Desabafei,  humpf! […]

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