O que fazer a meia-noite em Paris?

Belle Époque, 20’s, ou os dias de hoje? Qual foi a era de ouro em Paris? Preguntinha difícil essa que o senhor Woody Allen nos propõe  em seu filme “Midnight In Paris”, com a sua deliciosa proposta de uma viagem no tempo na Paris antiga, o que só de se propor como tema já me parece covardia.

Confesso que pela importância e pelo romantismo dos anos 20 eu também escolheria essa década como o melhor período a ser ter vivido no passado, ainda mais visto sobre o olhar do cineasta, que empresta dessa vez para Paris, a sua visão já tão característica sobre o cotidiano das cidades, e a deixa ainda mais convidativa, com ou sem chuva. (rs)

O filme já não é nenhum lançamento, mas acabei assistindo no finde e fiquei enlouquecido com a beleza “simples” que o diretor consegue arrancar de qualquer lugar. Tudo bem que nesse caso, não estamos falando de uma cidade qualquer e tão pouco de nenhum patinho feio do mundo, além do que, Paris por toda  sua história e perfume já tem o seu próprio charme e todo mundo sabe disso. Mas pensando em um diretor que sempre escreveu muito bem para a cidade de NY, trabalhando dessa vez com Paris, ele conseguiu impor o seu estilo, mantendo as mesmas características dos seus inúmeros longas anteriores que tiveram Manhattan com plano de fundo para suas histórias. Isso considerando os seus trabalhos mais antigos, antes da sua mudança para locações na Europa em seus filmes mais recentes.

O que me fez ficar ainda mais esperançoso que um dia de fato ele venha filmar por aqui, no Rio, e consiga mudar a visão que o mundo tem daquela cidade. Agora, se nessa viagem ele acabasse escolhendo São Paulo, lá vou eu para as locações de gravação para tentar uma pontinha como extra, é claro. Imagina se eu que nem ator sou (embora tenha feito teatro quando criança, e isso é sempre bom de se mencionar, embora seja totalmente irrelevante, rs) aparecendo ao fundo de uma cena qualquer de um filme do Woody Fucking Allen? iDie!

(pausa dramática pós surto da minha imaginação figurando em um filme do diretor)

Anyway…

Em “Midnight In Paris” temos o casal Gil (Owen Wilson) & Inez (Rachel McAdams, mais linda do que nunca!) que estão prestes a se casar e que antes disso decidem fazer uma viagem até Paris. Mas desde o começo do filme fica bem claro que eles não foram feitos um para o outro e em nada se parecem, na-da. Ele tem o seu lado mais aventureiro, do tipo de pessoa que gosta de explorar o desconhecido, do tipo sonhador, e ela parece estar bem mais preocupada com coisas mais fúteis e assim preencher o formulário padrão do que muitas pessoas acabam comprando como modelo de felicidade, com o seu casamento perfeito e a sua casa perfeita em Beverly Hills. Aquela preguiça de sempre que estamos acostumados…

Mas toda a trama do filme é muito maior do que uma simples discussão de uma relação que obviamente não terá um futuro feliz, nem insistindo muito. Ela na verdade esconde deliciosas viagens no tempo, que são feitas de forma divertidíssima e sem a menor necessidade de uma explicação lógica para tal. Woody Allen se arriscando na temática Sci-Fi, que todo mundo que se arrisca dentro do tema acaba se complicando e que nesse caso o cineasta facilita como ninguém brincando com a fantasia.

Isso porque Gil tem uma verdadeira paixão por aquele lugar e insiste em dizer que o seu sonho seria ter vivido na Paris dos anos 20, o que ele considera ter sido a era de ouro da cidade. Como ele  acaba sempre sendo abandonado pela futura esposa nessas férias do casal (porque ela parece estar muito mais interessada na companhia de  um certo amigo do qual ela já teve uma certa queda no passado), ele acaba vagando pela cidade sozinho a noite, em busca de inspiração para escrever o seu livro, algo que ele encara com um hobbie por enquanto, mas que no fundo ele reprime esse desejo de se tornar um escritor com a sua profissão atual que é a de roteirista bem sucedido em Hollywood. Afinal, porque largar uma carreira que esta dando certo para ir atrás dos seus sonhos?

E com essas caminhadas a meia-noite em Paris começam as suas viagens no tempo, onde ele acaba caindo direto nos anos 20 e com isso, vamos ganhamos todo o charme de uma época que não podemos viver, com o olhar do Woody Allen, um detalhe que já garante a qualidade dessa visão.

Figurinos deliciosos de época, pouco óbvios até, focados mais nas cores da época e no shape, pouco exagerado ou caricata e de muito bom gosto. O que ganha um peso maior ainda com os cabelos e makes de época, esses sim que juntamente com o figurino, completam a caracterização do filme e nos fazem acreditar que estamos de fato nos anos 20 e não em uma festa temática, como acaba acontecendo em muitos filmes que exageram nessa caracterização.

E o personagem não só caminha pelos anos 20 da Paris antiga, como acaba cruzando com grandes nomes de todas as áreas. Nessa divertida passagem pelo década, ele acaba ficando amigo de alguns dos seus ídolos, como Hemingway (Corey Stoll), do  casal Fitzgerald (Tom Hiddleston, Alisson Pill), e também tem passagens e encontros divertidíssimos com Picasso e Salvador Dalí (Adrien Brody).

Uma viagem no tempo com um banho de cultura, onde eu tenho a impressão que o diretor tenha escolhido os seus personagens preferidos da história para brincar em um de seus filmes, algo quem vem certamente de alguém que ama a cultura.

Uma série de outros nomes importantes da época aparecem no filme, como Cole Porter, Matisse, Gauguin, Degas ou a Gertrude Stein, mas não se intimide se vc não reconhecer alguns deles e recorra a o Google, porque vale a pena. Nessa hora devo dizer que eu fiquei agradecido por ter tido ótimos professores de História da Arte e História Geral ou Contemporânea, dos quais eu lembrei muito em diversos momentos no filme. Obrigado!

Aliás, do Picasso ele até ousa roubar a amante, Adriana, vivida lindamente pela atriz Marion Cotillard, que já tem aquele rosto de época  e que esta particularmente ainda mais maravileeeandra nesse longa.

E esse primeiro encontro entre Gil, Picasso e sua amante Adriana, acaba rendendo uma das melhores cenas cômicas do filme, com a vingança de Gil para cima do Paul (o tal amigo pseudo-intelectual do casal por quem a sua mulher tem algum interesse), que é aquele tipo de expert em arte que pensa que sabe tudo e isso de uma forma bem arrogante e que com certeza vc vai conseguir relacioná-lo com alguém que vc tenha conhecido ao longo da vida. Eu poderia citar nesse momento pelo menos uns 12 nomes, fácil…

E com a companhia de Adriana, ele começa a perceber que a sua relação no seu tempo, em 2010 com a sua futura esposa, não esta das melhores e a partir disso o personagem começa a repensar os rumos de sua vida para o futuro.

É claro que no filme não poderiam faltar aquelas cenas que o Woody (íntimo de Oliveira) sabe fazer como ninguém, como divertidas discussões com vários personagens em cena, com aquele humor tão caracteristicos dos seus filmes e que nós a essa altura já conhecemos tão bem.

Confesso que o nome do Owen Wilson sempre pesa pra mim, e talvez o seu passado com comédias tolas e o seu corte de cabelo de sempre, tenha me deixado com o pé atrás a seu respeito. Mas nada que uma boa direção não resolva e nesse caso, arrisco até a dizer que ele me pareceu ser a escolha certa para o papel do típico americano desconfortável, meio bobalhão até, sonhador, que se vê caminhando em direção a uma vida sufocante da qual talvez ele nunca tenha se imaginado pertencer.

Uma outra discussão que o filme propõe é a questão da nostalgia, que cedo ou tarde todo mundo acaba sentindo. Em um certo momento, o personagem rival de Gil no longa, Paul (Michael Sheen), chega a sugerir que sentir nostalgia é negar o presente, o que na hora que ele disse eu já queria debater por não concordar com essa teoria. Mais tarde no filme, novamente essa discussão volta a tona, com o Gil e Adriana viajando no tempo até a Belle Époque,  que é a era de ouro na visão da personagem de Marion Cotillard.

O que nos leva a discussão que é sempre saudoso um tempo que nós não podemos recuperar, porque o presente, por mais direito e feliz que ele possa estar naquele exato momento da sua vida, ele é baseado na realidade, no agora, e isso por si só já parece bem tedioso. Imaginar o futuro também, muitas vezes, chega a ser até assustador. Eu por exemplo sempre me recuso a responder aquela pergunta “onde vc se vê daqui 10 anos”, isso para evitar qualquer frustração futura. Agora, do passado, a gente lembra com saudades, por ter vivido ou não aqueles momentos, e isso é bem diferente de negar o presente, é apenas saudade, algo muito mais simples para os saudosistas de nível controlado.

Outro fato é que toda geração se sente preguiçosa e essa não é só uma percepção que nós temos do tempo de agora, o que pra mim particularmente funcionou como um alívio quando no filme os personagens da Belle Époque já se queixavam da falta criatividade da geração daquela época. Imaginem como eles não se sentiriam agora, com essa crise de identidade do século XXI? O século das releituras…(em algumas áreas)

Um grande filme, não é a toa que tenha sido a maior bilheteria do diretor, e que ainda tem participações da Carla Bruni e da Kathy Bates no elenco. (Bruni maravileeeandra como guia de museu que entra em conflito com o Paul, o personagem “pedante” da história)

A ideia principal do longa talvez seja mesmo essa de mergulhar nos seus sonhos, mesmo que eles pareçam tão distantes e irreais e por mais que o presente pareça chato e monótono, porém aparentemente confortável, é o que temos para hoje e só nos resta valorizar esses momentos do agora, reinventando o presente  e tentando deixá-lo até mais interessante, porque não? E assim garantirmos boas recordações para se lembrar com saudades no futuro, quando isso tudo que esta acontecendo aqui e agora, não passar de simples lembranças.

E quem sabe de quebra a gente não consiga garantir também alguém que não se importe de  andar na chuva em Paris ao nosso lado?

Um filme de Woody Allen, que só pela assinatura já merece até um altar especial no meio da  sua coleção.

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8 Respostas to “O que fazer a meia-noite em Paris?”

  1. tati Says:

    ai essy ler suas resenhas é sempre uma delícia,você sempre consegue captar exatamente o que o filme(ou série ou álbum ou…) quer dizer e sempre explora de forma minuciosa todos os pontos relevantes dele,obrigado pelo esforço de sempre apresentar boas obras mostrando sempre sua visão tão legal sobre as coisas,tenho que dizer que graças a isso eu já descobri vários filmes e tantas outras coisas legais que sem seus textos eu jamais teria descoberto,valeu mesmo.
    e eu até poderia falar sobre esse filme delicioso do woody(sou íntima também,tá)mas você já fez isso tão bem que eu nem preciso acrescentar nada.
    beijos,AMO seu blog

    • Essy Says:

      Gente, e o que eu faço com comentários com esse nível de foufurice, hein?
      Ruborizei até, rs.
      Vc sabe que eu sou super auto-sabotador, e sempre acho falhas em tudo o que eu faço. Por isso é bem bom quando chega um comment foufo com o seu para dar uma animada.Thnks!
      Smacks para vc e para o Woody, já que somos íntimos de Oliveira dele, neam?
      (♥)

  2. Dani Z Says:

    Crítica ótima, como sempre Essy.
    Apenas para destacar 2 cenas hilárias: quando Gil diz para Adriana, a pegadora mor de artistas da época
    ( Picasso, Modigliani, Braque e Hemingway), que ela deixaria qualquer groupie de hoje em dia no chinelo e quando ele está no barzinho explicando pra Dalí, Hemingway e Bunuel que ele não pertence aquela época e todos acham a coisa super normal! Surreal for sure!

    • Essy Says:

      Bem lembrado mesmo, duas cenas sensacionais!
      Rolei de rir com os dois momentos. Com a verdade da primeira cena (e inveja que sentimos da Adriana) e com a sinceridade da segunda, que ninguém levou a sério, e ainda tirou um sarro do universo do Sci-Fi, rs.
      Euri!

  3. The Modern Guilt Awards 2011, a premiação mais aguardada do ano! « The Modern Guilt Says:

    […] e em meio a figurões das artes e da literatura antiga, não é para qualquer um. Sem contar que “Midnight In Paris” é um filme leve, divertido e sensacional, em todos os sentidos e que mesmo assim ainda vai te […]

  4. A lista preguiça dos vencedores do Golden Globes 2012 « The Modern Guilt Says:

    […] Woody Allen, “Midnight in Paris” […]

  5. foraglamourousbflow Says:

    Como mais uma apaixonada por esse filme, tenho até o blu-ray dele, devo dizer que seus comentários são excelentes. =)

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