Amor para principiantes

Seja aos 38 ou aos 75, todo mundo merece uma chance de tentar ser feliz, não? Basta estar disposto a correr esse risco.

“Begginers” é uma daquelas dramédias deliciosas, com interpretações primorosas e que com certeza vai te deixar com os olhos cheios de lágrimas, sem fazer muito esforço para isso, o que é sempre uma delícia.

O filme é contado a partir das memórias do personagem principal, Oliver Fields (Ewan McGregor) e as suas lembranças dos últimos anos que ele passou ao lado do seu pai, Hal Fields (Christopher Plummer), e como essa relação familiar acabou interferindo no seu presente, no modo como ele vive atualmente e encara a sua realidade.

Dessa memória recente, além do fato do seu pai estar doente de um câncer em estágio 4, Oliver ainda teve que encarar o seu pai saindo do armário, após a morte de sua mãe, revelando da forma mais sincera, simples e direta do mundo, que ele é e sempre foi gay. O que em outros tempos seria um grande choque, ou poderia até se transformar em uma dramalhão (e a gente tenta fingir que hoje em dia não é mais assim, só que na verdade ainda é em muitos casos), no filme é encarado como um fato, sem grandes dramas, desesperos ou culpas. Na verdade, sem cobrança nenhuma, apenas compreensão.

Mas essa não é a temática do filme, fikfik. “Beginners” fala de amor, um tipo de amor para principiantes, sem distinções ou grandes discussões sobre a sexualidade de cada um. Uma grande prova de que amor é amor.

Oliver é um homem de 38 anos, triste, sozinho, um jovem designer que trabalha fazendo arte para encartes de álbuns (talvez ele fosse um designer gráfico até…o que na verdade é uma das profissões do diretor do filme, Mike Mills, de quem eu desconfio que são todos aqueles desenhos maravileeeandros sobre a “história da tristeza”) e que prefere evitar o contato com outras pessoas, com medo de decepcioná-las por não se considerar muito interessante (auto sabotagem), ou de acabar perdendo essas mesmas pessoas do dia para a noite, como já havia acontecido com toda a sua família. (pai e mãe pelo menos)

E todo esse estado de solidão e tristeza do personagem vai sendo justificado nas suas lembranças do passado (que no filme quase que se confundem com o presente), na relação fria e monótona que ele vivenciava dentro de sua casa, com pais presos em um casamento infeliz, de aparências, sem ter a coragem de dar um passo a frente e se libertar do que não esta sendo o suficiente para ambos. A medida que o filme vai se passando, ele vai percebendo em pequenos detalhes, em pequenas sutilezas, o quanto os seus pais nunca foram felizes juntos e muito provavelmente isso acaba refletindo na forma como ele vive as suas relações hoje em dia, sempre mantendo distância de tudo e de todos, completamente frio.

Mas com a saída do seu pai do armário, Oliver começa a perceber que nunca é tarde para começar a ser feliz. Seu pai, Hal, aproveitou a sua liberação tardia dessa mentira (e o fato dele se encontrar em um estado avançado de uma doença terrível) para fazer de tudo e se jogar. O senhor de cabelos brancos e peito cabeludo (segundo seu anúncio nos classificados, rs) acaba entrando para todos os clubes gays possíveis da sua vizinhança, virando um militante da causa, todo engajado e super divertido, sempre com a casa cheia de amigos e festas animadas, completamente diferente do perfil do seu filho. Uma das cenas mais deliciosa do filme acontece quando Hal liga para Oliver depois de encarar a sua primeira noite em uma buatchy gay, do alto dos seus mais de 70 anos, contando sobre a sua experiência libertadora, super animado e perguntando para o filho que tipo de música era aquela que os jovens ouviam naquela época.

Hal decidiu ser livre ao se assumir, completamente ciente de que ele tinha pouco tempo (o que durou apenas 4, porém intensos anos de liberdade) para vivenciar tudo aquilo que ele não viveu quando deveria e estava preso em um casamento infeliz. Para isso ele não mede esforços, faz anúncios a procura de um parceiro, até que ele arruma um namorado para chamar de seu, Andy, que também é super divertido. E super consciente da sua situação, se relacionando com um parceiro bem mais novo, ele faz um discurso excelente sobre a monogamia a essa altura da sua vida para o seu filho, que é outro dos momentos excelentes do longa.

Bacana também é que o filme não discute o preconceito, embora tenha algumas cenas históricas dos tempos de repressão antiga e discursos do Harvey Milk, mas tudo é encarado com muita naturalidade, como deveria ser para todo mundo desde sempre, mas ainda mais nos dias de hoje. E mais bacana ainda é o conflito de gerações que acaba inevitavelmente aparecendo em um momento ou outro, como por exemplo, quando o pai fica muito surpreso com o fato do filho hétero saber que o arco-íris é o simbolo da comunidade gay, rs. (aliás, lindo como eles relacionam as cores com sentimentos nesse momento, mesmo tendo sido assumidamente inventado, rs)

Oliver por sua vez, enquanto ainda sofre do luto de ter perdido o pai recentemente e ter ganhado de brinde o cachorro dele (Arthur) para cuidar e lhe fazer companhia em sua vida solitária, começa também a perceber que nem tudo está perdido e que se ele não foi feliz até agora, ainda não é tarde para tentar. Ainda mais tendo um ótimo exemplo a ser seguido como o de seu pai.

E essa tentativa de felicidade  surge quando ele conhece Anna (Mélanie Laurent, que a gente lembra pela sua deliciosa e vingativa Shosanna de “Inglourious Basterds”), uma jovem atriz que ele acaba conhecendo em uma festa a fantasia (que ele vai obrigado) e que a partir disso, os dois começam a se relacionar.

Ela tem o mesmo perfil do seu personagem, silenciosa, triste, acostumada com uma vida corrida de atriz, viajando de um lado para o outro, vivendo em hotéis. Praticamente o par perfeito para Oliver. E o relacionamento dos dois é recheado de encontros super foufos, como corridas de patins pelos corredores do hotel, sempre acompanhados do cachorro Arthur, que ele vive tentando deixar em casa, mas que a sua consciência acaba impedindo toda vez que ele tenta deixá-lo sozinho em casa e acaba sofrendo demais com o choro do pobre do Arthur se sentindo um cachorro sozinho e abandonado em casa. Super foufo.

Ambos acabam construindo um relacionamento que tem tudo para dar certo, se completando, confidenciando coisas que a gente não conta para todo mundo e até se sentindo imaturo e idiota por fazer coisas que vc não faria normalmente, só para impressionar quem vc tem segundas intenções. Quem nunca? (eu por ex,  já reparei que eu começo a falar mais alto quando estou interessado em alguém e esse alguém está perto de mim…humpf!)

Tudo funciona muito bem para o casal, até que eles resolvem morar juntos e a falta de habilidade dos dois em se relacionar acaba dificultando demais as coisas e assim,  Oliver acaba desistindo da relação, só que fácil demais, até ele se dar conta no final do filme que possivelmente aquela pode ser a mulher da sua vida, mas isso ele só vai descobrir tentando, que é exatamente como termina o filme, nessa tentativa de felicidade que sempre vale a pena, tendo ou não um final feliz.

Mas entre todo esse desenrolar da história, vamos ganhando nas memórias de Oliver toda a carga dramática do longa, como ele lembrando dos últimos momentos ao lado do seu pai, enfrentando a doença, outras vezes se divertindo, até o dia do adeus (que é maravileeeandro!). Cenas lindas, super bem editadas e que acabam funcionando muito bem como recordações daquela história que nos está sendo contada.

E essas lembranças vão se misturando lindamente com o presente, mostrando que, querendo ou não, o nosso passado, a nossa bagagem, uma hora ou outra vai acabar refletindo no nosso presente e consequentemente no nosso futuro.

E o personagem do Ewan McGregor (que por sinal está excelente no longa, como sempre. Höy!) tem uma forma muito particular de relacionar os fatos com a sua memória e ele vai utilizando de imagens soltas para contar um fato, ou relacioná-lo com um ano do passado por exemplo, numa espécie de apresentação de  slides, ou melhor, uma apresentação de Power Point, rs. Algo muito mais simples, (muito) mas semelhante com a ideia de “Tree Of Life” porém, com uma execução bem mais pobreeenha. Nessa hora, eu achei que faltou um pouco mais de empenho da direção de arte, que poderia ter usado fotografias com as imagens dos objetos que ele usa para relacionar com a sua memória, ou de uma outra forma qualquer, sem aquele fundo preto preguiça.

Apesar do filme falar de relações de amor, o que mais acaba chamando atenção realmente é a relação linda de amor entre pai e  filho e como eles se aproximaram nesses últimos quatro anos, após a liberação e a descoberta da doença do pai. Chorei como uma criança, quando o pai pediu desculpas para o seu filho, por nunca ter deixado ele segurar a sua mão quando criança, algo que o garoto vivia pedindo, mas que ele sentia vergonha de fazer em público. O que prova que nada como o tempo para nos mostrar o quanto a gente já foi idiota nessa vida, por motivos mais idiotas ainda, neam? Sorte de quem consegue perceber.

Como o filme é pautado em sutilezas e pequenos gestos que acabam marcando as nossas vidas, não teve momento mais especial em “Beginners” do que quando Oliver esta contando em forma das tais apresentações de imagem que eu já disse,  sobre o fato dele ter doado todas as coisas do seu pai quando ele morreu, mas ter ficado apenas com objetos importantes para ele, com o suéter roxo, que segundo a sua memória (falha e ele assume isso logo no começo do filme) era a roupa que ele estava usando quando assumiu ser gay para ele, momento do qual ele teve muito orgulho do pai pela coragem, por não ter desistido, nem no final da sua vida de tentar ser feliz. Howcuteisthat?

Um filme delicioso, que fala do amor para principiantes de uma forma bem simples, para quem quiser se emocionar com sutilezas.

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6 Respostas to “Amor para principiantes”

  1. Dani Z Says:

    Ah que bom que voce assistiu! Também gostei.Me comovi mais com a tristeza crônica do Oliver do que com a partida do pai, pois este viveu plenamente seus últimos anos. Sem esquecer que a mãe também não teve aquela vida apaixonada que me parece, ela merecia. Divertida a cena em que ela atirava de mentirinha no filho e ele fingia morto, rsrsrs. Mas eu ainda destaco a excelente participação do Jack Roussel, o Artur. Estupendo, com olhar deprimido e postura melancólica. Sei bem o que é ter um cãozinho que sofre de ansiedade da separação pois já passei pelo mesmo, tendo que levar o meu pra todo canto, inclusive bares e festas.
    Adestrei e já tá bom. Beijo querido Essy!

    • Essy Says:

      E eu fiquei imaginando vc carregando o cachorro para tudo quanto é lado, rs. Eu tive um problema contrário. Tive um cachorro que adorava quando a gente saia de casa, porque ele aproveitava para fugir e voltar horas depois, todo imundo, humpf!

      Realmente faltou falar da relação dele com a mãe no meu texto, que apesar de pouco aparecer no filme, tmbm acabou refletindo na vida dele atual, tipo naquela outra brincadeira que eles faziam juntos sobre apontar a direção para ela seguir com o carro. Foufo mil!

      Tmbm adorei a forma como ela se comportava nas galerias (ou museu). E fiquei com a sensação de que se os dois tivessem encarado o problema, acabariam virando grandes amigos se tivessem realmente se “conhecido” durante esse tempo todo.
      Uma pena ela não ter tido essa chance de tentar ser feliz. Mas fiquei com a mesma sensação de dever cumprido da parte dele, pelos últimos 4 anos vividos intensamente do Hal.

      Smacks querida Dani Z!

  2. marjoriematsue Says:

    Own… *-* Sou daquelas que escolhe filme pelos atores (ou diretor, produtor, trilha etc. – rsrsrs, mas mais pelos atores), então com certeza assistiria este filme (isso se ele chegar a vir pra minha cidade, né?), mas vc ter visto, e contado aqui a história, de forma tão fofa, que me dá mil vezes mais vontade de assistir!!! =D Ainda bem q vc gostou e resolveu falar dele, pq, talvez, se não fosse isto, eu nem saberia q este filme existe! =) thanx! hehe \o/

    • Essy Says:

      Awnnnn! Amei o comment. Thnks!
      Vc sabe que outro dia eu estava pensando sobre o assunto e cheguei a conclusão que uma das coisas que mais me influencia quando eu vou escolher um filme, é o poster (além dos atores, da direção)
      Pode reparar que os melhores que tem saído ultimamente, tem posters mais fundamento e com a mão mais leve no Photoshop, rs.
      Tmbm tenho uma tendência enorme a gostar de filmes mais Lado B também, aquele que as salas não estão tão cheias, mas que também, mesmo em SP, é sempre um drama achar uma sala disponível e em um horário possível para uma pessoa normal. Humpf!
      Por isso, muitas vezes recorremos a internet…

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    […] mas esse ano, ainda tivemos delícias deliciosas como “Beginners”, “Like Crazy”, “Melancolia”, “Drive”, nos despedimos do Harry […]

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