O garoto de bicicleta – um filme simples sobre o afeto e a falta de

Com ou sem coração, como vc prefere?

Vira e mexe, em meio aos lançamentos mais esperados do ano, dos inúmeros blockbusters preguiças ou filmes cults do momento, me surge algo surpreendentemente simples vindo direto da Europa antiga no meio disso tudo, como dessa vez aconteceu com o sensacional “Le gamin au vélo”, ou “O Garoto de Bicicleta”, um filme deliciosamente simples dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que dessa vez chega com sotaque francês porém,  com perfume de chocolate belga, simplesmente o melhor chocolate do mundo.  Sério.

O filme fala de uma relação de afeto, da busca ou da falta desse sentimento tão natural, ainda mais se vc pensar em ambiente familiar, de uma relação entre pais e filhos e tem como protagonista o encantador Cyril (Thomas Doret), um garoto inconformado por ter sido abandonado em um orfanato pelo seu pai, com a promessa de que ele voltaria depois de um mês para buscá-lo, algo que obviamente não acontece porque seu pai tem outros planos para a sua vida, planos que não incluem o garoto. (glupt)

Cyril é aquele tipo de  garoto que tem um olhar todo especial que consegue se comunicar como ninguém, mesmo usando poucas palavras. Doce, mas ao mesmo tempo perturbador, um olhar de uma criança inquieta tentando entender o que de fato estava acontecendo na sua vida naquele momento. Como o seu pai poderia tê-lo abandonado sem sequer dizer nada? E pior, ainda ter vendido a sua bicicleta? (rs…mas é triste)

E essa inquietação acaba levando Cyril à alguns surtos de rebeldia em busca de encontrar o seu pai fora do orfanato e em um deles, quando ele finalmente consegue chegar ao apartamento antigo do pai, que ele encontra vazio e sem a sua bicicleta, que a princípio era a sua desculpa para ir até o local, nesse exato momento, ele acaba entrando na vida de uma jovem cabeleireira, Samantha (Cécile de France), que por coincidência ou não, estava na hora certa e no lugar certo. E com o abraço de desespero do garoto, ela acaba sendo despertada para tentar ajudá-lo de alguma forma. E aquele abraço passa ser uma ponta de esperança na vida de Cyril, que antes de tudo precisa entender o que de fato realmente aconteceu com o seu pai e o porque dele ter sumido sem dar a menor explicação.

Em Samantha ele encontra uma amiga, disposta a ajudá-lo a encontrar o seu pai. Ela que compra de volta a bicicleta do garoto, que logo descobrimos que seu pai vendeu antes de desaparecer, alegando problemas financeiros (bitch) e juntos, eles começam uma viagem buscando pistas sobre o paradeiro do pai do garoto. Assim, ela passa a buscá-lo no orfanato para passar os findes em sua companhia, a pedido do garoto,  gerando um vínculo forte entre os dois, mesmo com alguns contratempos no meio disso tudo e tendo que enfrentar e entender o temperamento difícil do garoto.

Para a nossa surpresa (eu pelo menos fiquei, porque imaginei que ele pudesse ter morrido ou algo do tipo), não demora muito até que de fato eles acabam encontrando o pai do garoto e é nesse momento que a história começa a ganhar um peso ainda maior. Cyril é um garoto carente e praticamente chega a implorar no olhar um pouco do carinho do seu pai, que não parece estar nem um pouco interessado em retribuir esse sentimento depois de passar um certo tempo longe do filho. Logo, seu pai acaba revelando a Samantha, longe do garoto, que ele não tem o menor interesse em cuidar do seu filho, que precisa recomeçar a sua vida e que não tem a menor intenção de buscá-lo no orfanato novamente. (simples assim e completamente sem coração – glupt)

Uma situação de uma frieza absurda, que eu sinceramente não consigo entender como uma pessoa é capaz de chegar a esse ponto de falta de amor, de afeto, ainda mais por um filho. Eu não consigo entender como isso é possível, mesmo sabendo que acontece. E é de dar um nó na garganta gigantesco (GLUPT) quando a própria Samantha obriga aquele pai a falar a verdade para o garoto e ter coragem pelo menos uma vez na vida, para que aquele homem pavoroso não alimente mais nenhuma esperança naquela criança. Uma situação super triste, mas que acontece, seja na França, na Bélgica ou na casa do vizinho. (…)

Agora já sem esperança de que seu pai irá buscá-lo um dia, Cyril volta a passar mais tempo com Samantha, mas aquele desprezo todo, aquela falta de amor ou afeto que o garoto sente em relação ao pai, acaba refletindo em um comportamento agressivo, onde muitas vezes ele acaba descontando toda aquela sua revolta em quem foi a única pessoa que esteve ao seu lado nesse tempo todo, mesmo quando confrontada pelo seu namorado em relação a permanência do garoto naquela relação. Uma atitude que muitas vezes, até mesmo uma mãe de verdade não consegue tomar, o que eu classifico como o pior tipo de pessoa possível.

Nesse meio do caminho o garoto começa a se envolver com outras crianças da vizinhança e se vc acha que aliciadores de menores é um problema apenas do nosso país, vc está muito enganado e parece que lá na Europa antiga as coisas também estão puxadas para todo mundo. Com isso, entra na história o traficante do bairro, aquele cara que parece ser o mais bacana, gentil, que te faz sentir dentro de um grupo, de certa forma até protegido. Um perfil que nós brasileiros conhecemos muito bem. Sua intenção com Cyril é que ele vire uma espécie de soldado trabalhando a seu favor, diferente do que eu cheguei a imaginar quando ele levou o menino para a sua casa (ainda bem), e assim ele passa a treinar o garoto para um assalto.

Treinamento pesado, com direito a simulação e tudo mais. Novamente, vc chega a pensar que talvez na hora o menino acabe repensando no que está prestes a fazer e assim acabe não realizando o assalto. O que não acontece e Cyril acaba obedecendo as ordens do seu novo mestre, o vilão da história e concluí o plano que os dois ensaiaram por diversas vezes antes, mesmo tendo que improvisar e atingir um segundo alvo, o filho da vítima que também estava no local naquela noite.

Sem julgamentos de valores ou qualquer coisa do tipo, fica claro que o garoto estava ciente de que aquilo estava errado, mas de uma certa forma ele sentia a vontade de realizar aquela tarefa para retribuir um “favor” que o tal traficante acabou fazendo para ele antes disso tudo. Além do mais, fica também bem claro que Cyril é um garoto completamente inocente e além de tudo, ainda tem um raiva contida dentro dele por todo esse histórico do abandono, o que apesar de não ser uma justificável, é algo pelo menos compreensível.

Não fica bem claro quais foram as intenções daquele traficante com o garoto e a história do roubo, se ele praticava aquilo por esporte, se foi um momento de desespero, ou ele simplesmente acabou sentindo algum peso na consciência depois que o garoto foi capaz de obedecê-lo, uma vez que ambos tinham um certo passado em comum no orfanato. Fato é que depois do crime bem sucedido, o traficante acaba abandonando Cyril no meio da estrada e com todo o dinheiro do furto, outra vez para a nossa surpresa.

O pior é que aquele garoto começa a correr desesperadamente pela cidade, a noite, no meio do nada e a gente não consegue imaginar para onde ele está seguindo, até que ele chega ao seu destino. Sem pensar duas vezes, Cyril volta onde encontrou seu pai depois do sumiço, para entregar o dinheiro que ele acabou de roubar (afinal se aquele era o problema para ele tê-lo abandonado, agora com a grana que ele roubou, esse problema estava parcialmente resolvido – isso na cabeça do garoto), em uma tentativa desesperada de tentar comprar de volta algum tipo de afeto daquela relação, o que não tem como não deixar qualquer um com um nó enorme bem no meio da garganta (G-L-U-P-T). Mas mesmo assim, aquele pai mais uma vez coloca o garoto para correr, praticamente jogando o menino do outro lado do muro, com o dinheiro roubado e tudo mais, novamente demonstrando não ter o menor interesse no filho, o que talvez tenha sido o ponto final da história entre aqueles dois. Algo que esse garoto certamente acabaria agradecendo um dia no futuro.

Se por um lado a violência está presente em todos os continentes, do outro, em alguns lugares a justiça ainda funciona e Cyril ao voltar para a casa de Samantha naquela mesma noite, imediatamente já tem que se reportar para a polícia e responder pelo que fez. Um exemplo de como as coisas deveriam funcionar em todo os lugares do mundo, mas a gente por experiência própria pode afirmar que infelizmente isso ainda não é um bem para todos, mas poderia ser facilmente transformado em um alternativa de solução para o tipo de violência que acabamos sofrendo no nosso dia a dia nas grandes cidades cada vez mais violentas por aqui, no Brasil antigo. Deixamos esse FIKDIK em bold e caixa alta.

Perto do final do filme, temos Cyril pedindo desculpas para Samantha, pelo seu comportamento meio assim ultimamente e por tudo que aconteceu, desde os seus surtos violentos com ela, até o roubo que acabou rendendo uma multa para a moça por ela ser a responsável legal pelo garoto naquele momento (novamente, algo que seria uma ótima ação por aqui, não?). E com isso, ele acaba fazendo o pedido que talvez ela estivesse esperando por todo esse tempo, de que ele realmente gostaria de viver com ela, algo que sem ter a menor dúvida, mesmo com todos os dramas dessa história até aqui, ela acaba aceitando e ambos passam a fazer deliciosos passeios de bicicletas em meio as paisagens maravileeeadras da cidade.

Um ótimo exemplo de uma historia onde essa relação de afeto acaba sendo construída entre esses dois até então estranhos, que estão dispostos a se ajudar. Quando naquele momento em que o garoto acabou agarrando a Samantha, demonstrando todo o seu desespero em pouco mais do que alguns segundos, a ponto de até derrubá-la da cadeira, ela poderia muito bem ter simplesmente levantado do chão, arrumado a sua roupa amassada e começado a reclamar sobre o absurdo daquela situação com os demais presentes naquela sala de espera (o que certamente a maioria das pessoas fariam…fato), sobre um problema que não era dela, então porque se importar? Mas ao contrário disso, ela resolveu se importar e assim tentar recuperar uma vida do que poderia não ser uma das melhores opções de futuro para ninguém. Ou seja, por mais clichê que possa parecer, não deixa de ser um belo de um exemplo a ser seguido. Clap Clap Clap!

Fico me perguntando se eu teria feito o mesmo e com isso vou torcendo para que a resposta seja positiva. E caso isso ainda aconteça algum dia na minha vida no futuro, só desejo mesmo que eu seja capaz de me importar, ou certamente eu vou acabar decepcionado comigo mesmo nesse tal futuro.

E quando a gente imagina em um final feliz para o longa, com os dois andando juntos e felizes de bicicleta, acontece algo inesperado, para o desespero de todos. Cyril acaba encontrando o garoto que estava ao lado do seu pai no dia do assalto e que também foi vítima do crime, que nessa hora resolve fazer justiça com as próprias mãos e começa a perseguir e agredir o garoto (fiquei morrendo de pena dele chutando o Cyril, que tentou não reagir, até que precisou se defender), até que em uma tentativa de fuga, Cyril acaba despencando do alto de uma árvore e cai imóvel no chão. CATAPLOFT!

Juro pra vcs que nessa hora eu fiquei paralisado, completamente sem reação, tipo du-ro. Não conseguia aceitar de forma alguma que aquele fosse o final do filme, não para essa história, não para aquele garoto, não para aquelas pessoas. Mas que esse fato, nesse momento serviu para levantar um outro questionamento, quando pai e filho, que no paasado estiveram em uma posição de vítima, dessa vez encontravam-se do outro lado da história, nesse momento como os vilões da vez, o filho por ter sido o agressor do garoto que eles suspeitavam estar morto e o seu pai por ter sido cúmplice.

É nessa hora que a gente percebe o quanto não adianta vc ter uma casa bonita, um emprego bacana, dinheiro no banco, a família perfeita, se te falta caráter. É não adianta. E sendo assim, se vc se reconhecer como esse tipo de pessoa, vc já pode reconhecer que vc falhou como ser humano e nesse caso é ainda pior, pq aquele pai acabou estragando também um outra pessoa, que dependia da sua educação para ser alguém melhor, ou pelo menos  alguém OK.  Algo a se pensar.

Cyril encarou os seus problemas quando foi necessário, correu atrás do pai e da sua bicicleta, ouviu o que ele não imaginava ter que ouvir na vida do seu próprio pai, enfrentou seus bullys, respondeu pelo crime que acabou cometendo, se arrependeu, pediu desculpas. E agora que chegou a vez da “família perfeita” encarar os seus issues? O que seria o melhor a se fazer? Hein?

Obviamente que a “família perfeita” não comete erros e sem perder tempo, pai e filho naquela posição de vilões já começaram a arquitetar um plano infalível para escapar da culpa da morte do garoto, se desfazendo da arma do crime, planejando até jogar essa culpa para o próprio garoto, afinal era a palavra de um jovem órfão, delinquente (na cabeça deles, que fique bem claro) contra a palavra de um trabalhador local e seu filho com um futuro promissor pela frente, então em quem a polícia acreditaria? Hein?

Sinceramente, se o filme tivesse acabado nesse exato momento (e estava muito perto do fim, tipo no minuto final), eu ficaria muito puto. Imagina? Cadê o senso de justiça? Cadê a Cher mexendo os seus pauzinhos e colocando cada um no seu devido lugar? Cadê o final feliz para quem fez por merecer? Precisamos acreditar de que ser uma boa pessoa ainda vale a pena, não?

Mas para a minha surpresa, Cyril acabou levantando daquele chão (e nessa hora eu devo confessar que eu fiquei mais do que feliz. Yei!), sacudiu a poeira e deu a volta por cima, voltando para a casa da Samantha para o churrasco em família que eles estavam preparando antes do acontecido, sem sequer aceitar a ajuda do seus agressores e provando que por pior que seja a sua situação ou o tamanho da sua queda, se vc tiver outra chance, vale a pena se reerguer e continuar a sua volta de bicicleta pelo vizinhança. Maravileeeandro!

Um filme simples, que eu tenho a impressão de não ter custado quase nada para ser feito, mas que com um bom roteiro e atuações impecáveis, certamente vai te deixar com vontade de dar aquele volta de bicicleta que eu tanto venho falando aqui no Guilt para vcs durante todo esse tempo e talvez esse final de ano seja inspirador para esse momento. (Ou seja: Confirmou! Bicicletismo é tendência!)

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5 Respostas to “O garoto de bicicleta – um filme simples sobre o afeto e a falta de”

  1. Dani Z Says:

    Tinha certeza de que você ia adorar, e que bela resenha sobre o filme Essy.
    Ô gurizinho obstinado hein? Nada nem ninguém parava o Cirill. Achei uma lição de vida, tipo de pessoa que por mais quebrada que seja, levanta, sacode a poeira e vai embora. Ele vai ficar bem, vai ficar super bem. O filme é otimista, trata do abandono, da perplexidade decorrente, mas esbanja superação. Ontem assisti CONTAGIO. Hoje comprei tubinhos de álcool gel e espalhei por tudo rsrsrsrs. É bom, vale a pena assistir. Beijinhos querido, ainda passo por aqui pra desejar um Feliz Natal.

    • Essy Says:

      AMEI mesmo. Thnks!
      E que menino delicioso não? Realmente fiquei com a sensação que com aquele tipo de personalidade, nada conseguiria parar aquele garoto na sua vida. Na-da.
      Ainda bem que o final foi super otimista, uma lição mesmo, pq eu não suportaria ver o Cyril terminando daquela forma que ele não merecia. E aquela Samantha tmbm merece todo o nosso amor!

      Estou ensaiando para ver “Contagio”, que eu acho que eu vou aproveitar o feriado para assistir. Mas tenho medo de ficar mais paranoico ainda. Já sou o Miss Purell por aqui, rs.
      Smacks!!!

  2. The Modern Guilt Awards 2011, a premiação mais aguardada do ano! « The Modern Guilt Says:

    […] é do ano passado, mas nós só vimos esse ano, humpf!. Isso sem contar as nossas deliciosas voltas de bicicleta ao lado do Cyril ultimamente e o fato de fecharmos o ano muito bem acompanhados do delicioso novo […]

  3. The Doctor, The Widow and The Wardrobe – o especial de Natal de Doctor Who « The Modern Guilt Says:

    […] mesmo nome do personagem principal de um dos últimos filmes do ano que eu falei para vcs por aqui, “O Garoto de Bicicleta”. Ou seja, […]

  4. Laure/Mickäel « The Modern Guilt Says:

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