Sherlock, parte 1

Como prometido, acabei utilizando o feriado de carnaval para fazer a minha maratona em Sherlock, série badaladíssima e super comentada da BBC indeed. Mas como nem tudo é perfeito e o meu tempo foi mais curto do que o previsto (humpf!), acabei somente conseguindo assistir a Season 1 da série, portanto essa maratona terá que ser dividida em 2 posts, sendo esse o primeiro deles.

Sherlock é realmente uma série muito especial criada pela parceria Steven Moffat + Mark Gatiss e é assustadoramente muito bem cuidada e com um texto super ágil, inteligente e com uma trama tão complexa, que acaba justificando o tamanho de cada um de seus episódios, com pouco menos de 1h30 de duração cada.

Na nova série, não temos o climão do passado da obra do autor Sir Arthur Conan Doyle, nem temos a Londres vitoriana antiga e tão pouco a série se parece com os filmes recentes e de grande sucesso do diretor Guy Ritchie, que tentou dar um ar mais moderno para o icônico personagem (algo que ele também conseguiu com sucesso), embora tenha escolhido ainda mantê-lo no passado.

Em sua nova versão, tudo é diferente dentro do universo já tão conhecido do detetive Sherlock Holmes e o seu fiel escudeiro, o Dr Watson.  Sherlock vive nos dias de hoje e usa a técnologia a seu favor para a solução dos crimes que ele investiga em parceria com a polícia e o inspetor Lestrade (Rupert Graves). Para isso ele mantém um site, o “A Ciência da Dedução” e utiliza dos recursos da internet a seu favor a todo tempo. Até o cachimbo do passado e o uso de drogas (que eles chegam a mencionar sutilmente quando a polícia invade o apartamento de Sherlock em um determinando momento da série, com aquele humor britânico de sempre) deu lugar para os patches de nicotina que ele usa vários ao mesmo tempo para “se livrar do vício’ e acabar estimulando o seu cérebro ao mesmo tempo. Detalhe que eu achei divertidíssimo.

Com uma mente impossível de ser acompanhada por um simples mortal, os diálogos na série acabam sendo afiadíssimos e super rápidos (muito rápidos mesmo!), trazendo um ritmo assustador para uma série que teoricamente teria tempo para gastar, considerando a duração de cada episódio, que mesmo sendo longos, não são em nada arrastados ou monótomos, mérito desse ritmo alucinante que eles conseguiram alcançar em Sherlock, como se nós estivéssemos de fato acompanhando os acontecimentos no ritmo acelerado do detetive.

Holmes (Benedict Cumberbatch) é um homem extremamente metódico, cheio de manias, mas que dessa vez, tem uma frieza a mais, até mesmo no olhar, quase que como se ele sofresse de algum tipo de síndrome qualquer. O personagem chega a ser extremamente arrogante, mesmo quando não propositalmente, mas tudo acaba sendo justificado na proporção da sua genialidade para decifrar enigmas complicadíssimos e em sua capacidade de enxergar além do que uma pessoa normal conseguiria normalmente.  Em seu famoso figurino, saem o xadrez do chapéu e a sua famosa capa, que abrem espaço para um sobretudo preto, pesado (apropriado para o clima em Londres) e o seu indispensável cachecol, que ele carrega no pescoço o tempo todo.

Fazendo dupla com o personagem, temos o Dr Watson (Martin Freeman, o Tim da versão original de The Office, também conhecido como o Arthur Dent no adorado “The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy”), personagem querido por todos os fãs do investigador. Nesse caso, Watson sofre com as memórias da recente guerra no Afeganistão, na qual ele esteve em campo. Watson também encontra-se sem dinheiro, em tratamento em relação aos traumas da guerra e sem querer acaba dividindo o loft com Holmes, que é apresentado por um amigo do passado e logo, ambos começam a trabalhar juntos. Com isso, Watson também começa a manter um blog onde ele pública artigos relatando suas experiências ao lado de Sherlock, que a propósito, não gosta nada da ideia.

Sherlock Holmes trabalha por diversão em parceria com a polícia (que acha que ele deve ser uma psicopata) nas investigações dos crimes mais enigmáticos da cidade e acaba aceitando dividir o seu loft com Watson, por não ter dinheiro o suficiente para pagar o aluguel. Em um determinado momento da série, conhecemos também o seu irmão, Mycroft (Mark Gatiss), nome que eu sempre confundo com Mycrosoft, rs, que trabalha no serviço de inteligência do governo britânico, esse com mais recursos e dotado de uma capacidade de observação bastante semelhante a do seu irmão.

E a relação entre os dois, Holmes e Watson, é aquela de sempre, um mix de amor e ódio, confundido como uma relação de amor por muitos, como a Mrs Hudson (Una Stubbs), que acredita piamente que eles são um casal que dividem o apartamento número 221B da famosa Baker Street e essas piadas sempre funcionaram muito bem na mitologia de Sherlock Holmes. Mas o humor não é tão presente assim na série, diferente do que estamos vendo no cinema recentemente com o personagem por exemplo, embora as poucas piadas sejam bem excelentes e muito bem executadas pela dupla, no melhor estilo do humor inglês, mas nesse caso, a série utiliza muito mais o recurso do suspense, do que qualquer outra coisa.

Além dos personagem já mencionados, temos também a médica legista que é completamente apaixonada por Sherlock, Molly (Loo Brealey) e que ele acaba convenientemente se aproveitando dessa situação, para ter livre acesso aos corpos moribundos de vítimas relacionadas aos crimes que ele está investigando. Em um outro momento, até mesmo uma pontinha de ciúmes acaba aparecendo por parte dele, mesmo sem ele dar o braço a torcer, em uma cena reveladora e divertidíssima.

Outro característica importante que eu percebi em relação a mitologia já conhecida de outros tempos do personagem é a questão dos famosos disfarces de Sherlock Holmes, que na série aparecem timidamente, como em uma cena onde ele realmente usa um disfarce de segurança ou em alguns momentos onde ele “finge” ser outra pessoa, sem precisar se caracterizar. Uma característica que apesar de pouco utilizada, acabou sendo mantida nessa nova versão da história.

O piloto é sensacional, um dos melhores pilotos que eu já assisti na vida por sinal. Super bem cuidado, com uma ótima introdução aos personagens, além de uma fotografia linda e o uso do recurso da tipografia para ilustrar os textos em SMS na série, ou as pesquisas de Sherlock na internet, detalhes que emprestam à série uma característica única até então (não me lembro de ter visto nada parecido antes a não ser em quadrinhos), algo tão moderno e conceitual ao mesmo tempo. Detalhes que fazem toda a diferença e trazem esse ar de modernidade para o universo de Sherlock Holmes.

Aquela sequência com os dois correndo pelas ruas e becos da Londres antiga por exemplo, com Sherlock utilizando os recursos da sua memória fotográfica, aliado aos sinais e placas que aparecem constantemente durante a cena, é algo muito primoroso e extremamente bem feito pensando-se em uma série de TV. Muito bem feito mesmo! Clap Clap Clap!

Engraçado é que embora eles utilizem recursos super atuais como smartphones, laptops, sites, blogs e o que quer que seja que indique que o personagem agora circula no século XXI, em alguns momentos durante a série, quando eles circulam pelas ruas do centro de Londres, é possível confundir o cenário atual com o do passado, mesmo sem querer. Exceto quando a fotografia da série abre espaço para os prédios da arquitetura moderna da cidade contemporânea, que também são de uma beleza absurda, como o The Gerkin por exemplo, que chega a fazer parte de um dos episódios como cenário para a trama.

A primeira temporada é divida entre 3 episódios, que de certa forma estão todos amarrados entre si, preparando o terreno para a grande revelação do vilão, o arqui-inimigo do detetive, o professor Moriarty (Andrew Scott), que é mais do que excelente, personagem que vai sendo construído ao longo desses episódios com o maior suspense e que  surge ao final da temporada de uma forma sensacional e surpreendente.

E são três episódios bastante distintos. O primeiro (1×01 “A Study in Pink”) é primoroso como piloto, com uma excelente  introdução do clima de investigação que todos nós sempre adoramos quando o assunto é Sherlock Holmes (herança que eu credito a nossa infância assistindo Scooby-Doo, rs), com inúmeras pistas espalhadas durante o decorrer do episódio, que nós nunca conseguiríamos decifrar sozinhos, além da introdução dos personagens e a resolução de alguns issues entre eles mesmo, como o trauma psicológico do Dr Watson pós guerra, que o fazia mancar e que é resolvido ainda nesse primeiro capítulo da história contemporânea do detetive e seu amigo doutor.

O segundo episódio (1×02 “The Blind Banker”) eu considero o mais fraco dos três, isso para o nível de Sherlock, embora seja muito bom também e tenha uma história excelente. Nele, o uso de tipografia durante as cenas aparece de forma diferente, como se eles ainda estivessem experimentando o tipo de linguagem que eles gostariam de seguir abordando na série. E tudo isso com um caso tão complexo e tão excepcional quanto os demais, envolvento até artistas de rua na trama, trazendo inclusive a arte do grafite para dentro do universo da série, algo que no cenário do passado certamente seria impossível.

Como conclusão da temporada, ganhamos o terceiro e último episódio da temporada (1×03 “The Great Game”), que também é uma obra prima e fecha muito bem essa primeira trilogia da série, reunindo características de cada um dos episódios anteriores e colocando tudo em prática de uma só vez. Eletrizante, cheio de reviravoltas e com um vilão totalmente sem escrúpulos, capaz de torturar velhinhas e crianças transformando-as em “homens bombas”, apenas para mexer com a cabeça de Holmes. Esse, bem mais parecido com  o primeiro episódio, até mesmo esteticamente falando, com a organização e os recursos que apareceram no piloto e o fizeram ser tão especial. Um episódio com sequências maravilhosas, com aquela com a lenda judaica, com a dupla enfrentando o Golem no planetário em meio a uma trilha sonora fantástica, ou em cenas de tirar o fôlego como a cada novo telefonema do vilão com uma vítima diferente, que poderia explodir a qualquer momento a medida que o tempo pré determinado por ele estava se esgotando. E a delicadeza de não ter mostrado a criança, quando ela foi a vítima da vez, com apenas 10 segundos para a resolução do seu enigma? SENSACIONAL!

O gancho final da temporada é de tirar o fôlego, literalmente, com o Moriarty finalmente se revelando para Sherlock, com um texto excelente (e uma ótima performance do vilão) e utilizando o Dr Watson como isca para torturar o detetive. Um final excepcional, deixando todo mundo com aquele gostinho de quero mais e com a boca aberta (totalmente aberta), com aquela quantidade todas de lasers vermelhos aparecendo do meio do nada no corpo de cada um deles. Chegando a esse final de tirar o fôlego de qualquer um, devo afirmar que Sherlock é uma das séries mais sensacionais de todos os tempos, reunindo tudo o que a gente sempre gostou no clássico personagem e ainda acrescentando esse ar de modernidade do século XXI, que acabou trazendo uma nova perspectiva toda especial para um personagem tão querido por todos nós. Série obrigatória para quem gosta de TV e vc meu querido leitor, deixe de preguiça, anime-se e vá logo assistir.

Lembrando a todos que para quem se animou e também pensa em fazer uma maratona em Sherlock, o DVD com a primeira temporada já está disponível por aqui e eu super recomendo!

Para a minha sorte, a Season 2 já está encerrada e logo logo eu vou poder matar toda a minha curiosidade em relação a essa delícia que é Sherlock. O duro vai ser depois disso, ter que aguardar até 2013, que é quando a série volta para a sua terceira temporada.

E enquanto isso, na america antiga, já está em fase de produção uma versão americana para a série intitulada elemeNtarY (escrita assim, mesmo, para enfatizar o NY, porque a série vai se passar em New York), que não tem a menor relação com Sherlock da BBC inglesa e inclusive estará sobre os olhos de Moffat e Gatiss, que prometeram ficar de olho e não aceitar nenhum tipo de semelhança ou cópia relacionada à sua criação. Para a versão americana, já estão escalados Jonny Lee Miller (que é um excelente ator, mas que não deveria ter escolhido esse projeto. Quem não lembra dele em Eli Stone?) como o próprio Sherlock Holmes e a grande novidade fica por conta da recém anunciada contratação da atriz Lucy Liu (“Charlie’s Angels”, “Kill Bill”), que será a Dra Watson. Sim, dessa vez teremos uma mulher fazendo parceria com Holmes.

Ou seja, só pelo fato de Watson dessa vez ser uma mulher, eu já bem acho que a série perde aquele humor tão peculiar da relação quase que “homoerotic” entre o detetive e o seu fiel escudeiro (aliás, andei vendo umas fanfics -com ilustrações- por ai, que ai ai ai hein?). Mas vamos ver no que vai dar…

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14 Respostas to “Sherlock, parte 1”

  1. Mônica Says:

    Como fala rápido esse Sherlock, né? E o que é esse final da primeira temporada??? O ator que faz o Moriarty é muito bom! Nem te conto sobre o final da segunda temporada (que, aliás, fiquei sabendo quando entrei no Daily Mail e vi logo na primeira página uma foto do episódio sem um “spoiler alert” , quando eu nem havia começado a ver a série :/ )!
    E confesso que, sobre a versão americana, por enquanto só posso dizer que vou tentar gostar porque se passa em NY e eu amo NY. E gosto da Lucy Liu também. Mas concordo com você e acho que Watson ser mulher vai tirar parte da graça da relação entre os dois. Vamos ver…
    Beijos!

    • Essy Says:

      Muito rápido e o pior é que tudo o que ele fala é importante, então se vc não conseguir entender ou acompanhar, não dá nem para deixar pra lá, rs.
      Toda a série é muito boa e o Moriarty é realmente excelente. Que maluco adorável não? Aliás, ele e o Sherlock fariam uma ótima dupla. Mas estou evitando spoilers a todo custo (mesmo tendo visto uma imagem suspeita tmbm quando estava separando imagens para o post, humpf!)
      Acabei de assistir ao 2×01, que é uma obra prima, o melhor episódio até então pra mim. O que foi a introdução da Irene versão S&M na série? Sensacional!
      Aquele final então, com o “Goodbye Mr Holmes” foi algo além do excepcional. Me arrepio só de lembrar. Para aplaudir de pé. Clap Clap Clap!
      E só nesse ep que eu reparei que as iniciais que ele usa para assinar as suas SMS, são as mesmas que as minhas. #LENTO

      Agora só nos resta ver se os americanos vão conseguir estragar tudo (embora Eu tmbm ♥ NY), ou se vamos ganhar mais uma grande série com um personagem tão adorável quanto Sherlock Holmes.
      Smacks!

  2. Sherlock, parte 2 « The Modern Guilt Says:

    […] eu já havia achado a Season 1 de Sherlock algo verdadeiramente especial, depois de ter finalmente terminado a minha maratona […]

  3. The 10th Doctor (parte 1) « The Modern Guilt Says:

    […] de 2005), mas a minha opinião eu vou deixar por último, porque desde que eu assisti Sherlock (Seaons 1 e 2, que eu também mais do que recomendo!), ando AMANDO cada vez mais o velho e bom clima de total […]

  4. Elementar, minha cara Watson « The Modern Guilt Says:

    […] de tão sensacional que a série inglesa consegue ser. (sério, estou apaixonado – ♥ – parte 1 e parte […]

  5. The 10th Doctor (parte 2) « The Modern Guilt Says:

    […] E é praticamente impossível  assistir a essa temporada de Doctor Who, e não encontrar fortes semelhanças com os caminhos atuais de Fringe por exemplo (semelhanças essas que eu já havia encontrado na temporada anterior, com a questão do universo paralelo), com os personagens do futuro voltando ao passado para dominar a terra e tudo mais, assim como também é praticamente impossível não encontrar alguma semelhança entre a loucura do Master com o vilão Moriarty de Sherlock. Nunca assistiram Sherlock? Vou contar até dois então: um…dois! […]

  6. Elementary, o trailer « The Modern Guilt Says:

    […] ótimo que logo de cara, tudo já me pareceu bem diferente da primorosa série da BBC (Season 1 e Season 2), que prometeu ficar de olho em toda e qualquer semelhança que a versão americana […]

  7. Elementary minha cara Watson… Oh, wait? « The Modern Guilt Says:

    […] qual time escolher nesse caso, aqui estão as minhas colaborações para engrossar o Team Sherlock, Season 1 e Season […]

  8. Sherlock novo? Agora só no final de 2013. Humpf! « The Modern Guilt Says:

    […] também vale ler as nossas reviews dessa série que é muito mais do que apenas sensacional! (Season 1 e Season […]

  9. Maratonas que todos deveriam ter feito em 2012 « The Modern Guilt Says:

    […] Season 1 […]

  10. Sherlock disse que teremos uma Season 4. Será? | The Modern Guilt Says:

    […] e justificativas para que a série tenha uma continuidade, nós temos pelo menos duas bem boas, aqui e […]

  11. Hipácia Caroline Says:

    A MELHOR série que eu já vi. Conheço a história,li os livros. E mesmo assim, o final e a série foi TÃO digno impressionante e incrivelmente emocionante.

    • Essy Says:

      Sherlock é mesmo uma série sensacional. E o melhor é que ela é bem diferente das demais, inclusive daquelas bem boas.
      Acho os finais da Season 1 e 2 sensacionais! E o da Season 3 é diferente, mas é bem bom também!

  12. Sherlock, parte 3 | The Modern Guilt Says:

    […] todo o fundamento que aprendemos a admirar e reconhecer na série desde suas primeiras temporadas (Season 1 e Season 2), com uma fotografia excelente, recursos tipográficos que nos ajudam a compreender  o […]

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