A simplicidade apaixonante de Bill Cunningham e a sua NY

Apaixonante, um documentário para assistir com os olhos cheios de lágrimas. (pelo menos funcionou assim pra mim)

O mundo da moda sempre foi conhecido pela sua excentricidade, egos inflados, muito glamour e um certo sonho impossível, distante da realidade da maioria das pessoas. Até que nos deparamos com uma figura como Bill Cunningham, um homem que é exatamente o oposto de tudo isso, mas que com o seu olhar único e o seu grande interesse dentro desse universo, acabou ganhando a moda aos seus pés com suas imagens lindas que sempre serviram de inspiração para o mundo.

Bill é um homem solitário, que vive da sua paixão. Com sua 29ª bicicleta (as outras 28 segundo ele foram todas roubadas, rs) e uma disposição assustadora para um homem de mais de 80 anos de idade, ele mantém o seu emprego no The New York Times, fotografando o estilo da moda de rua e publicando religiosamente aos domingos, a sua coluna de moda, a “On The Street”. Coluna essa que agora tem formato de áudio no site do jornal e pode se tornar um hábito delicioso para os domingos de todas que não estão lá a partir de agora, seguindo esse link aqui. (não precisam nem agradecer…tisc tisc)

Pouco se sabia da vida do icônico fotógrafo até então e esse documentário, embora muito respeitoso ao seu próprio espaço, traz um pouco mais da vida encantadora dessa figura tão importante para o mundo da moda.

Com depoimentos de figuras importantes como Iris Apfel (outro ícone que eu AMO – ♥ – e que se auto-intitula como a adolescente mais velha do mudo, #TEMCOMONAOAMAR?), Anna Piaggi (♥), Anna Wintour, Annette De la Renta, Tom Wolfe, Kim Hastreiter e Editta Sherman (♥), entre muitos outros, acabamos descobrindo um pouco mais da mitologia desse grande personagem que é o Bill Cunningham. Adorado no mundo da moda, Bill tem o seu espaço garantido pelo respeito a sua profissão, que ele trata lindamente até hoje, mantendo-se distante de toda a afetação e egos cada vez mais inflados desse e de qualquer outro meio de pessoas de sucesso.

Lindo ver uma figura como a Anna Wintour por exemplo, a mulher mais poderosa da indústria da moda do nosso tempo, fazendo questão de parar (com direito a 1/2 sorriso) apenas para as lentes de Bill na movimentada entrada de um evento qualquer da semana de moda de NY. Um sinal claro de respeito e admiração à um trabalhador que poderia ser um dos maiores exemplos dentro desse universo tão competitivo e muitas vezes até cruel.

Chega a ser de uma simplicidade absurda o modo como o fotógrafo ainda se comporta nos dias de hoje, recusando-se a comer ou beber em qualquer uma das festas que ela vá cobrir para o Times, seja elas de moda ou da alta sociedade em NY (que é a sua segunda coluna no jornal, a também famosa “Evening Hous”), mesmo circulando muito bem entre os dois meios, sendo sempre super querido por onde passa. Ou a forma simplista com que ele chega em Paris no desfile da Chanel por exemplo, quase que sendo totalmente ignorado por uma fashionista new generation preguiça que administrava as entradas naquela ocasião, salvo por alguém mais bem informado que diz: por favor, ele é a pessoa mais importante na Terra. (rs)

E a forma como o artista ainda trabalha, mantendo o seu fundamento antigo de sempre, tomando um cuidado enorme com todas as etapas do seu trabalho, para que ele consiga manter a sua identidade, é mais do que inspiradora, ainda mais se vc considerar a velocidade dos dias de hoje. Da revelação, até a diagramação de suas páginas para o The New York Times, Cunningham enlouquece qualquer diretor de arte que resolva cruzar o seu caminho, buscando um perfeccionismo dentro do seu trabalho, que é de uma coerência absurda com a sua imaginação e fundamento, que muitas vezes só faz sentido para ele. Simplesmente inspirador! Não preciso nem dizer o quanto eu me projetei aos 80 anos, assistindo a esse senhor exercendo o seu trabalho com tamanha dignidade e maestria, não é mesmo? (I wish!)

Sem a menor vaidade, Bill abre as portas do seu estúdio/apartamento, recheado de gavetões do tipo arquivo, onde ele faz questão de guardar toda a sua linda história, resultado de muito trabalho. Naquele pequeno espaço, ainda estão todas as suas publicações ao longo do tempo  e o seu trabalho para importantes revistas, como a Details antiga, revista para qual ele emprestou o seu olhar único por muitos anos, ganhando merecidamente cada vez mais espaço para experimentar a sua arte.

Aliás, achei sensacional a história dele não se deixar vender junto com a revista para a Condé Nast no passado, se recusando a sequer aceitar o seu cheque de pagamento. #TEMCOMONAOAMAR? Bill tem uma relação bacana com o dinheiro e opiniões fortes e extremamente sinceras a respeito de não deixar-se ser corrompido por ele. De novo eu repito, um grande exemplo de homem.

Um apartamento simples, sem o menor conforto e isso fica ainda mais claro quando nos deparamos com a sua cama, feita no improviso com o que poderia ser uma porta antiga, apoiada em cima de caixa e revistas provavelmente ainda mais antigas. Sem cozinha, sala, ou qualquer outro ambiente, considerados por ele mesmo como “apenas mais uma lugar para se limpar”, até mesmo o banheiro fica no corredor do prédio, para se ter uma noção do modo em que vivia essa amável figura. (vivia, porque ao final do documentário, temos Bill ganhando o seu novo e mais do que merecido espaço, com uma vista maravileeeandra para o Central Park, algo que ele chega a considerar “ridículo”, rs)

Isso porque Bill Cunningham, encabeça a lista dos artistas antigos que resistiram bravamente pelo direito de permanecer no Carnegie Hall, prédio histórico da cidade de NY, que abrigou inúmeros estúdios importantes de artistas famosos de outras épocas. E não é de hoje que esses artistas travam uma briga séria com a prefeitura de NY, que tem outros planos “comerciais” para o prédio, como o de transforma-lo em mais um prédio corporativo de aglomerados de empresas preguiças que surgem a cada 5 minutos no mercado, sejam elas quais forem. (Zzzz)

No Carnegie Hall, ganhamos ainda a companhia de Editta Sherman, amiga de longa data de Bill, que é uma das poucas que permanece com o seu negócio ainda no prédio. Uma mulher sensacional, super bem humorada e cheia de histórias ao lado de grandes atores do cinema, ou até mesmo de Andy Warhol, de quem ela fez uma foto sensacional que faz plano de fundo para a sua aparição no documentário. Editta ainda faz um lindo desfile de moda com os chapéus antigos da coleção de Cunningham, deixando o amigo completamente envergonhado diante das câmeras. (outra com quem eu mais do que me identifiquei, neam? Maravileeeandra!)

E Bill circula por toda NY como se aquelas ruas fossem o quintal da sua casa, ignorando completamente o caos do trânsito da cidade, por exemplo (mesmo já tendo sofrido alguns atropelamentos). Vai a lavanderia, a loja de fotografia, aos eventos durante o dia ou a noite, tudo isso acompanhado da sua inseparável bicicleta, que ele não dispensa por nada nesse mundo. Talvez venha daí toda essa sua disposição para permanecer por tanto tempo dentro do universo da moda com tamanha força. Claro que isso, aliado a  paixão pela sua profissão, que ele deixa bem claro ao longo do documentário dirigido por Richard Press.

O fotógrafo tem um olhar único, primoroso até, sempre atento a pequenos detalhes, ou padrões que possam identificar alguma tendência da moda de rua que ninguém havia percebido ainda. Seu olhar chega a ser tão especial, que ele é reconhecido até mesmo pela Anna Wintour durante o documentário, que chega a dizer que muitas vezes, nem ela e nem todo o seu time consegue enxergar as maravilhas que só mesmo o Bill Cunningham consegue perceber através de suas lentes, mesmo estando todos eles na mesma sala de desfile. Um reconhecimento mais do que especial.

Mas Bill deixa bem claro que esse seu olhar só tem interesse para algo novo ou realmente especial e que ele morre de preguiça da indústria das celebridades e os seus vestidos de graça. O que ele prefere mesmo é gente comum com fundamento e autenticidade. Achei sensacional por exemplo, quando ele declara que os seus dias preferidos em NY são quando o tempo está meio assim, com chuva ou neve e as pessoas tem que passar por situações desastrosas para enfrentar o dia, revelando uma sequência de imagens impagáveis de pessoas com os pés atolados em neve ou pulando poças de chuva. O que revela que apesar da idade, Bill continua mantendo-se como uma criança arteira, achando graça dessas situações comuns do dia a dia de cada um de nós e talvez esse seja outro dos seus segredos de vida. (anotado)

Amo a sinceridade do próprio, quando ele revela que na maioria das vezes, nem consegue retratar exatamente o que ele gostaria durante os desfiles por exemplo, onde ele faz questão de não ficar juntos com os demais fotógrafos, para não ter uma imagem estática do que é a moda para ele. Ou a simplicidade dele seguir para Paris com o seu “poncho” improvisado com plástico e fita adesiva, que ele exibe com orgulho.

E não tem como não se emocionar com aquele senhor de cabeça branca, que revela que compra as suas famosas jaquetas azuis a preço de banana, sendo reconhecido em Paris por sua importância para o mundo da moda, ganhando uma homenagem linda, que ele retribui falando algumas palavras em francês, até ser tomado pela emoção (que também me levou as lágrimas). Clap Clap Clap! E o que a gente faz com a vontade de abraçá-lo, hein?

Sério, quando eu digo que assisti ao documentário inteiro com os olhos cheios de lágrimas eu não estou brincando e passei boa parte dele com a mão no coração também, sem o menor exagero.

Desde que eu comecei a me interessar mais por moda e passei a ficar de olho no assunto, esse personagem sempre me chamou a atenção. Sempre fui um grande interessado pela moda de rua, pelo comportamento das pessoas comuns e foi dentro dessa curiosidade que eu me deparei com o lindo e importante trabalho do Bill Cunningham. Até me senti um pouco ignorante por não conhecer muito da sua história, a ponto de não ter a menor ideia até assistir ao documentário, de que ele chegou a criar chapéus antes de se transformar no profissional que ele é hoje. Certamente, um homem que serviu de escola para todos esses nomes de hoje que também fotografam lindamente a moda de rua, como o Sartorialist, o Face Hunter e o Jack & Jill, de quem eu empresto o fundamento (sempre com muito respeito e admiração) quase todos os dias aqui no Guilt, com o nosso já tradicional Look 4 Today.

O documentário termina lindamente, com uma festa organizada pelos colegas de trabalho do Bill no Times, com todos vestido com o mesmo casaco azul que é a marca do fotógrafo e enormes máscaras com o seu sorriso inconfundível. E ver aquele senhor trabalhando com o que ama e extremamente feliz e disposto a encarar mais um ano da sua vida com tamanha força, chega a ser uma lição para todos nós, que ainda estamos engatinhando lentamente nesse meio e de vez em quando, como qualquer ser humano, nos sentimos meio assim…

Perto desse fim, em um determinado momento Bill é questionado sobre a sua vida amorosa e a sua relação com a igreja, que ele diz frequentar todos os domingos, por necessidade e também para ouvir as músicas (sério, #TEMCOMONAOAMAR). Sem se sentir constrangido e mesmo timidamente, Bill responde a pergunta que não quer calar com maestria, em uma das declarações mais honestas e sinceras, vinda diretamente de um homem de uma geração muito diferente  e bem mais difícil e complicada do que a nossa. (♥²)

Só vou ter que discordar com quando o fotógrafo revela nunca ter vivido uma relação de amor, por não sentir que isso é verdade. Apesar de ter ficado bem claro qual o tipo de amor que ele estava sendo questionado naquele momento, acho sim que o Bill Cunningham viveu e vive até hoje uma grande relação de amor e a sua parceira de muito tempo é a moda, uma amante muitas vezes cruel, mas que para a nossa sorte, tratou esse artista muito bem. (♥)

Um filme para vc assistir toda vez que pensar em desistir e morrer de vergonha de sequer pensar nesse hipótese.

No dia 23 de Abril desse ano, Bill Cunningham receberá um prêmio em NY por toda a sua dedicação ao mundo da moda, onde ele deverá receber o prêmio  Carnegie Hall Media of Excellence, em um evento de gala e beneficente no Waldorf Astoria.  O prêmio deverá lembrar os seus quase 50 anos dedicados a profissão, tendo como chairs Annette e Oscar de La Renta, além da atriz Sarah Jessica Parker. Certamente, mais uma data em que todas irão se vestir especialmente para o Bill. Aliás, alguém que estiver por lá nessa ocasião, poderia fazer o favor de abraçá-lo por todos nós? Obrigado!

ps: motoristas desavisados de NY, todo o cuidado desse mundo quando um senhor de camisa azul e cabeça branca estiver por perto com sua bicicleta ou câmera fotográfica. Please! (fico com o coração na mão com ele correndo feito louco no meio dos carros e táxis amarelos, rs)

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Uma resposta to “A simplicidade apaixonante de Bill Cunningham e a sua NY”

  1. The Modern Guilt Awards 2012, a quarta edição do prêmio mais sensacional de todos os tempos « The Modern Guilt Says:

    […]  “My Week With Mariyln” ,  “Tomboy” ou o excelente documentário “Bill Cunningham New York, para citar apenas alguns ótimos […]

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