Uma semana meio assim com Marilyn

Quando a insegurança mostra que tem o poder de acabar com qualquer um, inclusive com a Marilyn Monroe.

Será que eu sou boa o suficiente? Será que ninguém vai me enxergar como eu realmente sou? Será que eu vou conseguir dar conta de interpretar outra pessoa, mesmo sem conseguir me interpretar?

Questões que certamente passaram pela cabeça de Marilyn Monroe, na versão de “My Week With Marilyn” para o cinema dirigida por Simon Curtis. Um filme melancólico, que escolheu mostrar o outro lado de um dos maiores ícones de beleza do mundo, sem ignorar o fato dela talvez ter sido a mulher mais desejada dos últimos tempos, fator que é claro que não poderia ser deixado de lado. Mas nessa versão, ganhamos uma Marilyn completamente insegura, frágil, bem diferente daquela explosão que todos nós estávamos acostumados a ver nas telas do cinema (no nosso caso, nas telas de TV mesmo, rs).

O filme é literalmente um sonho, como se estivéssemos vivendo esse tal sonho sobre o olhar do personagem principal, Colin Clark (Eddie Redmayne), personagem esse que dá vida ao autor do livro que resultou no longa. Ele que acaba conquistando a confiança da Marilyn em um momento bastante complicado de sua vida, quando ela estava prestes a se separar do seu terceiro marido, o dramaturgo americano Arthur Miller. E isso do alto dos seus trinta e poucos anos e em uma época totalmente diferente da nossa, o que já dá até para imaginar um pouco mais desse drama todo de ver mais um casamento não dando certo e isso tão cedo em sua vida.

Quase como se ele não acreditasse no que estava vivendo, Colin vai se aproximando timidamente da grande estrela por conta do seu trabalho como terceiro assistente durante as filmagens de “O Príncipe Encantado”, filme que marcou a primeira passagem da estrela de Hollywood por terras inglesas. Obviamente que ele já carregava uma grande admiração pela mesma, como qualquer outro mortal naquela ou em qualquer época, embora tentasse esconder toda a euforia de trabalhar bem próximo a um dos grandes ícones do cinema, isso logo em seu primeiro trabalho na industria cinematográfica, que sempre foi a sua grande paixão. Devido a essa proximidade e por manter um olhar diferente ao que ela estava acostumada receber, com um enorme respeito além da admiração, algo que aparentemente não parecia ser o forte das pessoas daquela época em relação a um ícone tão importante (algo bastante comum e que ainda hoje se repete), ele assim acaba despertando o interessa de Marilyn, que escolhe passar um tempo na companhia do assistente, enquanto tenta se encontrar e resolver as suas questões pessoais.

E nesse caso, a Marilyn Monroe interpretada dignamente pela atriz Michelle Williams também chega com toda a força de uma grande musa do cinema, atraindo todas as atenções, os flashes e todos os olhares por onde ela passava, nada diferente ao que já ouvimos falar sobre o mito. Exceto quando ganhamos alguma intimidade com a personagem,  em momentos em que ela se revela como uma mulher completamente insegura e visivelmente triste, vivendo quase que em um pesadelo de ter que atender sempre as necessidades do outros, sem poder se mostrar como ela realmente gostaria de ser vista.

No filme, Marilyn parece viver algo que hoje poderia ser rotulado como “síndrome do pânico” por exemplo, demonstrando claramente uma sensação quase que claustrofóbica quando ela se vê cercada de fãs no meio do nada por exemplo, ou quando se sente insegura em relação a interpretação dos seus personagens. E essa sensação é evidenciada em closes intimistas com flashes estourados registrando cada um desses momentos, mostrando claramente o incomodo da personagem em relação ao meio em que vive e a sua insatisfação.

Nesse momento, perdemos a grande estrela dos cinemas para ganhar uma mulher completamente frágil, que apesar de ter um ideia do que ela gostaria para a sua vida, parece não ter força para buscar os seus objetivos sozinha, encarando duramente as consequências dessa falta de coragem.

Talvez por esse motivo, ela vivesse cercada de funcionários, que acabavam controlando-a como uma marionete, enchendo-a de remédios para tornar mais fácil a convivência com a sua personalidade depressiva, mantendo assim os lucros de todos os interessados em enriquecer a troco da vida e do talento desse grande ícone.

Engraçado que se vc parar e pensar no assunto, esse tipo de comportamento do passado se repete até hoje com as nossas atuais “musas” das mais diversas áreas, que se cercam de sua entourage, em uma tentativa desesperada de blindagem, evitando de certa forma lidar com a realidade para que os seus egos continuem inflados o suficiente para que assim elas possam sobreviver em um mundo cada vez mais cheios de opiniões por todos os lados. É claro que isso não é o que acontece com todas e a personalidade individual de cada uma delas pode ser um fator importante para essa inclinação ao mesmo tipo de  insegurança da Marilyn dessa versão no cinema, por exemplo. Algumas aproveitam essa entourage para fazer algo cada vez mais profissional, tomando conta de suas carreiras por todos os lados, aproveitando para cuidar de perto de tudo, enquanto outras sucumbem a praticidade de ter alguém resolvendo todo e qualquer tipo de problema por elas e assim vão perdendo (as vezes até sem perceber) o controle de suas próprias vidas. Dois nomes atuais podem ilustrar bem essa minha teoria: Madonna e Britney Spears (nessa ordem).

Enquanto assitia ao filme, fiquei pensando o tempo todo que se a Marilyn de ontem achava difícil viver no passado, imagino o curto período que ela duraria nos dias de hoje, em um mundo cada vez mais “profissional” no assunto celebridades e ao mesmo tempo sem o menor limite ou até mesmo respeito por todas elas. (em alguns casos…)

Eu, que sempre fui um grande fã da Marilyn Monroe, sinto em dizer que nessa hora faltou um pouco mais de personalidade e até mesmo de força para aquela mulher. Não adianta reclamar e lamentar que o mundo não consegue enxergá-la de outra forma, quando vc se mostra para ele do mesmo jeito o tempo todo (mesmo contrariada), sem ao menos tentar deixar uma outra impressão qualquer e no filme ela sequer faz muito esforço para isso, pelo menos não durante aquela semana. Fazer isso porque convém, porque alguém disse que tem que ser assim, ou porque foi assim que vc se tornou conhecida, me parece o caminho mais fácil (e lucrativo), o que em muitos casos, pode também ser o mais doloroso, por tamanha omissão a sua verdadeira identidade.

Normalmente eu tenho pena desse tipo de pessoa, mas ao mesmo tempo não tenho a menor paciência para gente insegura que precisa de elogios o tempo todo para se sentir melhor, ou qualquer outro tipo de características que indiquem falta de personalidade. Muito provavelmente, esse foi um dos fatores determinantes para a vida infeliz de Marilyn no campo amoroso, como mostra o filme. Não há beleza que resista a tamanha insegurança, não há! Ao mesmo tempo, eu também acho que depressão é uma coisa muito séria e muito mais profunda,  uma doença do tipo que é necessário bem mais do que uma simples conversa com um amigo, por melhor que ele seja (mas as vezes já ajuda), o que significa que quando necessário, deve-se procurar uma ajuda mais especializada no assunto. Algo que talvez também tenha faltado para a nossa Marilyn.

Deixando um pouco de lado essa questão toda da fraqueza demonstrada pela personagem no longa, tenho que dizer que as interpretações no filme estão excelentes. Desde o “vilão” da história, o ator e diretor Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh), que também se revela como uma pessoa insegura, em um outro nível de insegurança, do tipo que opta por um comportamento mais agressivo como mecanismo de defesa, ele que morria de medo de não conseguir acompanhar o futuro da arte que exercia e por isso acabou pressionando demais a própria Marilyn no filme enquanto trabalharam juntos, aproveitando de sua fragilidade em um bullying constante e totalmente desnecessário em alguns momentos. No longa, contamos também com a interpretação sempre excepcional da atriz Judi Dench, essa sim interpretando uma mulher invejável, a atriz Dame Sybil Thorndike, completamente segura do seu talento e disposta a ajudar uma novata insegura perdida em terras desconhecidas, com uma generosidade pouco comum dentro desse e qualquer meio. E quem já foi estagiário por exemplo, sabe exatamente do que eu estou falando, rs.

Outro que me chamou muito a atenção no filme foi o jovem ator Eddie Redmayne (Höy!), que conseguiu traduzir em sua deliciosa interpretação bastante do encantamento de estar diante de um ícone como a Marilyn Monroe. De fã encantado diante de sua musa, ao homem apaixonado pela ideia de ter a sua própria Marilyn, ele vive lindamente esses sete dias ao lado da grande estrela, completamente em êxtase,  mesmo sem tratá-la como tal, apenas considerando-a como uma pessoa comum que naquele momento precisava de companhia, que na verdade, era tudo o que a Marilyn desejava na vida, companhia. Mas é difícil exigir companhia o tempo todo e não conseguir encontrar nada de positivo nos momentos em que vc se encontra sozinha. Bem difícil.

Michelle Williams realmente fez um ótimo trabalho no papel dessa nova versão para a Marilyn Monroe. Eu que nem acho ela muito parecida com a estrela do passado, fiquei impressionado com a semelhança que ele conseguiu atingir em algumas cenas do filme, algo que chega a ser quase assustador. Como no momento onde ela está completamente fora de si, deitada em uma chess (maravileeeandra, diga-se de passagem) no meio do seu camarim e é surpreendida por Colin. Ou em outro momento, esse durante as gravações da cena em que ela ensaia uma coreografia animada em um cenário lindíssimo para o longa que estavam filmando. Fiquei impressionado também em como eles conseguiram modelar o corpo da atriz, fazendo com que ele lembrasse aquelas curvas de antigamente, hoje tão fora dos padrões de beleza. Mas a sua interpretação não chega a surpreender, porque nós já vimos a atriz interpretar mulheres mais ou menos parecidas em outras ocasiões (ou pelo menos, mulheres que enfrentavam situações parecidas na vida), mesmo tendo realizado um trabalho excelente nesse caso, interpretando alguém que realmente existiu. (mais ou menos o mesmo que eu achei da Kirsten Dunst em “Melancolia”, uma excelente performance, mas sem grandes surpresas, sabe?)

Mas é claro que todos agradecem por ela ter sido a escolhida para dar vida a essa versão da Marilyn (o que apesar de não ter me surpreendido, eu repito que ela realizou um excelente trabalho) do que uma Scarlet Johansson, por exemplo.

Apesar do filme tratar de uma alma feminina ao extremo como todos nós imaginamos ser a Marilyn Monroe, ele parece extremamente masculino em diversos momentos e aspectos. Seja pela prática como a história é contada, ou até mesmo na organização dos elementos em cena, tudo muito alinhado, detalhes que ficam mais evidentes no começo do filme até, algo que imprime uma organização tipicamente masculina. As cores também são lindas, tudo meio apagado, frio, com o clima exato do que se espera de Londres em qualquer época do ano, fazendo o contraponto com a luz da própria Marilyn, que iluminou aqueles cenários como ninguém com a sua enorme beleza.

O figurino é bem sóbrio e pouco rico. Não existem muitas trocas, tudo é bem clássico, estruturado e elegante. Nessa caso, o maior trabalho talvez tenha sido feito com os personagens masculinos do longa, que são de maior número e abusam mais da alfaiataria. Tudo muito sóbrio e correto. Durante o filme, chega ser engraçada a dificuldade com que a Marilyn tem ao se locomover dentro de um dos figurinos, mostrando que não é de hoje que as mulheres sofrem em nome da beleza.

Nele, ainda ganhamos uma deliciosa viagem ao castelo de Windsor, com direito a uma visita à biblioteca do local e o encontro da Marilyn com a casa de boneca dos sonhos de muitos. Nesse momento ela  chega até a brincar com o seu próprio estereótipo, aceitando “fazer a Marilyn” para os funcionários do palácio, como agradecimento a toda gentileza com que foi recebida por lá.

Outro ponto forte que eu acho que vale a pena destacar sobre “My Week With Marilyn” é o bom humor da personagem, sempre com uma tirada engraçada sobre alguma coisa, carregando vestígios do típico humor americano. Um bom exemplo disso é quando ela é questionada sobre não usar nada a não ser perfume na hora de dormir (uma lenda que eu acredito ser conhecida por todos) e ela retrucar dizendo que como dessa vez ela estava na Inglaterra, ela não usava nada a não ser a lavanda Yardley, fragrância famosa da terra da rainha. Será que ela tinha uma resposta pronta para cada locação? Fico imaginando qual seria a resposta caso a pergunta fosse feita no Brasil…

Como o filme é baseado no livro “My Week With Marilyn” do autor Colin Clark, no seu desfecho final, vc acaba sentindo um pouco de falta da alma feminina dessa história. O que pode parecer até impossível quando o assunto é Marilyn Monroe com personagem principal por exemplo, mas a verdade é que o filme acaba devendo um pouco mais de sentimento, algo a mais que fizesse vc entender um pouco mais aquela personagem, do que apenas observá-la de longe e sentir pena. Eu diria até que ele tem uma visão quase que machista para a história, com aquele homem (Colin) se considerando como uma espécie de solução para os problemas da Marilyn, mesmo que isso tenha acontecido quase que timidamente no filme. Como se toda aquela insegurança fosse resolvida com um história de amor com final feliz com o encontro do homem certo para aquela mulher. E a insegurança da profissional como atriz, resolvemos como? Por isso, considero que o problema nesse caso era bem mais embaixo do que uma par de calças bem cortadas.

Digo isso porque eles fizeram tanta questão de ressaltar essa questão da atriz não querer ser vita apenas como um pedaço de carne, ou uma mulher bonita e vazia, mas ficou visivelmente faltando algo mais para reforçar essa teoria, uma sensibilidade maior para reforçar que ela realmente não era apenas aquilo que a maioria das pessoas conseguiam enxergar e que parecia ser o que mais uma vez ela estava mostrando ser. Mas como essa foi a impressão do autor, que viveu de fato uma semana ao lado da Marilyn e o filme conta a visão dessa minúscula parte da sua vida, nós não podemos discutir impressões que não foram as nossas naquele momento. Ainda assim, trata-se de um bom filme, com uma nova versão da história desse icone, o que é sempre bem bacana, além de contar com interpretações sensacionais dos demais atores no elenco.

E vale um pouco também como reflexão sobre quem são/foram os nosso ídolos… (para pensar…). Aliás, estamos com ótimos materiais sobre Marilyn por esses tempos não? Além do filme, vale lembrar também que temos a nova  série da NBC,  Smash, que conta a história dos bastidores de um musical sobre a Marilyn, sendo produzido nos dias de hoje e que também nos conta um pouco mais sobre a vida desse grande ícone que foi a Marilyn Monroe.

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7 Respostas to “Uma semana meio assim com Marilyn”

  1. Ettier Says:

    O que você achou da participação da Emma Watson no filme…

    • Essy Says:

      Então…
      Eu gosto muito da Emma Watson, mas até escolhi deixá-la de fora do post, post achei a sua participação tão mínima no filme…
      Sabe aquele papel que poderia ser de qualquer pessoa?
      Mas achei bem humilde da parte dela ter aceitado participar do longa mesmo assim.

  2. Ettier Says:

    Ainda não vi o filme, mas parece que participação dela é pequena mesmo. “aquele papel que poderia ser de qualquer pessoa?” rsrsrs.

    • Essy Says:

      É bacana, vale a pena ver. Mas o papel dela é realmente bem pequeno. Tipo 3 cenas, rs

      • Ettier Says:

        Tenho a impressão que ela fez esse filme pelo bom elenco que ele tem e para tentar se firmar depois de Harry Potter. O filme só estréia aqui em Goiânia na sexta..af.

      • Essy Says:

        Acho que sim, e como é uma produção inglesa, talvez tenha sido só uma participação afetiva mesmo.
        E que barra, hein Goiânia? (mesmo em SP, as vzs é bem difícil também conseguir assistir filmes bacanas mas não tão populares assim…Humpf!)

  3. The Modern Guilt Awards 2012, a quarta edição do prêmio mais sensacional de todos os tempos « The Modern Guilt Says:

    […] Need to Talk About Kevin” ,  “Carnage” ,  “The Descendants” ,  “My Week With Mariyln” ,  “Tomboy” ou o excelente documentário “Bill Cunningham New York, para citar […]

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