A boa surpresa de “The Hunger Games”

Realmente uma boa surpresa. Mas por enquanto, só boa…

Toda vez que surge um best-seller dentro do universo adolescente, eu, a essa altura já muito bem escolado, acabo ficando sempre com os dois pés atrás, totalmente a parte da excitação exagerada que se tem quando adolescente, por exemplo. Isso porque tenho um certo trauma de que ao invés do novo “Harry Potter”,  acabe surgindo mesmo é o novo “Twilight” e uma outra porcaria com essa eu acho que ninguém mais aguentaria. É, quer dizer…os números dizem que há quem ainda aguente, rs. Mas para a minha total surpresa, esse não foi nem de longe o caso de “The Hunger Games”, sucesso em formato de livro que esse ano ganhou a sua aguardada versão cinematográfica dirigido por Gary Ross (“Seabiscuit”, “Pleasantville”)

Digo aguardada, porque muito se falava sobre o filme antes mesmo dele ser lançado, criando uma certa expectativa até mesmo por mim, que cheguei a ficar bem curioso sobre o assunto (o que geralmente não precisa de muito, porque sou uma pessoa curiosa por natureza). Por todos os lados surgiam fotos e mais fotos dos sets de filmagens, personagens com figurinos exóticos e muita especulação sobre o possível novo sucesso dos cinemas. Mas seria tudo isso um motivo confiável para realmente se animar com a novidade?

E até que depois de ter assistido ao filme, eu posso dizer que confirmou e tenho que ser honesto em admitir que não é que “The Hunger Games” é bem bom?

Desconsiderando a euforia dos adolescentes em torno do asssunto, podemos dizer que o filme é bem bom sim, a começar pela história, que é excelente e que no filme, apesar de tudo correr com uma certa pressa, mesmo com a sua longa duração, me pareceu ter sido bem aproveitada na medida do possível. E não, eu não li os livros, mas tudo bem, vamos falar sobre o filme mesmo assim, afinal, para ser compreendida, uma coisa não precisa (e nem deve) necessariamente depender da outra.

Talvez a grande diferença de “The Hunger Games” esteja mesmo no elenco, o que já de cara o diferencia da saga vampiresca interminável de ultimamente. Atores conhecidos e consagrados, como Stanley Tucci ou o Woody Harrelson e a novata Jennifer Lawrence, que com uma indicação ao Oscar para carregar para o resto da vida nas costas, quase nada além de uma boa história (+ $$$) justificaria o seu papel  de protagonista no filme. Ainda mais porque ele não chega a exigir muito do que ela já provou que poderia entregar como atriz,  mas mesmo assim, a sua Katniss Everdeen se torna uma personagem importante, muito mais pela sua força e por toda a coragem do seu perfil perfeito de heroína, do que por qualquer outra coisa.

No filme, a batalha dentro do próprio jogo é tratada com uma ironia deliciosa, como se  todos os olhos estivessem voltados para “as regras” dos realitys shows que todos nós já estamos mais do que cansados de assistir há pelo menos uma década, de um jeito bem divertido até, mostrando de forma bem cínica o que todos nós acabamos engolindo por todos esses anos à frente da TV, com ou sem querer. Com a diferença de que naquele caso, os escolhidos para participar dos jogos não tinham nenhuma outra opção de escolha de tentar trilhar um caminho diferente a não ser o eterno caminho das subcelebridades ex alguma coisa de hoje em dia.

E as regras são bem claras, totalmente injustas e mutáveis o tempo todo, e eles mostram sem o menor pudor que quem ganha nem sempre é o mais forte e sim o mais carismático, que recebe uma chuva de paraquedas de patrocinadores (literalmente), apoiando a postura dos seus participantes queridinhos que com isso, ganham certos benefícios importantes para se manter no jogo de vida ou morte, mostrando o quanto a audiência é altamente influenciável e totalmente manipulada o tempo todo nesse tipo de situação, influenciando diretamente no resultado final. Uma realidade forçada, manipulada, feita para entreter e gerar lucros descaradamente e qualquer semelhança com a realidade, certamente não é mera coincidência. E vale de tudo para vencer esse jogo, unir forças para se tornar imbatível, tentar forçar um casal (mesmo que nesse caso haja alguma verdade) para tentar garantir na emoção e vale também cuidar dos indefesos, com ou sem segundas intenções, afinal, quem não gosta de um bom herói? Tudo na verdade funciona com uma estratégia para levar o jogador o mais longe possível dentro do jogo a ponto de torná-lo o grande vencedor. Vencedor esse que é o único a sair vivo entre os participantes, diga-se de passagem. Por isso, assim como há pouca justiça no Hunger Games, há também pouca naturalidade.

Bacana ver também que existe um pensamento de postura política por trás daquele texto, detalhe que é super bacana e acaba funcionando muito bem para a história, mostrando o sofrimento dos menos favorecidos e o que as vezes eles tem que se submeter para que os mais afortunados tenham algum motivo para sorrir e se sentirem entretidos. Transferindo para a nossa realidade, vc que ligou a TV agora e está assistindo a um programa sensacionalista qualquer, achando graça da desgraça alheia ou ainda que esteja assistindo a um apresentador pseudo-caridoso com cara de bom moço de família, que “gentilmente” gosta de ajudar aos mais necessitados, mostrando cada gota de suas lágrimas ao vivo na TV, explorando o máximo da pobreza a troco de uma reforma, de um carro novo, de um copo de refrigerante sem gelo com 3 bolachas cream cracker, ou o que quer que seja, vc já poderia até ser considerado facilmente com uma das pessoas caricatas da Capitol. E que fique bem claro que isso não é um elogio…

Aliás, aqueles personagens da Capitol parecem todos terem saído diretamente de uma reunião de TCCs de Moda desse meu Brasil a fora, não? De uma edição all stars até, rs. Endinheirados super exagerados, exaltando o luxo e a riqueza em seus trajes nada convencionais e de pouquíssimo bom gosto também. Poderia ser mais bacana se eles fossem apenas pessoas livres, que gostassem de se arriscar mais, o que não é o caso dos personagens do filme (só no filme?), que querem mesmo é aparecer e transparecer riqueza.

E enquanto isso, do outro lado do muro, os habitantes dos 13 (agora apenas 12) distritos rebeldes, seguem lutando por um pedaço de pão velho (literalmente), as vezes sujo e molhado (glupt), sendo obrigados a viver com o mínimo, apenas por não aceitar as regras que lhes foram impostas por forças maiores. Alguma semelhança com a realidade? Viu como ser rebelde de verdade não é nada fácil? PÁ! (tapa na cara)

Bacana também é ter a mulher como a grande heroína do filme, tirando-a completamente daquele lugar comum da mulher frágil de antigamente e a colocando em um campo de batalha injusto, enfrentando de crianças até marmanjos barbados e cruéis, e isso de igual para igual, sem mimimi. E esse é outro dos motivos que fazem da personagem principal (Katniss) uma grande personagem, como eu disse no começo do post. A heroína que não conhece as regras do jogo e tem dificuldades em segui-las, que começa a conhecer e se rebelar contra a sujeira dos próprios jogos, que tem sentimentos, que se oferece para lutar no lugar da irmã mais nova, que tem piedade dos seus oponentes “mais fracos”. Realmente, é impossível não adorar a Katniss e torcer para ela,  mesmo que a personagem pouco fale no filme e passe boa parte dele tendo a sua força testada.

E o mesmo vale para o lado masculino da força do distrito 12, o adorável Peeta Mellark (Josh Hutcherson), que é puro carisma e consciente disso, abusa dessa sua característica para compensar a sua falta de força e habilidades para o jogo. Embora eles tentem por boa parte do filme pintar o personagem de forma dúbia, acaba ficando bem claro quais são as suas verdadeiras intenções dentro daquele jogo, que agora para a nossa sorte, tem regras mutáveis e com isso a esperança de um final feliz para ambos representantes do distrito passa a ser mais real, ou pelo menos mais completa, digamos assim.

Os coadjuvantes também são todos excelentes, valendo um destaque especial para o Stanley Tucci, que interpreta Caesar Flickerman, o apresentador do talk show onde os participantes tem a chance de se expor para a grande midia, tentando ganhar a sua atenção e nessa hora, ganha quem tiver mais carisma e souber como utilizá-lo a seu favor.

O clima futurista do filme também é bem bacana, porque apesar de ficar bem claro que vivemos numa outra época dentro do longa, o contraste entre a Capitol, que é a parte rica da trama e os outros distritos com menos grana, dão um contraste bacana entre essas duas formas de vidas tão distintas (algo como a vida no campo e na cidade grande) e de certa forma codependentes. Além disso, a moda também tem um certo destaque no filme, embora a sua intenção na história seja também a de fazer uma crítica, do quanto julgamos pela aparência e blah blah blah. Dei uma olhada na trilha e também achei no mínimo curiosa, com nomes como Arcade Fire, Kid Cudi e Taylor Swift (Zzz…nem tudo é perfeito) e a parte instrumental da mesma, também é bem boa.

Claro que como toda boa adaptação, os fãs mais pedantes da séries de livros da autora americana Suzanne Collins, acabaram reclamando sobre pontos que não foram tocados na versão cinematográfica, ou que foram modificados. Houveram inclusive críticas racistas envolvendo a escolha do casting do filme, algo que eu teria vergonha até de contar para vcs, só de pensar que hoje em dia ainda há quem pense dessa forma escrota. Mas analisando como um todo, o filme é bem completo, cumprindo muito bem a sua função entre a história e a sua execução, funcionando perfeitamente como um bom entretenimento.

Mas apesar de ser um filme bom, senti que a história me pareceu corrida um pouco até que demais para aqueles 144 minutos de sua duração. Achei por exemplo, que uma boa parte dele foi mal gasta naquela introdução antes do jogo, algo que poderia ter sido melhor apresentada, com mais informações sobre os personagens ou até mesmo sobre a mitologia da série de livros. Quem é quem, o porque de tudo aquilo, coisas desse tipo que no filme quase não aparecem e/ou quando aparecem, são apenas pequenas pinceladas de informação. Fora isso, aquela câmera meio trêmula também dessa primeira parte do filme (depois tudo bem, na hora do jogo pelo menos seria justificável), chegou a me incomodar bastante, principalmente quando as imagens apareciam fora do foco por alguns instantes. Cheguei até a ficar na dúvida se estava de óculos ou não, rs. Achei que se eles tentaram imprimir fundamento com esse tipo de detalhe, acabaram imprimindo mesmo foi amadorismo, além de prejudicar quem assiste ao filme nesse caso. (fiquei meio enjoado até)

Mas a história como eu disse é realmente muito boa, assim como o filme em si, que funciona muito bem como “Sci-Fi da nova geração”, além de ser um bom filme de aventura e romance, cumprindo todos os requisitos básicos para tal. Acho até que há uma boa e promissora possibilidade para que essa se torne uma saga digna de se prestar atenção daqui para frente. Nada do tipo que a gente precise urgentemente, enlouquecidamente, ou qualquer coisa do tipo. Mas vale a pena assistir sim “The Hunger Games” e reconhecer que dessa vez, as crianças tinham sim razão, rs.

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4 Respostas to “A boa surpresa de “The Hunger Games””

  1. Vanessa Tourinho ઇ‍ઉ (@VanTourinho) Says:

    Eu como boa bookaholic já tive a oportunidade de ler o livro. Infelizmente, tempo para assistir ao filme não surgiu. :/
    Gostei da história, sim, mas toda a expectativa que criei, por ouvir taaaaantas pessoas falando do livro, assim que ele foi lançado, acabou sendo ruim para minha leitura. No final achei o livro bom, mas não achei “aquilo tudo” de que tanto falavam. Talvez tenha sido culpa do ótimo livro de James Dansher, o Maze Runner (que, aliás, irá virar filme. Fica a dica!), ou eu que estou me tornando exigente demais.
    Mas estou ansiosa para assistir ao filme.
    Aliás, essas distopias são a nova onda do momento! Já vi mais dois livros do gênero que se tornarão filme.
    Mas Essy, no final, aquele fanáticos pela história acabam reclamando até da posição da sombra dos personagens, e se esquecem de que é uma ADAPTAÇÃO e não uma transcrição total do livro para a tela do cinema. ¬¬
    Quanto ao racismo, eu achei uma idiotice das pessoas que reclamaram dos atores! ¬¬
    Enfim, acho que me empolguei. Deixe-me ir.
    Beijos.

    • Essy Says:

      Vc sabe que eu passei por algo parecido, só que a respeito do filme.Humpf!
      Muito se falou sobre ele antes, durante e depois do seu lançamento, que eu senti que acabei sendo prejudicado de alguma forma…(praticamente li o livro, de tanto que ouvi falar sobre os plots mais importantes dele)
      Tanto tive a mesma sensação, que só consegui achar a história boa e não sensacional como a maioria tem achado. Embora, ache que tem potencial.

      Ultimamente, tenho me irritado cada vez mais com fãs pedantes. E não só de The Hunger Games, com o de Game Of Thrones, True Blood…e por ai vai.
      Fãs esses que não aprenderam ainda a diferença entre adaptação e transcrição, fato.
      Como reclamam neam? Pior é que reclamam sempre da coisa errada, de um detalhe inútil ou por algo absolutamente escroto, como foi o caso dos comentários racistas a respeito do elenco. Que coisa vergonhosa, não?

      Smacks!

      ps: dica anotada sobre “Maze Runner”.

  2. Cleo Says:

    Acabei de chegar do cinema e gostaria de ter visto as qualidades que vc viu. Me decepcionei. Mas concordo qto ao tempo mal aproveitado da 1º parte do filme, sim, dividi o filme em duas parte, e aquele tremor da câmera.

    • Essy Says:

      Jura? Até que eu gostei, apesar de ter ouvido/lido de tudo antes de assistir o filme, inclusive os plots do livro.
      E aquela câmera trêmula, realmente me fez pensar que eu estava perdendo o foco de vez, rs

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