Laure/Mickäel

Quando a sua imagem não reflete a sua alma.

Imaginem a dificuldade de se olhar no espelho e não conseguir enxergar exatamente aquilo que vc é. Imaginem o conflito de não se sentir adequada ao seu próprio gênero e corpo, o que no mínimo deve ser uma tortura diária, em diversas situações. Agora imaginem esse cenário dentro da vida de uma criança de apenas 10 anos, ainda descobrindo as suas preferências, prestes a conhecer uma parte importante de quem ela será para o resto de sua vida.

(…)

E com uma sensibilidade fora do comum (apesar do título que já carrega um certo “peso”) esse é “Tomboy”, um filme delicadíssimo da diretora Céline Sciamma, que empresta todo o seu olhar especial para nos contar a história de Laure (Zoé Héran), uma garota de 10 anos em conflito com a sua sexualidade. Um conflito diário, físico e psicológico, exaustivo e quase cruel demais para uma menina que não se enxerga exatamente com o sexo que ela carrega.

Mas apesar desse “quase cruel demais”,  no qual eu me refiro a situação em si e não da forma como ela foi retratada no filme, com muita sutileza por sinal, mesmo sem fugir do foco, a diretora conseguiu nos transmitir exatamente essa sensação da grande dificuldade de não pertencer ao seu próprio corpo. Uma sensação quase que claustrofóbica e muitas vezes desesperadora.

E “Tomboy” além de ser um filme extremamente bonito de se ver (poderia ser irmão de “Le gamin au vélo”, filme que nós também AMAMOS), com uma plástica delicada e bem simples, é também um filme que não faz rodeios sobre o assunto, indo diretamente ao ponto e por isso se torna quase que como um material educativo. Um longa que eu acho praticamente obrigatório para pais e filhos (e todo mundo), independente de suas idades.

Apesar do conflito estar presente no filme desde o seu começo, com Laure claramente se diferenciando da imagem girlie e delicada da irmã mais nova, não existe por exemplo um conflito interno dentro da sua casa, onde ela não encontra o menor problema na relação com os seus pais, que respeitam a sua identidade e entendem que aquele processo seria importante para que aquela garota acabasse se descobrindo (o pai com uma sensibilidade até maior do que a mãe, nesse caso). Contrariando uma maioria que poderia se encontrar na mesma situação, em sua casa não existe drama em relação a sua sexualidade, mas ao mesmo tempo, não é também um assunto discutido na mesa do jantar, tão pouco a noite, na intimidade dos seus pais. Algumas famílias preferem não falar sobre o assunto e esse é um cenário tão comum quanto o anterior, onde filhos são reprimidos quanto as suas descobertas nesse campo.

A problemática do filme começa quando em uma nova vizinhança, Laure aproveita a nova situação para se apresentar como Mickäel, assumindo de vez uma postura masculina diante das demais crianças. E a partir desse momento, em alguns pontos dessa review, vou passar a me referir sobre a garota com o nome escolhido por ela no filme, respeitando a identidade que nos foi apresentada durante o mesmo.

E como nada é tão simples na vida, Mickäel precisa se adaptar a sua nova realidade, buscando saídas criativas para que a sua nova identidade ganhe alguma credibilidade e isso ele consegue fazer até que bem, sempre com uma saída alternativa para que possa se safar dentro da sua nova identidade. O cordão cor de rosa da chave de casa dado por sua mãe é trocado por um cadarço de tênis velho para evitar qualquer tipo de contradição. Ou quando olhando de longe, ele aproveita para observar os outros meninos, tentando entender aquela anatomia que não o pertence, ficando atento a maneira como eles se comportam, quase como se estivesse fazendo uma espécie de laboratório para o seu “personagem”. E tudo isso para ganhar maior credibilidade com os demais e até mesmo para que ele possa se identificar com o modo como se sente.

Aos poucos, Mickäel vai se enturmando com as crianças da vizinhança, fazendo novos amigos e ganhando assim alguma companhia. A primeira delas é uma garota chamada Lisa (Jeanne Disson), que acaba entregando gentilmente ao Mickäel o convite para fazer parte da turma. No jogo ela deixa ele ganhar propositalmente, apenas para que as demais crianças gostem dele e finalmente  ele seja aceito. Mas logo de cara, fica bem visível que Lisa não enxerga apenas um amigo em Mickäel, o que mais tarde acaba complicando ainda mais a situação.

Apesar de boa parte do filme se passar dentro desse cenário bastante infantil entre brincadeiras de crianças, a todo momento fica bem claro o tremendo esforço que ela está fazendo o tempo todo para se tornar Mickäel. O peso no olhar distante e melancólico, a forma como ela precisa observar os demais meninos para conseguir se misturar, como se ela estivesse o tempo todo “disfarçada” de Mickäel, pronta para ser descoberta a qualquer momento, algo que enquanto platéia, vai nos deixando cada vez mais tensos (eu pelo menos fiquei torcendo para que Mickäel não fosse descoberto em diversos momentos). Cenas lindas também dela em casa, observando o seu corpo, reparando nas diferenças entre o corpo de uma mulher e o de um homem, tudo com a maior sutileza, detalhe mais do que importante para o assunto, colaborando ainda mais para o nível de delicadeza do filme e a sua importância falando de um tema tão delicado e pouco discutido, ainda mais dentro dessa faixa etária.

Para quem observa o problema de fora pode até parecer fácil o que aquela garota está enfrentando em sua vida, ainda mais considerando toda a leveza do filme. Mas a situação é realmente muito delicada e todo esse esforço para tentar encontrar a sua identidade, algo que é seu e de mais ninguém mas que vc acaba dividindo com o mundo, só pode ser uma tarefa das mais difíceis para quem enfrenta esse tipo de situação na vida e isso é possível perceber no personagem a todo momento. Ser gay e descobrir isso quando criança já não é uma situação muito simples, onde a descoberta desse desejo que não somos preparados desde pequenos para aceitar (infelizmente) pode ser um peso grande demais para alguém que ainda está começando a sua vida. E se essa situação já é bastante complicada, deve ser multiplicada por 1000 no caso de vc além de tudo não se encaixar dentro do seu próprio corpo e imagem.

Por isso, acho importante que as pessoas que criticam esse tipo de comportamento, julgando quem é capaz de transformar o seu próprio corpo para se sentir mais completo, que essas pessoas reflitam um pouco mais sobre o assunto, que não é simples e tão pouco fácil. Imaginem o tamanho da coragem que é necessário para uma transformação como essas, encarando sozinho toda uma sociedade pronta para te julgar o tempo todo, por serem capazes de enxergar apenas aquela imagem antiga de vc no espelho, que muitas vezes eles nem conheceram anteriormente mas não conseguem enxergar a coragem que está além disso tudo. Imaginem o constrangimento, imaginem o que deve ser se olhar no espelho e enxergar uma outra pessoa no seu próprio reflexo. Certamente, um peso de proporções desconhecidas para quem se encontra de fora disso tudo.

Bacana também é que o filme faz um contraponto lindo entre o lado masculino e feminino, usando as duas irmãs para ilustrar a diferença entre esses dois universos, que nesse momento se colidem. Jeanne (Malonn Lévana), a irmã mais nova é a menininha da casa, feminina ao extremo, totalmente girlie em seu mundo cor de rosa e roupa de bailarina, enquanto Laure se interessa mais pelo universo masculino, sempre acompanhada do seu pai, com quem ela mantém uma relação ótima por sinal, ele que parece ser capaz de compreender e aceitar a postura da filha como ela realmente é. E apesar de Laure não se sentir adequada ao seu lado feminino, ela não o rejeita completamente e divide alguns bons momentos mergulhando dentro desse universo na companhia da irmã. Aliás, que relação adorável essa entre as duas, hein?

De uma cumplicidade sem tamanho, uma cuidando para o bem da outra da forma mais pura e natural possível. E a irmã caçula embora seja bem menor e sem entender exatamente o porque da irmã mais velha se identificar como um garoto, acaba comprando aquela ideia e defendendo a irmã, mesmo sem fazer a menor ideia do porque de tudo aquilo, apenas por instinto de querer bem e proteger a quem se ama. LINDO!  Um excelente exemplo de como as crianças são adaptáveis a qualquer tipo de situação, desde que elas sejam apresentadas para elas desde cedo e não sejam ignoradas, como muitos pais ainda preferem agir em uma situação como essas.

Quase morri de rir quando no jantar em família, Laure pede para Jeanne não falar nada sobre o segredo que elas dividem e ela fica completamente imóvel à mesa, sem saber o que fazer, até que não se aguenta e resolve contar sobre o “novo amigo” que conheceu no seu primeiro dia do lado de fora da casa, brincando com as demais crianças da vizinhança. Em Jeanne, ela além de uma irmã encontrava também a cumplicidade necessária para seguir em frente com a sua própria aceitação, algo que certamente seria importante para o seu crescimento. Inclusive para o crescimento de ambas em sua individualidade.

Outro momento bem foufo do longa é o diálogo entre as personagens mais novas, com Jeanne e sua amiguinha no parque, onde a irmã fala com orgulho do irmão Mickäel, sobre o fato dele ser o mais corajoso e o mais forte dentre as demais crianças. #TEMCOMONAOAMAR? E ambos dividem bons momentos de cumplicidade que vão além de um estar sempre disposto a proteger o outro, como quando a irmã mais nova ajuda Mickäel a cortar o seu cabelo, ou com as duas no banho, ou simplesmente brincando na sala de casa com super massa. (aliás, adorei o plot da super massa, rs)

O problema é que não é possível se viver uma mentira por muito tempo, ainda mais em um caso como esses. Sendo cercado por todos os lados, Mickäel vai se vendo sem saída, com o início do ano letivo se aproximando e a sua história prestes a vir a tona. Além disso, ele está cada vez mais envolvido com as demais crianças, em uma turma onde agora ele é aceito, dividindo até um primeiro beijo (creio eu pela idade dos personagens) com Lisa, que revela as suas reais intenções com Mickäel.

E toda essa problemática nos leva ao momento onde Mickäel é descoberto em sua mentira pela própria mãe, que tem uma reação humana, apesar de pouco sensível. Digo isso porque aquele tapa na cara (literalmente) não foi nada perto do que ela fez a menina passar no dia seguinte, obrigando a filha a usar um vestido e batendo de porta em porta para esclarecer a história de uma vez por todas, a obrigando de certa forma até que bem violenta, a revelar a sua verdadeira identidade para todos os envolvidos.

Desde o começo do filme é notável que a mãe é quem tem mais dificuldades em se relacionar com aquela questão. Talvez pelo fato dela estar grávida, com hormônios a flor da pele, ou talvez simplesmente por ela ser mulher, algo que eu acredito que seja bem comum, quando o pai divide o mesmo gênero do filho que ele descobre ser gay, talvez por confrontar a sua própria imagem… (não sei exatamente o porque, mas tenho essa impressão, tipo quando o pai descobre que o filho homem é gay, por exemplo). Ou talvez ela simplesmente fosse assim mesmo.

Até que ela tem um momento de redenção e vc passa a entender a sua postura naquele momento, onde a mãe de Laure/Mickäel deixa bem claro que ela não tem problemas em aceitar a filha daquela forma, mas ela só não consegue imaginar uma outra saída para aquele problema todo, o qual ela chega até a questionar a garota a respeito de uma ideia que ela possa ter para desfazer aquela mentira de uma outra forma. Tudo bem que apesar de aceitável, tudo poderia ter sido conduzido de outra forma, sem ser forçado, sem ter colocado a garota naquela situação visivelmente desconfortável, mas vamos acreditar que aquela reação se deu devido o calor do momento. Concordo que a verdade precisava aparecer, mas talvez uma conversa antes em casa tivesse preparado melhor esse caminho, do que a forma possivelmente traumática que ele teve como resolução.

Com a “farsa” descoberta (não consigo chamar de farsa porque na verdade, ela era o Mickäel), Laure tem que enfrentar as outras crianças, que em uma hora como essas, podem ser muito cruéis (e foram). Achei bacana também que mesmo nessa hora, os diálogos entre os adultos não se tornaram prioridade, deixando em primeiro plano o pânico/vergonha da garota em ter que lidar com aquela situação. Fiquei com o coração partido no momento em que ela teve que ir até a casa da Lisa, se encontrando extremamente aflita para aquele momento que com 10 anos de idade, ninguém pode estar preparado para enfrentar.

Mas nada como o tempo para fazer tudo seguir o seu curso e após todo esse drama, Mickäel apesar de permanecer por um tempo sozinho, longe das demais crianças por vergonha de toda aquela situação constrangedora para qualquer um, acaba recebendo da própria Lisa (♥) a segunda chance de construir uma relação de amizade entre as duas, onde dessa vez, a amiga prefere conhecê-la por seu verdadeiro nome: Laure. Sério, #TEMCOMONAOAMAR?

Assim fica visível que se Laure/Mickäel teve toda a liberdade e educação correta para descobrir a sua própria sexualidade, mesmo com algumas limitaçães em sua casa, Lisa também foi uma garota muito bem educada, entendo a situação que a possível nova amiga estava passando naquele momento tão delicado da sua vida. Go girls! (só amor)

Um filme dos mais lindos possíveis, que como eu disse anteriormente, deveria ser obrigatório, ou melhor, deveria ser lição de casa para pais e filhos (e quem não é pai ainda, já foi filho, então…). Para preencher até o mais duro dos corações.

ps: para mim, foi impossível assistir a “Tomboy” e não acabar fazendo uma viagem a minha própria infância antiga. O que me fez rever de certa forma muitas coisas da minha própria educação e na forma dos meus próprios pais se relacionarem tão bem comigo, mesmo com todo e qualquer conflito que sempre tenha existido ou que tenha sido ignorado, aos quais eu só tenho que agradecer a liberdade de ter podido encontrar a minha própria identidade desde sempre e por mim mesmo. Thnks!

 

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3 Respostas to “Laure/Mickäel”

  1. Denise Says:

    Esse filme é lindo mesmo! Eu assisti e fiquei apaixonada pela menina/menino. Ficava pensando o quão difícil deve ser, a confusão na cabeça da criança por ver a si mesma de uma maneira e sentir de outra. A parte que os amigos a convidam para nadar é demais! O trabalho psicológico que essa menina faz, a energia que ela investe nessa fantasia! Parece que dá pra ler a mente dela, desejando que aquilo se torne real!
    Entendo a reação da mãe também, não imagino qual seria minha no lugar da mãe dela… Dá pena da Laure…
    E a irmã é super fofa! Uma graça!
    É um filme que vale muito a pena assistir!

    • Essy Says:

      Lindo, lindo, lindo!c Fiquei tão emocionado assistindo… (e como ela é boa atriz, não?)
      Além da sensação de pânico, dela poder ser descoberta a qualquer momento.
      Certamente, essa deve ser uma confusão difícil de se enfrentar. Em qualquer idade, mas quando criança, chega até a ser covardia.

      Tudo no filme é bem justificável, inclusive a reação da mãe e achei importante que ele tenha sido tão honesto e tão baseado no olhar da própria personagem para toda aquela situação.
      Agora, quem não queria uma irmã daquelas, me fala? Foufa mil!

      Acho que todo mundo deveria ver. Super educacional. Além de ser lindíssimo e super simples, mesmo lidando com um assunto tão sério e dramático.
      Difícil é tentar acompanhar as legendas com tantas lágrimas nos olhos, humpf! rs

  2. The Modern Guilt Awards 2012, a quarta edição do prêmio mais sensacional de todos os tempos « The Modern Guilt Says:

    […]  “The Descendants” ,  “My Week With Mariyln” ,  “Tomboy” ou o excelente documentário “Bill Cunningham New York, para citar apenas alguns ótimos […]

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