E quem não adoraria fugir com a Suzy Bishop e o Sam Shakusky para Moonrise Kingdom?

Fugimos. Mas não se preocupem, estamos em ótima companhia e em um dos cenários mais lindos do cinema! Voltamos logo. Ou não.

Eu definitivamente poderia viver em um filme do diretor Wes Anderson. Facilmente. No meio daquelas cores todas de outono (esse com um pouco mais de cara de verão antigo, eu sei), cercado daqueles personagens que são as melhores caricaturas deles mesmos e que ainda assim conseguem nos transmitir a profundidade necessária para deixar suas histórias ainda mais especiais. Sem contar toda aquela organização dos vários objetos em cena da sua linda fotografia alinhadíssima (assinada por Robert D. Yeoman), metódica, nada minimalista, onde é possível perceber que nada que faz parte daquele cenário está ali por acaso. Para quem tem TOC assim como eu, essa chega a ser uma visão muito próxima de um mundo perfeito. (rs)

E o novo longa do diretor reúne exatamente tudo isso que nós sempre observamos e adoramos em seu repertório, onde é possível reconhecer o universo do mesmo já pelos primeiros quadros do filme, quando observamos uma casa cheia de cômodos espaçosos, com diversos objetos em todos os cantos, personagens circulando com naturalidade em cena, mesmo quando não são o foco dela, tudo ao mesmo tempo, enquanto vamos observando traços claros da identidade do cineasta, que a essa altura já estão mais do que reforçados na nossa memória, no meu caso, totalmente afetiva. Eu arriscaria dizer que talvez com seu novo filme, Wes Anderson tenha conseguido reunir o seu melhor, dentro de um universo extremamente criativo e cheio de estilo próprio, que ele consegue criar como ninguém e nós agradecemos pela visão artística deliciosa, sempre.

“Moonrise Kingdom” nos traz uma linda história de amor pré-adolescente, das mais bonitinhas possíveis. E bonitinha no sentido mais carinhoso da palavra, que isso fique bem claro. Nele temos Sam Shakusky (Jared Gilman), um jovem escoteiro órfão que vive em abrigos sofrendo bullying em meio as demais crianças, provavelmente devido a toda a  sua “excentricidade”, digamos assim. No acampamento de verão ele não é considerado como um dos mais dedicados e também encontra certa dificuldade em se enturmar com os outros meninos, que por sua vez, também não fazem muita questão de facilitar a sua vida por identificarem o garoto como o estranho da turma. Com seus óculos largos de armação preta, o botão da mãe que ele fez questão de costurar no próprio uniforme de escoteiro, sem se importar com o fato dele não ser muito masculino para fazer parte do seu uniforme, que a propósito, ele carrega como ninguém, Sam parece forçado a viver em um universo bastante particular e solitário, até que um dia ele acaba cruzando com ela, uma menina vestida de corvo na peça da igreja local pela qual ele se apaixona completamente e totalmente a primeira vista.

Ela é Suzy Bishop (Kara Hayward, que me lembrou muito a Emma Watson em alguns momentos, assim como a Lana Del Rey -mais uma Bishop…#Fringe), filha de pais advogados que não vivem um relação muito feliz (nem fiel por parte da mãe) em uma casa gigantesca e linda, aquela que observamos no começo do filme e que ela ainda divide com seu gato e seus três irmãos menores, em um cenário onde ela acha que não se encaixa muito bem. Suzy tem uma alma mais sombria, triste até, algo que ela descobre  ser um problema até mesmo para os seus pais, ao encontrar um livro sobre como lidar com crianças problemáticas ou algo do tipo escondido em sua própria casa. Apaixonada pelos seus livros, que ela pega na biblioteca da escola mas nunca devolve de propósito, mesmo sem precisar, a personagem ainda é dona de um temperamento explosivo, principalmente quando se sente ameaçada (ou confrontada) e vive carregando seu binóculo por onde vai, para observar tudo bem de perto, algo que Sam considera como o seu poder especial.

Impossível não encontrar algumas semelhanças entre a personagem e a nossa querida Margot, de “The Royal Tenenbaums”, ainda mais com aquela caracterização toda, com olhos super delineados (nesse caso mais claros, porque ela é bem mais jovem) e um look super 60’s, além de uma personalidade que lembra um pouco a da antiga personagem do diretor em alguns momentos. Mas essa semelhanças ficam apenas para uma primeira impressão, onde apesar de conseguir observar que muito provavelmente o Wes Anderson tenha um tipo certo para esse tipo de personagem em seus trabalhos, ambas conseguem ser bem distintas uma da outra também.

Do primeiro encontro dessas duas figuras adoráveis durante a tal peça da igreja com o tema da “Arca de Noé”, que aconteceu um ano antes do ponto onde a história começa a nos ser contada (onde todas as crianças estão com fantasias lindas e super foufas de animais), surge a relação de amor que eles começam a desenvolver um pelo outro, já que a identificação foi mútua e imediata. A princípio eles vão se correspondendo a distância apenas por cartas (sim, cartas, porque estamos no anos de 1964/1965), até que finalmente planejam uma grande fuga para viver essa história de amor sozinhos enquanto exploram o mundo ao seu redor. E o bacana é ver a certeza que ambos tem de que realmente foram feitos um para o outro, algo que em pouco tempo, nós mesmos passamos a acreditar que seja de fato verdade.

Claro que o sumiço de duas crianças acaba movimentando toda a ilha, que é um lugar super pequeno e nem sequer tem nenhuma rua pavimentada, por exemplo (muito especial também a forma como eles escolheram para apresentar suas locações, outro detalhe adorável!).  Os pais de Suzy vão a loucura ao perceber que a filha que eles já consideravam problemática sumiu, ainda mais depois de descobrir que ela se correspondia com Sam, achando inclusive desenhos de aquarela feitos pelo garoto (lindos por sinal e que aparecem em detalhe nos créditos finais), revelando assim um de seus hobbies e o que acaba realmente preocupando a família é que além das árvores e postes telefônicos que parecem ser o seu forte na aquarela, ele também arrisca alguns nus artísticos bem ousados, ainda mais para a época (rs). Sério, #TEMCOMONAOAMAR a alma velha desse garoto?

Sam, que estava em um acampamento de verão antes de sumir, acaba sendo procurado pela turma de escoteiros liderada por um único adulto, Scout Master Ward, interpretado pelo ator Edward Norton (♥), que muitas vezes é muito menos responsável e bem mais infantil do que os próprios personagens principais do filme, que tem apenas 12 anos de idade, algo que acaba emprestando uma graça a mais para a história. Ele que se sente meio que fracassado ao ter que reportar para a policia local (Capitão Sharp, interpretado pelo ator Bruce Willis) que  ele perdeu um de seus escoteiros e para tentar resolver a situação, ele mesmo acaba liderando uma equipe de busca com os demais meninos do acampamento, para tentar localizar o paradeiro do seu khaki desaparecido. Uma busca que ele espera que seja pacífica, mas pelas armas carregadas pelos meninos (um deles carrega um porrete gigante de madeira,cheio de pregos… #DramaDramático), parece que a coisa não vai ser bem assim… (rs)

Tudo acaba ganhando um peso ainda maior quando em uma conversa com os pais de Sam por telefone, Master W. e o capitão Sharp acabam descobrindo que o garoto na verdade era órfão e seus verdadeiros pais haviam morrido em um acidente no passado, algo que não constava na sua ficha de inscrição dos escoteiros e a atual família que o havia adotado recentemente, não estava mais disposta a cuidar do garoto depois de tudo o que ele já havia aprontado e dizem isso assim, desse jeito, com uma simplicidade escrota. Além disso, com essa nova rejeição, eles acabam descobrindo também através da gélida assistente social interpretada pela atriz Tilda Swinton, que Sam vai acabar indo parar em uma espécie de reformatório, devido as suas várias tentativas de adoção que não deram muito certo ao longo do tempo.

Embora esse elenco com nomes de peso pesadíssimo, ainda mais contando com os pais da própria Suzy, interpretados pelo sempre excelente e figura recorrente nos filmes do Wes Anderson, Bill Murray (♥) e a atriz Frances McDormand, todos eles tem papéis menores, porém fundamentais para o desenrolar da trama, enquanto buscam incansavelmente pela dupla de fugitivos. E os adultos nos filmes são todos infelizes, solitários, algo que fica bem claro que é exatamente do que Sam e Suzy tentam fugir enquanto ainda é tempo.

E enquanto todos eles se empenham a seu modo para procurar pelos meninos desaparecidos, o que nos rende momentos ótimos, como quando os escoteiros acabam achando o casal antes de todo mundo e a Suzy acaba colocando todo mundo para correr com sua tesoura (ela que para a aventura, carrega algumas coisas que ela acha essencial, como seus livros preferidos, o toca discos do irmão, seu gato e a tesoura, por exemplo. Espera só até você ver a minha bolsa, Suzy! rs) , algo que acaba inclusive ocasionando a morte de Snoopy (R.I.P… sim, eles tem coragem de matar o Snoopy. Mas atenção para esse “eles”…), o mascote do acampamento, o ponto alto do longa fica mesmo por conta da história de amor entre os dois personagens principais, que não poderia ser mais foufa, em todos os sentidos.

Primeiro que ambos tem uma maturidade absurda em alguns momentos, ainda mais se você pensar que eles tem apenas 12 anos, mas além disso, a doçura da relação dos dois e a inocência que conseguimos sentir através dela também é algo bastante especial para o longa, ainda mais porque em meio aos diálogos e situações todas em que eles se encontram enquanto estão fugindo, ganhamos um misto excelente de comédia e drama que é outro dos pontos fortes do filme. Em meio a aquela brincadeira que está sendo para os dois acampar nas redondezas (embora nessa hora o Sam leve tudo bem a sério e tenha se mostrado um escoteiro muito melhor do que todo mundo pensava que ele era, inclusive sendo finalmente reconhecido por isso mais adiante na história), encontramos também uma parte bem séria escondida nas conversas dos dois, principalmente quando os personagens dividem um pouco mais de suas bagagens, apesar da pouca idade. Momentos realmente bem especiais e que ganham um toque ainda mais especial com o enquadramento intimista do diretor para os personagens durante essas cenas. (o roteiro também é do Wes, em parceria com Roman Coppola)

A minha conversa preferida entre os dois por exemplo, foi quando Suzy disse que todos os seus personagens preferidos em seus livros eram órfãos (e ela é meio que fã de Sci-Fi) e que ela achava que esse detalhe os deixava ainda mais interessantes enquanto pessoas e que para a sua surpresa, ela acabou recebendo do Sam a resposta de que embora ele estivesse amando a personagem naquele exato momento, ela não sabia o que estava falando. Sério, #TEMCOMONAOAMAR?

Na verdade, tudo na relação dos dois acaba sendo bem especial, além de lindo, como as cenas de transição, enquanto os dois procuram o lugar ideal para acampar, antes de encontrar aquela paisagem maravileeeandra da qual ambos se apropriam para viver o amor que eles sentem um pelo outro. E também quando tomamos conhecimento de um pouco do histórico do casal, da época em que ambos apenas se correspondiam a distância, com uma narrativa super foufa e cenas divertidíssimas. Tudo isso preenchido com cenários lindos de serem vistos, diálogos super sinceros e deliciosos e atuações também bastante especiais por parte desses dois jovens atores novatos em meio a tantos figurões (se bem que eles permanecem por um bom tempo sozinhos ou apenas acompanhados das demais crianças). AMEI a cena da dancinha deles no meio da ilha, antes de trocar o primeiro beijo, em uma espécie de ritual para se soltar um pouco mais e criar alguma intimidade um com outro. (♥)

A única tristeza em “Moonrise Kingdom” é que esses momentos que os dois dividem suas experiências sozinhos não chega a durar muito, ou pelo menos não chega a durar o quanto a gente gostaria, porque eu poderia ficar assistindo aqueles dois no meio da floresta por horas, rs. Logo eles são descobertos e a partir disso, a situação fica ainda mais incontrolável quando os pais da Suzy resolvem proibí-la de encontrar o garoto novamente e Sam possivelmente acabaria sendo mandado para um reformatório.

A partir disso, os demais escoteiros acabam comprando a história corajosa de amor dos dois, que acabam se tornando seus novos ídolos e planejam um plano mirabolante para que ambos possam sim viver juntos como desejam. O problema é que uma tempestade devastadora se aproxima da ilha e eles não fazem a menor ideia do perigo que estão correndo vagando naquele naquele lugar durante esse período (praticamente um diluvio). Nessa hora, ganhamos a participação do queridíssimo Jason Schwartzman (♥) na pele do primo Ben,  personagem que é da família de um dos outros khakis e é ele quem acaba colaborando para que o plano de todos eles tenha mais chances de dar certo, além de desempenhar um papel fundamental na união do casal.

E não tem como falar de um filme do Wes Anderson sem mencionar a qualidade estética tão característica do seu repertório, que é realmente algo que chama a atenção de todo mundo em cada um de seus trabalhos, que são sempre carregados de um estilo quase inconfundível nesse aspecto, como obras de arte com uma assinatura difícil de se confundir. Muitas cores, especialmente o amarelo, texturas das mais variadas possíveis. AMO a colcha dos pais da Suzy, cada uma delas com uma estampa diferente, ou quando o personagem do Edward Norton se encontra em sua cabana, com dois tipos diferentes de estampa em xadrez, além de outras padronagens compondo o cenário ao fundo, assim como os vários objetos vintages em cena, um mais lindo do que o outro e todos absurdamente desejáveis. As capas dos livros da Suzy também foram especialmente desenvolvidas para o projeto e aparecem em destaque durante os créditos finais, dando importância para cada um de seus criadores. (adoraria ter feito uma delas. Humpf!)

Outro ponto forte do filme é a trilha sonora, que tem seus momentos, mais o melhor deles, além da cena da dança de frente para o mar ao som da francesa Françoise Hardy (que está na nossa mixtape do finde, claro), temos aqueles discos de vinil que começamos o longa com os irmãos da Suzy escutando na sala de casa, ao som de “The Young Person’s Guide To The Orchestra” (de Leonard Bernstein), que tem uma narrativa explicando e identificando cada instrumento da música que compõe a orquestra ao fundo, algo bem sensacional, além de extremamente educativo, inclusive para um jovem adulto como eu.  Ao final, temos uma outra versão seguindo o mesmo fundamento tocando durante os créditos, essa de Alexandre Desplat (responsável pela trilha sonora do longa) e com a voz do Sam identificando a entrada de cada um dos instrumentos, o que também é bem bacana e revela mais um cuidado dentro desse universo todo tão particular, que acaba deixando o filme com cara de projeto perfeito e dos sonhos. (alias, o filme é todo construído a base de detalhes)

O desfecho da história apesar de não reservar muitas surpresas (e nessa hora ganhamos uma cena até que bem “Fantastic Mr Fox”, não?), acaba nos revelando algo bem especial que só descobrimos ao final do filme, em mais uma aquarela do Sam para a Suzy, que foi um detalhe que preencheu totalmente o meu coração para a despedida dessa história sensacional, que eu não vejo a hora de revisitar em DVD, que certamente fará companhia ao lado dos mus outros filmes do diretor. (estou completamente apaixonado pelo piano vermelho presente na sequência final. Estou numa fase incontrolável de móveis vermelhos…)

Eu diria que “Moonrise Kingdom” é um filme extremamente carinhoso sobre o amor, doce, do tipo para assistir comendo coisas gostosas ao lado de quem a gente gosta sinceramente. Amigos, família, namorados, filhos. Done (✓)

Clap Clap Clap Wes Anderson. Digamos que esse é o seu trabalho onde eu adoraria ter passado a minha infância. (por culpa do cinema, eu sempre quis ter uma casa em um farol em uma ilha qualquer, então…). Passaria a juventude como mochileiro em “The Darjeeling Limited” (e o Schwartzman pode ser meu irmão), a vida adulta ao lado da minha família em “The Royal Tenenbaums” e se algum dia o meu sonho de virar um cartoon finalmente se realizar (apesar de nesse caso não se tratar exatamente de um cartoon, eu sei), eu gostaria de viver em “Fantastic Mr. Fox”. (nesse caso, o George Clooney poderia ser meu pai e assim, finalmente eu teria feito alguma coisa para deixar a  minha mãe feliz, rs)

ps: bem foufo esse kit promocional do filme com todos esses mimos, não? Adoraria ter ganhado um. Humpf! Assim como adoraria ter ido a uma festa de Halloween desse ano vestido de Sam, como o Darren Criss que nós bem mostramos aqui no Guilt e que segundo uma de nossas leitoras fundamento (Tnhks D.!), foi a fantasia preferidas dos hipsters e casais apaixonados para esse ano. Foufos mil!

♥ Já está seguindo a magia do Guilt no Twitter? Ainda não? @themodernguilt

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4 Respostas to “E quem não adoraria fugir com a Suzy Bishop e o Sam Shakusky para Moonrise Kingdom?”

  1. Denise Says:

    Esse filme é demais, assim como os outros do Wes Anderson. Adoro seu trabalho e acho que em seu último parágrafo vc disse tudo! Excelente filme!!

    • Essy Says:

      Muito bonitinho, não?
      Preencheu totalmente o meu coração. Fiquei emocionado, hipnotizado com toda a sua beleza e tive ataques de risos de diversos momentos, rs
      #FOUFURICEFOUFA

  2. The Modern Guilt Awards 2012, a quarta edição do prêmio mais sensacional de todos os tempos « The Modern Guilt Says:

    […] motivos além de tudo o que o filme representa, é humanamente impossível não se apaixonar por “Moonrise Kingdom”. Simplesmente não tem como! […]

  3. Wes Anderson + Roman Coppola + Prada | The Modern Guilt Says:

    […] por uma maravilha chamada ”Moonrise Kingdom”, da qual falamos no passado aqui ó), no melhor estilo Nouvelle Vague do cinema […]

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