Django Unchained

Django Unchained Poster Tarantino

É sempre bom encontrar com o Tarantino bem humorado e cheio de sede de vingança. Mas seria Django realmente o gatilho mais rápido do sul?

Dizem que o Tarantino está trabalhando em uma espécie de trilogia da vingança, aproveitando para revisitar e se vingar de algumas das histórias mais pavorosas do nosso passado, daquelas que ninguém deveria se orgulhar, nem mesmo quem esteve do outro lado, porque sempre resta um. Primeiro foram os nazistas que ganharam seu tratamento especial através da visão do diretor no excelente “Inglorious Basterds” e agora chegou a vez dos negros receberem a chance de vingar parte da sua história dos tempos da escravidão, antes da Guerra Civil. E isso em um território western, praticamente dominado pelo homem branco ao longo dos anos da história do cinema, como cenário de plano de fundo para essa sua nova história, dirigida e escrita pelo próprio.

Django (Jamie Foxx) é um escravo de sorte (se é que podemos assim dizer) que acabou caindo nas mãos certas, um caçador de recompensas que precisava de alguém que tivesse vivido tudo aquilo de perto e pudesse reconhecer as cabeças que ele deveria colocar sob sua mira. Sorte my ass, porque antes disso, ele que teve um passado de escravidão, além de ter sido torturado e passado por tudo aquilo que já conhecemos bem da história, também teve que amargar o gosto de ver a sua mulher sendo tratada de forma extremamente cruel, sendo inclusive retirada a força do seu lado.

Dessa forma, motivos não faltavam para que aquele homem tivesse uma sede de vingança gigantesca contra aqueles homens brancos que faziam parte dessa história sórdida de escravidão, mas com esse detalhe, tudo acabou se tornando ainda mais pessoal para esse personagem, que pela primeira vez estava experimentando também o gostinho da liberdade. Mas ele nada seria se não fosse a companhia que acabou ganhando através da chegada do Dr Schultz na sua vida, um homem que certamente acabou colaborando e muito para mudar (e roubar) a sua história.

Ele que é vivido de forma sensacional pelo sempre excelente ator Christoph Waltz, indicado ao Oscar e a todos os demais grandes prêmios (que ele vem recolhendo) por sua excelente performance no longa. Um caçador de recompensas que só vai atrás das grandes cabeças, dos culpados pelos piores crimes e que precisava de certa ajuda para concluir o que talvez fosse uma de suas maiores recompensas até então. Coincidentemente (e o filme brinca bastante nesse território perigoso da dependência da coincidência, um ponto bastante negativo por sinal) ele e Django descobrem interesses em comum, porque sua mulher se encontra nas mãos de um dos tais procurados do doutor e assim, eles acabam firmando um trato de cooperação para que ambos possam sair satisfeitos e recompensados dessa história.

Django

É preciso dizer que o personagem de Waltz acaba roubando quase que completamente a cena se não fosse por seu antagonista (chegaremos nele em breve), por puro mérito do próprio ator, que foi apresentado para o mundo em grandes proporções também pelo próprio Quentin Tarantino em seu trabalho anterior, que é um ator que vem nos entregando excelentes trabalhos desde então, um atrás do outro. Além disso, o personagem por si só já tem um carisma grandioso, além da empatia imediata que ele consegue nos transmitir e despertar por ser um dos poucos personagens não preconceituosos dessa história, que é carregada de insultos super preconceituosos cabíveis para a época (odiando ter que admitir isso, mas é o que se espera de um plot como esse), maus tratos absurdos e ou piadas bem cretinas a respeito do tema. Ironicamente (ou de forma inteligente, para tentar retirar um peso que poderia ficar sobrecarregado demais para ser carregado por qualquer um, além de trazer um lado cômico também especial para a história) boa parte desses xingamentos e insultos acabam saindo da boca do personagem do Samuel L. Jackson (que reencontra o diretor nesse trabalho, ele que em “Inglorious Basterds” fez apenas uma participação como narrador), Stephen, que aparece praticamente irreconhecível no filme como o “cotton candy”, apelidado carinhosamente por Django, rs. E logo ele, o mais preconceituoso entre todos. (recurso inteligente Quentin. Um recurso bastante inteligente)

Apesar de Django ser o grande herói dessa história, Dr Schultz acaba sendo o personagem mais significante da mesma, grande parte disso por conta do seu humor, algo que aprendemos também recentemente que o Christoph Waltz  sabe fazer muito bem desde “Carnage” (outro excelente trabalho do mesmo). Um humor bacana, quase sútil, escondido nos trejeitos e na própria personalidade característica do personagem. Enquanto Django queria se tornar um herói e estava aprendendo o que fazer para tal com o seu excelente e novo tutor, Dr Schultz já estava pronto e era exatamente esse herói disfarçado de dentista. A propósito, seu personagem é alemão. Coincidência?

Em sua trajetória, Django tem excelentes momentos, como quando ele tem a chance de escolher a sua roupa de guerra e me aparece inteiro de azul, investindo no estilo dandy em meio ao velho oeste (nesse caso, Sul) e sendo ridicularizado até mesmo pelos próprios escravos. Eles que não estavam nada acostumados a ver um homem negro naquele tipo de situação, montado em seu próprio cavalo e sendo tratado com respeito, mesmo que o seu papel naquele momento fosse o de uma espécie de mordomo. Não estavam acostumados, mas logo passavam a admirá-lo ou invejá-lo ao mesmo tempo. Da mesma forma que os escravos não estavam acostumados e pareciam incrédulos ao ver um negro naquela posição (que até então nem era tão favorável assim), os brancos se revoltavam, exigiam que o doutor colocasse o empregado em seu lugar, mas tiveram que aprender a lidar com isso rapidamente, porque a dupla acabou fazendo historia naquele lugar, mostrando que a partir daquele momento, as coisas seriam bem diferentes. BANG!

História a troco de muito sangue por todos os lados (Tarantino deve estar muito apaixonado por esse novo formato de explosão de sangue que andamos vendo por aí ultimamente), o que sempre esperamos animados dos trabalhos do Tarantino. Cabeças e corpos dilacerados por muitas balas, quando não por cachorros, tiros e mais tiros que fazem grandes buracos e deixam uma notável marca em slow, jorrando muito sangue por todos os lados, algumas vezes de forma completamente exagerada, quase como se um balde de sangue fosse arremessado no momento da morte daquelas pessoas (sabe quando morre um dos vampiros em True Blood? Então…), mas tudo de forma esteticamente interessante.

django-unchained-2 (1)

Apesar de uma lista de vilões que aparecem brevemente no filme como vítimas da agora dupla de caçadores de recompensa, o maior deles fica mesmo por conta do ator Leonardo DiCaprio na pele do temido Calvin Candie, que só chega depois de uma hora de filme, mas vem claramente para dividir o brilho do longa com o Christoph Waltz. Ele que também tem um perfil todo carismático, apesar de seus ataques de loucura assustadores. Mas para o seu personagem sobram cenas ótimas de conflito de ideias, regadas a muito bom humor e uma performance impressionante quando o personagem finalmente percebe que estava sendo enganado durante esse tempo todo em relação as verdadeiras intenções da dupla em sua propriedade. Ele que tratava os escravos como objetos do seu próprio divertimento, promovendo lutas mortais na sala da sua casa, apenas por prazer e diversão. Se pagou $500 por um escravo, exigia pelo menos 5 lutas do mesmo, essa era a lógica da sua cabeça desequilibrada. Mas apesar da crueldade, tirando o seu acesso de loucura em determinado ponto do filme, o vilão acaba ficando mais no território de que tudo aquilo acontece sob o seu comando, mas na verdade, não temos a chance de vê-lo praticando algo odioso de verdade, a ponto de torcermos para que seu fim seja doloroso e totalmente impiedoso (apesar dessa torcida existir naturalmente pelo plot em si e ele ter um único momento “teatral” digno de um grande vilão). Tirando isso, a impressão que fica é que apesar de ser o grande vilão dessa história, Calvin é apenas aquele que autoriza a crueldade, mas não está muito acostumado a sujar suas próprias mãos e depende de gente melhor preparada para isso. O menino rico que tem o dinheiro necessário para comandar, mas falta força.

Esse que talvez seja mais um grande erro do filme (sorry Quentin!). No passado, quando vimos o Christoph Waltz nessa mesma posição de vilão da história, aprendemos a temer aquele personagem odioso logo de cara, com aquela inesquecível e agoniante cena inicial de “Inglorious Basterds”. Mas nesse caso, toda a vilanice do personagem acaba parecendo maquiada, amparada na língua solta do personagem do Samuel L. Jackson, esse sim odioso, por todos os motivos possíveis. Da boca dele saem os insultos mais pesados, talvez por seguir aquela máxima de que “é preciso pertencer a determinado clã para poder falar absurdos e não parecer tão ofensivo assim” ou apenas na tentativa de trazer o lado cômico da história (que é bem presente e um dos pontos mais positivos do longa) através de mais esse personagem. Mas fato é que sem esse aparato, o personagem de DiCaprio, apesar de grandioso, acaba perdendo a força porque não conseguimos enxergar até onde vai o nível da sua tirania ou loucura e a sua despedida no longa é breve (além da sua resolução também ser bem prática) e com ele, infelizmente acabamos perdendo também o Dr Schultz, esse sim um personagem que acabou fazendo falta no restante do filme (que tem 2h45 de duração), em um cena fantástica e que dá inicio ao grande conflito sangrento do longa, trazendo a tona uma das mais notáveis características do diretor.

Sem contar que aquele Stephen acaba ganhando um tratamento de “sábio” demais do qual eu também não sou muito fã e acredito ser um recurso fácil demais para uma justificativa qualquer, seja ela no cinema ou na TV. No filme, eles dizem perceber uma forte conexão entre Django e Hilda (Broomhilda von Schaft, que é a sua esposa e atual escrava de Calvin, interpretada pela atriz Kerry Washington, que quase passa despercebida no filme) e isso é dito pela personagem irmã de Calvin no longa e também é percebido por Stephen, quase que “magicamente”, ele que do meio do nada começa a achar que Django e Hilda escondem algum tipo de relação e não demora muito para que o personagem acabe chegando a brilhante conclusão de que eles só podem ser marido e mulher. Sério, tudo isso acontece fácil demais. Ainda se algum deles tivesse algum conhecimento da língua alemã… mas tudo bem, talvez nessa hora a gente tenha que acreditar na sabedoria dos mais velhos com cabeça de algodão doce, rs.

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Da compra da liberdade de Hilda, até o grande massacre que acaba acontecendo em Candyland, que retira os dois grandes personagens da trama do caminho (e não conseguiu convencer muito na questão da durabilidade e resistência dos escudos humanos usados pelo personagem principal, mas falar em “convencer” em um filme como esse – que diga-se de passagem, eu AMO o gênero e ainda mais o diretor – pode deixar muita gente frustrada e ou irritada, então, fingimos que engolimos mais essa), encontramos Django prestes a voltar a sua posição de escravo e mais um vez longe da sua esposa. Outra justificativa que eu acabei achando nobre demais para a personagem da irmã do DiCaprio no filme (que presenciava de perto as leis na terra da sua família, apesar dela parecer ser extremamente submissa e não ter o menor destaque), mas entendemos que essa era a sua maneira de ver o culpado pela morte do seu irmão sendo obrigado a sofrer até o resto dos seus dias. Mas esse destino acaba sendo interrompido pelo próprio Django, que enxerga uma oportunidade de ainda ter a chance da sua vingança antes de ser vendido como escravo, além de fazer o resgate da sua Hilda.

Nesse momento, o próprio Tarantino aproveita para se divertir em uma cameo e se auto explode, voando pelos ares em uma grande explosão de sangue em meio àquele cenário de camadas laranjas e azul, algo que acaba abrindo os caminhos para que Django tivesse o seu acerto de contas com os remanescentes de Candyland, além de encerrar a missão do próprio Dr Schultz, matando com seu rápido gatilho os irmãos da gangue que ele estava à procura e que havia sido o motivo do encontro dos dois personagens no começo do longa.

Um final merecido para o personagem, que teve a chance de pegar todas as cabeças que estiveram em seu caminho durante esse percurso, especialmente a do Stephen, que acabou ganhando um tratamento todo especial do herói antes de morrer, mas que nem por isso soube calar a boca (sério, faltou um tiro na boca daquele velho ou retirar a sua pele. Tarantino, você foi café com leite nessa hora…). Ele e aquele que aproveitou para pegar suas partes anteriormente no filme (e algo me diz que ele tinha gostado, rs). Em meio a uma grande explosão e uma exibição em seu cavalo de trote, encontramos Django finalizando sua tarefa e seguindo finalmente em frente com Hilda, enfrentando a sua proposta de final feliz ou missão cumprida.

Mas nessa hora, o sentimento é que a vingança da vez acabou sendo minimizada, principalmente se comparada a vingança anterior proposta pelo próprio diretor, que reunia grandes nomes conhecidos da história em um cenário perfeito, apesar de “Django Unchained” também ser muito bacana e trazer aquele mesmo sentimento de satisfação de volta, de ver uma injustiça qualquer sendo “corrigida”, mesmo que seja de forma tão particular. Além disso, senti falta de um lado feminino no longa, uma mulher forte em meio àquele cenário, algo que não vimos e pessoalmente eu acho que o Tarantino sabe trabalhar esse perfil como ninguém, por isso acabei sentindo uma enorme falta dessa presença feminina em cena. (todas elas parecem figurantes na verdade, inclusive a própria Hilda, algo que podem até tentar justificar com a história da submissão e traumas daquele período, mas ainda assim…)

De qualquer forma, “Django Unchained” é um bom filme (não o melhor), tem todas as características que se espera de um filme do Quentin Tarantino e além disso conta com o seu detalhe mais especial, que dessa vez não ficou por conta de uma referência estética ou o próprio texto do longa e sim por sua soundtrack, essa extremamente especial e muito bem pontuada durante o filme, ainda mais misturando tão bem estilos completamente diferentes.

Respondendo a pergunta do começo do texto, se Django seria mesmo o gatilho mais rápido do sul, digamos que se por lá ele encontrasse a The Bride, ou o Sgt. Donny Donowitz carregando seu bastão e até mesmo a Shosanna em seu caminho, mesmo tendo a força de quem é capaz de derrubar um homem e seu cavalo no braço (sim, os dois juntos), nossas apostas não seriam nele. Sorry Django. Contra um Mr __________ (insira aqui a sua cor preferida entre Orange, Pink, White, Blue, Brown ou Blonde) quem sabe? Nesse caso, talvez ele tivesse alguma chance…

 

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5 Respostas to “Django Unchained”

  1. Sandra Says:

    Ameeeei Django! É cômico, é fantástico, é genial!🙂
    Sou fã de Tarantino e fora os erros com um Drink no Inferno, os demais trabalhos dele não excelentes!
    As cenas de violência nem me incomodaram ou chocaram tanto, o que eu adorei mesmo foi o humor e todo o sarcasmo Tarantiniano! rs
    Em Django eu mais ri que qquer outra coisa. O filme é longo, mas eu não vi o tempo passar. Este sim, era um filme que eu esperava e que só acabou confirmando/indo além de toda a minha expectativa.
    Nem vou citar a questão social, que foi muito bem trabalhada. E se pensar que este passado tão feio, os americanos não fazem muita questão que venha a tona… aliás nenhum país né.
    Amei o Di Caprio, Christoph Waltz e Samuel L. Jackson, so-ber-bos!
    Imperdível!
    Só eu que achei ele próprio, Quentin, meio desconfortável no personagem? rsrsrs

    • Essy Says:

      Vc sabe que uma das coisas que conseguiu me prender no filme (além de ser do Tarantino) foi exatamente esse humor que ele carrega sem vergonha de se assumir, rs
      O tom do humor no longa estava perfeito. Só achei as justificativas todas um tanto quanto “simples” ou “fáceis” demais. Desse jeito, apesar de ter me divertido, não consegui ver o porque do filme ser tão longo.

      Em termos de vingança, o anterior me convenceu bem mais. Gostei desse, mas não tanto assim…
      Americanos não gostam mesmo de tocar nessas feridas. Ninguém gosta. Mas vira e mexe alguém vem e com o assunto de volta, para nossa sorte, principalmente quando em uma visão tão particular como qualquer coisa do Tarantino.
      Esses três realmente estavam todos sensacionais, apesar de qualquer coisa. Waltz então, roubou o filme. Mais uma vez…

      Também fiquei com essa impressão quanto a cameo do Quentin, que embora tenha sido deliciosa, também foi quase constrangedora.

  2. A lista bem boa e equilibrada dos vencedores do Oscar 2013 | The Modern Guilt Says:

    […] ps: aqui, nossa review sobre “Django Livre” […]

  3. Flor Says:

    Achei o filme INCRIVEL, e o Christoph Waltz, putz! Era certo que ele ia ganhar o Oscar. Apesar de ter amado, ainda prefiro Bastardos Inglorios…

    • Essy Says:

      Waltz mereceu neam? Achei que ele roubou o filme sem a menor piedade.
      Também prefiro o outro, que ele também roubou a cena, mas de outra forma.
      Gosto do humor de “Django” mas acho que o filme tem algumas falhas…

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