Amour

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Amor para toda vida, inclusive quando ela se complica. (♥)

Quando pensamos em amor, pensamos no amor de agora (para ser honesto, as vezes lembramos também de amores antigos), do presente, do que está acontecendo nesse exato momento da nossa vida e dificilmente conseguimos projetar isso para um futuro realmente distante, daqui 40 ou 50 anos por exemplo. Apesar de ser lindo romantizar essa visão de vez em quando, a realidade pode ser bem diferente e dificilmente a gente vai conseguir chegar perto de algo mais real e concreto do que realmente acontecerá no futuro e saber de fato como será quando finalmente chegarmos lá.

Imaginamos o hoje, projetamos a história que estamos vivendo para mais alguns anos, 5, 10 no máximo, mas nunca imaginamos o que aconteceria com um amor para toda vida. Corrigindo, imaginamos sim, até sonhamos com ele, mas nunca pensamos nas dificuldades dessa fase da vida que ainda não conhecemos e que enquanto ainda jovens, parece tão distante e quase inatingível. Não nos preparamos para nos tornarmos velhos, essa é a verdade.

“Amour” traz exatamente uma visão bem intimista, real e extremamente sensível dessa relação de amor que resiste ao tempo, através da visão do sempre excelente diretor Michael Haneke (“Funny Games”, “Das weiße Band”, mostrando uma casal de músicos, Anne e Georges, vivendo essa relação de amor até o seu fim. Uma visão honesta de um cotidiano agora doloroso, devido as circunstâncias da vida naquele momento, que por conta de um derrame, coloca aquela mulher em um situação bem difícil, onde ela passa a contar totalmente com a cooperação e ajuda do marido para fazer de tudo, das coisas mais simples do dia a dia até os exercícios para a sua reabilitação.

O primeiro momento onde ela é pega pela doença chega a ser assustador, embora ela esteja praticamente paralisada em cena e muito disso por conta da sensação de ver a pessoa que você ama deixando de funcionar normalmente, mesmo que seja por poucos minutos, como acaba de fato acontecendo no longa. E de certa forma, Georges (Jean-Louis Trintignant) acaba se sentindo responsável pelo que acabou acontecendo com ela após esse primeiro derrame, onde Anne (Emmanuelle Riva) acabou ficando com parte do corpo paralisado devido a esse problema, isso porque foi ele quem insistiu em levá-la ao médico para que a sua condição não se agravasse, assumindo os riscos de um procedimento não muito bem sucedido em uma cirurgia da qual ela acabou sendo vítima da porcentagem mínima porém não nula de sequelas.

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Debilitada, Anne não é das pacientes mais fáceis de lidar também, apesar de ter uma vontade inicial de vencer aqueles obstáculos e até colaborar dentro das suas limitações. Vontade essa que não consegue resistir ao tempo e aos poucos, ela que não consegue lidar muito bem com a sua atual condição, se sentindo envergonhada quando exposta a outras pessoas, como o ex aluno que passa pelo aparatamento do casal para visitá-la ou a filha que resolve aparecer de vez em quando, acaba pensando em desistir de viver. Ao mesmo tempo, ela vai se sentido humilhada também por não conseguir realizar sozinha uma tarefa de necessidade física simples como ir ao banheiro e para tudo ter que depender no marido, o qual se dedica ao máximo aos seus cuidados.

Com isso, acabamos ganhando uma visão do dia a dia daquele casal de idosos, com toda a dificuldade já carregada naturalmente através da idade avançada dos dois, somadas a sua atual realidade. Um olhar bem sensível para o lado simples da vida, importante para demonstrar a honestidade do longa. E esse cotidiano é uma delicia de se acompanhar (aquele tipo de retrato da realidade que nós andamos gostando tanto ultimamente), apesar de todas as dificuldades, principalmente levando em consideração a relação de amor presente a todo momento entre os dois, com ele se dedicando ao máximo, mesmo não estando também no auge do seu potencial físico, cuidando daquela com quem dividiu uma vida da melhor forma possível e de acordo com as suas possibilidades.

A essa altura, é importante dizer que apesar da idade também bastante avançada do marido, Georges acabou se dedicando incansavelmente a atual condição da esposa nessa fase inesperada de sua vida, mesmo com toda a dificuldade e limitações que encontramos com a própria idade (ele tendo que colocar sozinho aquela pomba para fora do apartamento foi um exemplo prático sensacional para ilustrar exatamente esse tipo de situação naquela idade). Um companheirismo notável, apesar dele reconhecer certo constrangimento em ver a mulher em situações que ele jamais imaginou ver, mas que mesmo assim não lhe restava outra alternativa a não ser seguir fazendo tudo aquilo que estava ao seu alcance, enquanto esperavam o tempo passar, uma vez que já não havia mais o que se fazer em relação ao seu estado a não ser uma internação, algo que antes de tudo se agravar, em outro momento importante para a história, ela acaba fazendo com que ele prometesse que jamais a levaria ao médico novamente, muito provavelmente devido ao trauma que ela acabou carregando para a vida em sua visita anterior, o que de certa forma acaba acarretando uma parcela de culpa ainda maior para ele, que prontamente aceita a promessa.

Amour (2012

O casal vive em um enorme apartamento, cercado das memórias de uma vida inteira, em meio a muitos livros, algumas obras de arte e muita música erudita, uma paixão que ambos dividem e que a sua filha também acabou seguindo como profissão. Móveis pesados, visivelmente de uma outra época, uma bagunça ligeiramente organizada em meio a muitos objetos e alguns cacarecos que todos nós vamos acumulando sabe-se lá porque ao longo da vida (me lembrou muito a casa de uma tia que eu visitava com a minha mãe quando criança de vez em quando e adorava explorar, para desespero dela, é claro, rs). Mas tudo com muito bom gosto, organizado até, em meio a cômodos largos, espaçosos, que a essa altura da vida acabam sendo inconvenientes por uma questão simples de locomoção rápida dentro dos mesmos, ainda mais dentro de um cenário como esse.

E essa questão da companhia para a vida é outra questão que me fez pensar sobre o assunto. Como é importante escolher alguém para se passar a vida com quem você pelo menos goste da companhia, com quem tenha o que dividir, goste do humor, tenha interesses em comum e tenha o que conversar, mesmo que já tenha se passado 50 anos do inicio dessa relação. Um momento bem bacana do filme acontece inclusive quando em uma conversa solta sobre o nada, ele acaba soltando uma peculiaridade qualquer da sua vida (sempre gostei de gente mais velha e especialmente por suas histórias), que mesmo tendo passado todo esse tempo juntos, ela ainda não conhecia. E conseguir despertar esse tipo de surpresa no seu parceiro de vida a essa altura do campeonato, deve ter um gostinho extremamente especial. Espero chegar lá um dia e gostar da minha companhia. Ou melhor, que alguém ainda goste e ou aguente a minha companhia, rs.

Dentro daquele aparatamento, vamos observando o dia a dia do casal, que vai mudando ao poucos e acrescentando elementos ao seu cenário a medida em que a situação vai piorando e eles vão precisando se adaptar mais àquela realidade, agora com uma pessoa que vai precisando cada vez mais de cuidados especiais. Outros personagens também passam a ser acrescidos a história, como as enfermeiras que passam a cuidar de Anne, assim como algum vizinho gentil que passa de vez em quando para fazer um favor ou apenas ver com andam as coisas ou empregados.

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Com esses outros personagens ganhamos dois excelentes momentos, como a enfermeira meio assim que assumiu um novo turno no tratamento de Anne e foi colocada devidamente em seu lugar pelo próprio Georges, quando ele disse que desejava que ela passasse pela mesma situação de ter que depender de alguém para fazer qualquer coisa um dia e não pudesse revidar qualquer tipo de abuso ou grosseria (e olha que nós conhecemos histórias de enfermeiros bem piores, apesar da reação da moça ter entregado bastante da sua índole), além daquela conversa franca que ele acabou tendo com a própria filha, situando a moça no seu devido lugar, dizendo inclusive que enquanto ele estava vivendo pelos dois, ele não tinha mais tempo para gastar com preocupações momentâneas da filha ausente, que só agora resolveu se preocupar, por puro desespero (comportamento clássico de quem não participa efetivamente do problema). Dois momentos sensacionais!

Até que o estágio da doença acaba avançando e Anne vai se encontrando cada vez pior, em um trabalho de atriz fantástico, que não é a toa que fez com que a Emmanuelle Riva fosse reconhecida esse ano no Oscar, que inclusive ela também é uma das que merecia levar, devido a tamanha entrega e emoção que ela conseguiu nos transmitir com a sua personagem naquela condição, cada vez mais limitada. Com esse avanço, começa a bater o desespero em Georges, que entra em um conflito com ele mesmo a respeito do que fazer quando ele passa a ver o grande amor da sua vida sofrendo de forma desesperadora (e nessa hora ele faz uma analogia a uma história do seu passado, ainda quando criança, que é bem importante para o momento), visivelmente cansada de lutar contra (uma vontade que ela chega a mencionar no começo do longa, logo quando a personagem volta do hospital) e ele já estava inclusive perdendo a paciência e se tornando um homem que provavelmente não gostaria de ser. (a vergonha que ele sente depois daquele tapa e o desespero dele em ter que lidar com a visita da filha logo na sequência, também são momentos sensacionais do longa)

O final do filme já é anunciado em seu começo, apesar de existir uma grande surpresa em seu caminho, que acaba justificando de certa forma tudo aquilo que nós já sabíamos que iria acontecer. Um final que não poderia ser diferente ou mais corajoso, que ao mesmo tempo que funciona com um tapa na nossa cara com um baguete originalmente francesa, também acaba funcionando como um alívio para o final feliz daqueles dois personagens, capazes de tudo e dispostos a tudo para ficar juntos até o fim. E isso só pode ter um nome e por lá, eles chamam de “Amour”. (♥)

Um filme sensível e extremamente corajoso por conta da sua resolução final, que apesar das circunstâncias, passa longe de ser um grande dramalhão e funciona apenas como uma linda janela de frente para a vida daquele casal, durante aquele período específico de suas vidas e que merece ser visto por todos. Um filme com cheirinho de avó e quem tem ou teve uma figura tão especial assim na vida sabe exatamente do que eu estou falando (pena a casa dela também hoje já estar vazia. Humpf!). E é bom separar uma caixinha de Klennex, só para garantir.

 

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4 Respostas to “Amour”

  1. Sandra Says:

    Emocionamente, dramático, duro, mas totalmente imperdível.
    É o meu favorito do Oscar 2013, mesmo tendo certeza que irá perder a estatueta de melhor filme, para Argo.
    Emannuelle Riva fantástica! Eu queria entrar no filme e ajudar o Georges, tão frágil, andar lento, que dó… e ao mesmo tempo tão ferrenho na sua decisão.
    Filme para se assistir e ficar pensando depois… não é fácil, aliás causa grande desconforto em alguns momentos e na verdade é a realidade que tantos enfrentam.
    Mais um excelente filme de Hanecke. 🙂
    Para aplaudir em pé!!!

    • Essy Says:

      Uma delícia neam? Realmente para se apaludir!
      Apesar de achar que o filme tem poucas chances no prêmio principal, vai levar como melhor estrangeiro, o que já é alguma coisa.
      Você sabe que eu estou torcendo bastante pela Emmanuelle. Gosto da J-Law, não ficaria triste se ela levasse, mas achei a Emanuelle perfeita nesse longa. Além de ter uma tarefa muito mais difícil. Veremos…
      E é exatamente isso que vc disse e em vários momentos do filme, fiquei morrendo de vontade de levantar da minha poltrona e ir ajudá-lo.
      Sem contar que é um ótimo exercício para se imaginar onde nunca pensamos direito que vamos chegar e como vamos chegar.
      Excelente!

  2. A lista bem boa e equilibrada dos vencedores do Oscar 2013 | The Modern Guilt Says:

    […] ps: aqui, a nossa review sobre “Amour” […]

  3. Vicious, a relação mais amarga e adorável da TV | The Modern Guilt Says:

    […] somos exatamente preparados para isso ao longo da vida (recentemente o filme “Amour” nos deu uma bela ilustrada de uma relação duradoura bastante semelhante a questão e sobre o que […]

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