O novo Hannibal

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Sinceramente, eu não consigo imaginar uma outra forma para que Hannibal Lecter tivesse chegado a TV. Até consigo imaginá-lo chegando seguindo um fundamento meio preguiça como The Following, ou optando por uma linha mais Dexter, seguindo uma narrativa de acordo com a cabeça do personagem, nos fazendo pensar como o assassino da vez, até cair em um procedural bem convencional e muitas vezes monótono (antes de acabar de forma deprimente como a série do serial killer de Miami…). Mas honestamente eu não consigo me imaginar preso a Hannibal se não fosse exatamente pela forma que o Bryan Fuller escolheu para nos contar essa já conhecida história.

A começar pelo seu olhar, que é bem específico, sofisticado e dono de uma beleza e estética esquisita (linda por sinal), quase como se tudo fosse um belíssimo pesadelo. Kitsch de vez em quando, principalmente nos momentos em que embarcamos na mente do Will Graham por exemplo, que devido a toda a sua empatia com os demais, consegue pensar exatamente como o assassino (uma boa diferença do que estamos acostumados a ver em Dexter por exemplo), nos transportando automaticamente por meio de uma revisita ao cenário do crime até a mente do assassino em questão. O pêndulo cruza a tela, as imagens ganham um outro tratamento, tudo fica mais amarelado, quente (gosto muito quando ele caminha ao contrário nesses momentos), fazendo um contraste lindo com o universo mais frio e sombrio da série que prevalece em todo o resto, desde o dia a dia dos personagens até as cenas dos crimes (todas sensacionalmente sensacionais!), essas sempre em um tom azulado e com bem menos vida.

Quem conhece o trabalho do criador da nova série desde os tempos de Pushing Daisies (que eu morro de saudades e revejo de vez em quando um ou outro episódio em DVD), consegue entender perfeitamente o que eu quero dizer. Apesar de Hannibal seguir uma outra linha, bem menos saturada ou recheada de excessos (embora eles também apareçam dentro da série quase sempre) é possível facilmente reconhecer a assinatura do seu criador em meio a cada um dos detalhes que encontramos agora em Hannibal, que não são poucos (o figurino do próprio é um deles, que diga-se de passagem, também é bem sensacional) e são todos extremamente bem cuidados, além de lindos de serem vistos, resultando em uma estética bem particular para a nova série.

Boa parte do mérito de Hannibal inclusive deve ser dada a sua direção de arte, que é fora do comum e de vez em quando me faz lembrar muito algo que sempre chamou a atenção de todos em Sherlock, mas tudo pensado de uma outra forma, sem parecer cópia e com um nível de originalidade absurdo, apesar de qualquer semelhança. Todas as cenas de crime, do modo como as encontramos ou quando são reconstruídas pela mente do Will, todas elas são de uma beleza impossível de ser ignorada, uma beleza que ao mesmo tempo que distraí (aquele lugar cheio de chifres ou o corpo daquela mulher preso a um deles, aquela plantação de cogumelos, o assassino que transformava as vítimas em “anjos”), consegue também seguir exatamente o mesmo ritmo da história e talvez por isso tudo case tão bem dentro da série. (que conta também com uma edição bem bacana)

História que também é muito bem contada, com um mergulho profundo principalmente na cabeça do Will Graham (só dele, pelo menos por enquanto), que na verdade consegue pensar exatamente como o outro e por isso se torna brilhante naquilo que faz. Apesar de parecer um caminho fácil a ser percorrido (principalmente pensando como resolução, algo que eu cheguei a reclamar pelo que vi de The Following, só que de uma outra maneira), a todo momento eles fazem questão de mostrar o quanto o personagem se incomoda com tudo aquilo e o quanto ele sofre por ser daquela forma, ilustrando lindamente quem é o personagem hoje e quem ele poderia se tornar facilmente caso perdesse o controle.

Sem contar que o personagem acaba roubando a cena, aparecendo inclusive muito mais do que o próprio Hannibal (Mads Mikkelsen), que é o seu terapeuta e circula meio que por trás da produção que leva o seu nome. E esse é um mérito que é preciso ser dado ao Hugh Dancy (que nós AMAMOS faz tempo, Höy!), que sempre foi um excelente ator e que encontrou no papel do Will Graham a chance de fazer algo bem parecido com o que a sua esposa Claire Danes faz lindamente em Homeland, claro que de acordo com as devidas proporções. (mas eu realmente acho ele tão bom quanto e fico imaginando esse casal em casa, passando o texto. Algo que merecia ser gravado e virar uma série de TV, que mesmo sem existir nós já sabemos que seria bem melhor do que boa parte do que anda acontecendo na TV atualmente, rs #HELLYEAH)

Hannibal - Season 1

O piloto é basicamente divido em duas etapas de 20 minutos, a primeira onde somos apresentado ao Will e passamos a conhecê-lo e entender como funciona a sua mente esquisita e brilhante e na segunda metade, quando Hannibal finalmente é introduzido à história, que é quando ganhamos apenas algumas nuances do seu caráter, mas sempre de forma elegante, sem perder a compostura e até agora, exceto por um momento, ainda não vimos nada sobre o personagem em cena, agindo com suas próprias vítimas ou qualquer coisa do tipo (a não ser em termos de uma leve pressão psicológica) e isso eu confesso que faz falta, nem que fosse mostrado em pequenos flashes ou algo do tipo. De qualquer forma, todas as cenas dele cozinhando em casa e ou servindo alguém com um de seus pratos super elaborados, são todas ótimas e de revirar qualquer estômago gourmet.

Talvez esse inclusive seja o único ponto fraco da série até aqui, que devido ao total clima de procedural, com um novo assassino a cada semana e tudo mais, acha que é bem mais interessante cozinhar o personagem lentamente (respeitando a história original, claro) do que já ir entregando a sua cabeça em uma bandeja de prata (pensando em longevidade  é sim bem mais interessante. Agora, pensando em criar alguma empatia com o personagem, é preciso que isso apareça em algum momento também, além do mesmo figurar apenas como um manipulador por trás do divã). Apesar disso, do alto do quinto episódio, tudo ainda continua bastante interessante. Agora, até quando isso pode continuar interessante, isso já é uma outra questão, porque apesar de estar sempre por perto, a série não se trata exclusivamente do Hannibal ou da sua mente e a narrativa segue uma outra linha, com casos isolados que normalmente não tem muita ou nenhum relação com o famoso personagem, algo que com o tempo pode se tornar bastante cansativo (para quem gosta de procedural não) ou provavelmente acabe diminuindo o personagem aos poucos. (isso sem contar o carisma e magia do próprio Hugh Dancy como seu oponente…)

A não ser por esse (por enquanto ainda pequeno) detalhe, Hannibal é uma grande produção da NBC, que tem feito um trabalho excelente com a série (surpreendentemente) e por enquanto só tem do que se orgulhar, em todos os sentidos. Um elenco sensacional (que ainda tem o Laurence Fishburne, fazendo o que ele sabe fazer. Sorry Morpheus!), uma história conhecida de um personagem de sucesso (que eu tenho que confessar que quando criança, morria de medo e devido a esse trauma antigo, nem sou dos mais conhecedores sobre a sua mitologia), tudo isso obviamente tem colaborado e bastante para o sucesso de Hannibal na TV, mas a série não seria metade disso se não fosse pelo olhar do Bryan Fuller, que com toda a sua estranheza consegue deixar esse cenário ainda mais sedutor a atraente.

Até agora foram exibidos 5 episódios (sendo que pulamos um deles por conta do pavoroso atentado em Bonston) e ainda não se sabe sobre uma possível renovação da série (que andam dizendo ser difícil e eu não consigo entender o porque a não ser pelo custo de uma produção como essa…), que apesar de ainda ser bem cedo, já é possível torcer para que aconteça, se não por sua qualidade, pelo desejo já revelado do Bryan Fuller de trazer o David Bowie para uma participação na série, vivendo o tio do Hannibal caso ela seja renovada para uma Season 2. Imaginem só?

E olha que procedural nunca foi o meu forte, mas toda essa nova visão para essa história já conhecida (além do fator “encontro semanal com o Hugh Dancy”) tem me deixado bastante curioso e ansioso por seus novos episódios a cada semana.

Veremos…

 

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3 Respostas to “O novo Hannibal”

  1. Cris Says:

    Corvardia eles não quererem renovar a serie, embora sempre a chance de ela migrar para outra emissora, esperemos.

    • Essy Says:

      Super acho também, ainda mais sendo ela tão boa até agora.
      Reparei desde o começo que nos créditos, apesar de ser da NBC, a produção é do AXN. Quem sabe eles conseguem salvar e ou revender?
      Veremos…

  2. Hannibal reloaded | The Modern Guilt Says:

    […] algo muito parecido acabou acontecendo com Hannibal, apesar dessa se comportar muito mais assumidamente como uma série procedural do que qualquer […]

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