Os zombies em fase de readaptação de In The Flesh

InTheFleshCartaz

In The Flesh é aquela série que causa uma estranheza complicada como primeira impressão, afinal, encontrar com zombies tentando se reintegrar a sociedade não parece nada natural, pelo menos não a princípio. Vampiros, lobisomens, alienígenas, mutantes, super heróis com poderes exóticos e roupa intima por cima do spandex tudo bem, mas zombies? Não, não parece de Deus. (como somos hipócritas, não?)

Tirando toda a estranheza da novidade no piloto, que gasta boa parte do seu tempo tratando exatamente dessa nova proposta de zombie, In The Flesh conseguiu se tornar algo que foi muito além da temática do momento, apesar de contar apenas com o mísero número de três episódios para a sua Season 1. Mesmo assim, passando do piloto até o preview da temporada que veio logo a seguir, já dava para perceber que a série tinha tudo para se tornar bem mais interessante, uma vez que toda essa estranheza fosse colocada um pouco mais de lado para dar mais espaço aos dramas comuns do cotidiano de todo mundo, nesse caso aplicados a uma espécie de “segunda vida” ou “segunda chance”. De qualquer forma, agradecemos pela chance de ter visto um dos Skins como zombie. (sim, aquele era  o “Rich”)

Aceitação, preconceito, intolerância, tudo isso eles conseguiram discutir de forma bem bacana durante essa primeira temporada, amparados a essa nova temática que apesar de soar bem estranha a princípio, com o tempo vai se tornando algo mais normal e até mesmo aceitável a medida que vamos nos informando sobre o assunto, além de ser bem interessante e uma novidade. Diferente de outras séries do gênero, aqui não temos o massacre dos sobreviventes vs zombies devorando uns aos outros e ficamos mais com a carga dramática da situação inusitada de mortos vivos maquiados tentando viver como pessoas comuns. Apesar de algumas situações de confronto bem extremas entre os dois lados da história, a série optou por não dar muito esse foco para os seus personagens, onde foram poucas as cenas mais sanguinárias que tivemos durante essa primeira temporada.

Apesar de poucas, elas não deixaram de aparecer e também foram aterrorizantes, como os pesadelos do Kieren (Luke Newberry) lembrando da vítima que ela acabou instintivamente fazendo dentro do supermercado logo após a sua “transformação” e mais tarde, com tudo ficando ainda mais sombrio com a cena dele acordando debaixo da terra (que apareceu por meio de um ataque de pânico do personagem ao se ver preso em um lugar apertado novamente) e surgindo em meio a outros corpos que foram despertados no momento da ascensão. Um momento que inclusive eu gostaria de ter visto mais na série e acho que seria bem bacana se ele tivesse sido mostrado, já que o foco de In The Flesh no presente está mais no conflito das relações interpessoais do que o combate em si e toda a questão da sobrevivência de outros cenários mais “apocalípticos”  do mesmo tema, se é que assim podemos dizer.

E a história ficou bem mais interessante quando descobrimos que Kieren na verdade se suicidou por conta de um amigo morto na guerra, que descobrimos mais tarde que não foi morto (quer dizer, foi, mas também havia sido reintegrado à sociedade da mesma forma que ele) e estava prestes a voltar para a pequena vila de Lancashire. Detalhe que o tal soldado da guerra era ninguém menos do que Rick (David Walmsley), o filho do mais intolerante e chefe da oposição que era absolutamente contra a ideia de conviver em meio a essa nova realidade. Mas fora isso, um outro detalhe ainda não havia nos sido revelado sobre essa questão toda até então, que se você prestou bem atenção no quarto do personagem principal durante o episódio piloto (tisc tisc… nos quadros… tisc tisc), talvez tenha percebido alguma coisa e ou “inclinação”, rs.

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Engraçado é que Rick ganha um outro tipo de recepção em meio àquela comunidade e tudo isso graças a fama do seu pai, que faz questão de tratá-lo como um herói de guerra, exigindo que todos façam o mesmo, ignorando completamente o fato de que apesar da cara cheia de pontos grotescos (apesar dele ser lindo. Höy!) super visíveis, Rick também é um morto vivo, assim como os demais que ele e seu grupo (que percebem que ele é um zombie, mas não tocam no assunto) não aceitam por perto da vizinhança (lembra da mulher que eles mataram sem a menor piedade durante o primeiro episódio?). Apesar do pai intolerante, Rick tem um outro perfil e mesmo tentando contornar a situação, forçando que o Kieren seja tratado da mesma forma quando ao seu lado, o mesmo acaba fazendo de tudo para tentar agradar o pai, se forçando a fazer coisas que talvez ele não fizesse se pensasse apenas por ele mesmo, o que demonstra um certo nível de covardia em relação a todo momento ele estar evitando o confronto com o pai, algo que não combina em nada com o perfil de herói da história. (se bem que nós sabemos que muitos dos chamados “heróis de guerra” não passam de covardes. Fato)

Com a sua chegada, de uma hora para a outra o clima muda na cidade, que passa a ter uma maior tolerância em relação aos zombies readaptados, provavelmente por terem ganhado a chance de enxergar o problema mais de perto (além de ser uma exigência do governo) e perceber que talvez o problema não fosse tão grande assim e na verdade tratava-se apenas do medo do desconhecido falando mais alto do que qualquer outra coisa. Algo que permitiu que o Kieren saísse de casa para circular pelas ruas com certa frequência (escondido a princípio), mesmo com todo o make e lentes que ele precisava usar diariamente para ser visto com outros olhos, quase como se para ser aceito ele não pudesse ser quem ele realmente era. Algo bem triste, até mesmo dentro desse cenário.

Além do seu trauma passado de suicida e a chegada do antigo amigo que foi o motivo do seu atentado contra a própria vida, a história de Kieren também ganhou um plus com a chegada da sua amiga também morta viva, Amy Dyer (Emily Bevan) que estava muito mais acostumada com tudo aquilo do que ele. Do encontro dos dois no cemitério, aos passeios pelo parque ou jantares em família, acabou surgindo essa relação de amizade e a dupla acabou funcionando muito bem dessa forma, embora a sua família tivesse alguma esperança de que Amy representasse algo mais para ele.

Amy que funcionou muito bem como alívio cômico da série, trazendo um pouco mais de humor para o lado sombrio da força zombie, com seu jeito mais desbocado e a coragem de enfrentar a sociedade de cara limpa, mostrando exatamente aquilo que ela era. Até se dar bem a personagem conseguiu (EW! Mas de novo… wait, ver o Eric pegar geral em True Blood tudo bem, neam? Tudo bem que ele é um morto magia, mas é um morto – conservado de outra forma, rs) e além do lado cômico, sua personagem também teve bons momentos dramáticos, como a conversa entre ela e o Kieren sobre como ambos morreram ou quando Amy foi pega por um dos membros do grupo intolerante dentro da sua própria casa de forma cruel e totalmente meio assim, o que acabou despertando a vontade da personagem de tentar a sorte em uma cidade grande e mais preparada para a diversidade.

Mas o grande destaque da série foi mesmo a relação Kieren e Rick, que ainda que ambos não tenham assumido (e nem precisava) durante esses três episódios da Season 1, ficou mais do que evidente que algo mais existia entre eles do que apenas uma grande amizade. Da discussão sobre a separação de ambos, Kieren por conta da faculdade e o Rick por conta do exército (com o detalhe de uma falha de comunicação muito provavelmente provocada pela família ao perceber qualquer coisa), até a revelação do esconderijo dos dois mais próximo do final da temporada (que inclusive foi onde o próprio Kieren foi achado morto por seu pai), começamos a entender um pouco mais sobre a proximidade da relação daqueles dois e toda a carga dramática que isso havia acarretado para ambos, que já eram vítimas do preconceito mesmo antes de se encontrarem daquela forma, o que tornava tudo ainda pior. E a abordagem para esse plot foi bem bacana, sem que nada precisasse ser dito de forma óbvia, onde o sentimento que percebemos que existia entre os dois acabou funcionando muito mais do que qualquer explicação detalhada sobre o que realmente se tratava toda aquela história.

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Dessa relação, pré e pós morte, acabamos encontrando a resolução final da temporada, com todas as pontas soltas dessa curta história se encontrando e deixando tudo muito bem amarrado, apesar do curto espaço de tempo, onde descobrimos o trauma da irmã (chatinha…), que havia encontrado o Kieren já transformado dentro do mercado, onde a vítima que o atormentava em seus pesadelos era ninguém menos do que sua melhor amiga, passamos também pelo trauma de seus pais em relação ao suicídio do filho, com a mãe se colocando a disposição para entender qualquer coisa que ele quisesse compartilhar com ela para evitar que a sua história se repetisse (um momento lindo também), até o merecido acerto de contas do vizinho que teve a mulher morta em frente a porta de casa de forma cruel pelas mãos do grupo intolerante da história.

Na verdade, In The Flesh usou muito bem a temática zombie para abordar a intolerância com o diferente e ou desconhecido, como se as pessoas preferissem (ou fossem convencidas a) maquiar quem elas realmente eram para que fossem aceitas de forma melhor pela sociedade. Algo do tipo “Não mostre a sua cara, mostre o que eles querem ver”. Nesse caso, toda a estranheza de zombies se adaptando a viver como pessoas comuns, recuperando suas memórias e tudo mais, acabou funcionando como uma alusão a um mergulho dentro de si mesmo, a sua verdade e aquilo que você gostaria de ser, mesmo que para isso não fosse necessário uma segunda chance, como nesse cenário. Algo que eles conseguiram realizar muito bem, tanto em termos de história, quanto pela abordagem mais delicada e sensível em relação ao tema, que embora pareça bem absurdo, tirando o fato de encontrarmos na série mortos vivos circulando como pessoas comuns, inclusive fingindo comer como qualquer um (sério, AMO esse plot!), todo o resto seria algo bem possível de acontecer na vida de todo mundo. (e quem não conhece alguém que mais parece um zombie do que qualquer outra coisa? E não estamos falando da aparência, hein?)

Como resolução para o plot principal da temporada, tivemos o pai do Rick exigindo que ele tirasse de uma vez por todas a vida do Kieren, algo que ele não conseguiu recusar a princípio pela falta de coragem de enfrentar o pai autoritário (e até tentou avisar o amigo), mas que nos final das contas nos levou àquela cena linda com ele aparecendo sem maquiagem pela primeira vez diante do pai, que apegado a alguns motivos religiosos e entendendo que o filho não iria mudar por ele (mudar quem ele já era mesmo antes de morto), não conseguiu entender e acabou o matando de forma cruel, roubando a chance que todos os envolvidos ainda tinham de se acertar de alguma forma. Ainda bem que o seu troco não demorou muito para chegar.

Funcionando como uma espécie de “Romeo + Romeo” dos tempos modernos dos zombies (uma novidade surpreendente eu diria) e nos entregando um final nada feliz, In The Flesh conseguiu fazer uma boa primeira temporada em todos os sentidos, funcionando muito bem inclusive como uma obra fechada, caso não aconteça uma renovação (embora mereça ser renovada), uma vez que além da vontade de ver essa história seguindo adiante, pouca coisa foi deixada no ar sobre o que ainda esperar da série.

De qualquer forma, a série é uma boa pedida tanto pela novidade da abordagem do tema,  quanto pelas boas surpresas no caminho e também por ser inglesa, curtinha, fácil de acrescentar na watchlist. E vai que o apocalipse zombie realmente acaba acontecendo algum dia e a realidade seja algo mais próxima de In The Flesh do que de The Walking Dead, huh? Precisamos estar preparados para tudo crianças. Para TU-DO!

 

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2 Respostas to “Os zombies em fase de readaptação de In The Flesh”

  1. Vinicius Nicolau Says:

    Só fui terminar ontem de ver, tinha praticamente esquecido de ver o season (series?) finale? Acho que a vale a renovação se mostrarem mais sobre o profeta, meio que expandindo a visão sobre o acontecido, mas não sei se vale a pena pelo Kieren.

    E nossa, chorei no final – e agora tô viciado na música https://www.youtube.com/watch?v=UAOEOCji3_E&feature=youtube_gdata_player

    • Essy Says:

      Confirmou! Só porque vc fez esse comment ontem, a BBC3 soltou que renovou In The Flesh para uma Season 2. Ainda não disseram nada sobre, mas dizem que podem ser 6 ou 7 eps.
      A história do Kieren ficou bem amarradinha mesmo (e que história linda, não?), mas ainda faltou tocar nesses outros pontos que vc mencionou. Veremos…
      Nossa, essa música é MARAVILEEEANDRA. Também chorei muito com o final. Aliás, com todo o ep final, inclusive com a cena da amiga dele no quarto e depois com a despedida.
      Obrigado por me lembrar da música, acho que vou até aproveitar para umas das mixtapes.

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