Vicious, a relação mais amarga e adorável da TV

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Deixando o romantismo de lado e pensando no lado prático da história, imaginem o quanto a ideia do  “até que a morte nos separe” pode ser aterrorizante hoje em dia. Sendo bem prático mesmo e pensando no tempo de nossas avós, que se casavam bem jovens e ficavam com seus maridos por muito tempo (normalmente até o fim da vida), essa relação com alguma sorte e contando bastante com a saúde dos envolvidos, poderia chegar aos 50 anos, talvez. Em países que foram para a guerra no passado então, essa ideia não chegava a durar muito e muitas vezes acabava por motivos trágicos, muito antes do que se imaginava. Mas hoje em dia, com a expectativa de vida aumentando cada vez mais e com a possibilidade de chegarmos aos 100 anos de idade, a ideia de permanecer ao lado de alguém para o resto da vida, apesar de romântica e super poética como sempre, na realidade, pode significar que considerando que você se case antes dos 30 anos, você corra o risco de comemorar segundo uma pesquisa rápida na internet, algo que é conhecido como “bodas de vinho”, que é quando um casal completa 70 anos de casamento. Imaginem só? (eu imagino a paciência de alguém para me aguentar por 70 anos e não consigo imaginar alguém forte o suficiente para aguentar essa tarefa, rs)

Não somos exatamente preparados para isso ao longo da vida (recentemente o filme “Amour” nos deu uma bela ilustrada de uma relação duradoura bastante semelhante a questão e sobre o que tudo isso pode significar para esse amor) e tão pouco estamos acostumados a encontrar principalmente na TV, histórias de casais que dedicaram quase 50 anos de suas vidas ao lado um do outro. Pelo menos não como personagens principais. E se isso já não é muito comum, para um casal gay então, essa se torna uma experiência praticamente inédita, que é o que acompanhamos durante a divertidíssima Season 1 de Vicious, uma série inglesa deliciosa sobre a linda relação amarga de dois homens que passaram a maior parte de suas vidas juntos.

Com um humor extremamente ácido, em uma curta temporada de apenas 6 episódios (as vezes, odiamos os ingleses por isso) e um ainda inédito especial de Natal prometido para esse ano (veremos…), acompanhamos de perto o dia a dia dentro de um apartamento escuro da Londres antiga do casal de velhinhos mais adorável do momento. E sim, eles podem ser ácidos, extremamente sinceros de vez em quando, mas é impossível negar que Stuart e Freddie sejam adoráveis. E conseguimos perceber logo no piloto que o título “Vicious” poderia realmente representar muito bem a série, que apesar de não ser nada genial (temos que admitir que essa é mais uma seguindo aquela famosa temática familiar que parece ser a grande aposta da vez), logo de cara já nos apresentava a possibilidade de se tornar o nosso mais novo vício televisivo. E confirmou! Ao final dos 6 primeiros episódios de sua temporada de estreia, acho que podemos dizer facilmente que já nos encontramos completamente viciados em mais essa delícia inglesa.

Com uma longa história de 49 anos de convivência, além dos bons momentos que dividiram juntos durante todo esse tempo, ambos parecem ter focado nas mágoas que obviamente fizeram parte do relacionamento e principalmente da convivência da dupla e a partir disso, ganhamos muito daquele humor que só os ingleses conseguem fazer dessa forma, um tipo de deboche mais refinado, muitas vezes bem malvado, mas que ao mesmo tempo esconde um tipo de humor delicioso que sempre me pareceu muito bacana e atraente porque apesar de simples, é extremamente inteligente. E em meio a muitos insultos, ambos vão nos conquistando aos poucos com suas manias e costumes, além das visitas que não param de acontecer naquele apartamento a todo momento e alguns plots e personagens recorrentes que apesar de bem simples ou caricatas de vez em quando (e todos eles são bem assim, o que me fez lembrar muito de Ab Fab), conseguem nos arrancar gargalhadas extremamente sinceras e muito bem gastas.

Vicious_McKellen_Jacobi

Stuart é quase uma dona de casa e parece gostar de se comportar como tal, do tipo que diz que abdicou do seu lado profissional para cuidar do outro, se vangloriando do fato de sempre ter sido o mais bonito do casal (há controvérsias, rs), ele que é dono de uma notável fragilidade, tanto que até pouco tempo ao longo da temporada, o personagem se manteve dentro do armário para a mãe, que não fazia ideia da verdadeira relação entre ele o seu parceiro de longa data. Mas apesar dessa fragilidade mais evidente, é preciso dizer que na hora de combater aos insultos do grande amor da sua vida, Stuart não fica atrás e acaba revidando cada um deles de forma excelente, em uma dinâmica que ambos os atores dominam lindamente.

Freddie é o mais vaidoso dos dois, muito provavelmente por conta da sua profissão de ator, que não anda lá essas coisas e parece que já faz tempo, mas mesmo assim ele não perde a pose por nada nesse mundo (tendo ele participado da série clássica de Doctor Who como um dos vilões e segundo a série, sendo esse o seu maior papel até hoje, eu também jamais perderia a pose e te entendo completamente, Freddie). Convencido de que tem muito menos idade do que aparenta ter (ambos tem muito disso, mas ele tem mais), o personagem é quem mais faz questão de se comportar como um jovem e também é dono de uma língua afiadíssima, principalmente na hora de atacar a sua companhia para a vida.

Mas apesar de viverem nesse delicioso campo minado de ofensas pessoais envolvendo o histórico de anos dos dois, o casal consegue manter a doçura necessária para que a gente acredite que eles se amam de verdade, tanto que mesmo fazendo piadas e mais piadas sobre os fracassos na vida de cada um deles, ambos não medem esforços quando chega a hora de defender o seu parceiro contra qualquer pessoa que ouse falar qualquer coisa negativa em relação ao dois, mesmo com eles praticando esse exercício quase que o tempo todo, algo muito parecido com as relações de qualquer família ou pessoas que se amam ou que passaram a conviver de perto por muito mais tempo. (inclusive, eles me lembram muito meus avós)

Apesar da limitação do cenário (algo próximo de Him & Her), surpreendentemente os atores conseguem fazer a série render e muito, mesmo quando só estão os dois dividindo um lugar no sofá do próprio apartamento. É claro que Vicious ganha muito também com as participações pra lá de especiais dos visitantes que não param de chegar no apartamento do casal, como a Violet (Frances de la Tour) ou o vizinho magia Ash (Iwan Rheon, também conhecido como o torturador de GOT), com o qual eles juravam que poderiam ter alguma chance. E tem também a dinâmica deles com o cachorro moribundo, que nunca apareceu realmente, apesar de ter estado em cena durante algumas vezes nessa temporada (e a coleção de urnas com as cinzas dos cachorros anteriores do casal? rs) Mas apesar de permanecer bastante dentro do mesmo cenário, a série até chegou a se arriscar em alguns outros, como naquele episódio em que o Stuart começa a trabalhar como vendedor em uma loja de departamento ou quando o Freedie acaba se aventurando nas noites inglesas, na companhia do Ash e seus amigos.

Além do humor super ácido entre o casal e seus amigos, Vicious também conta com uma série de referências a TV inglesa atual que são igualmente divertidas, como quando o Freedie acaba conseguindo um papel como figurante com apenas uma line em Downton Abbey, além das várias menções a Doctor Who. E além de divertidíssima, eles conseguem nos entregar um lado mais foufo para a Vicious e isso acaba acontecendo toda vez que o casal reconhece que se ama apesar de qualquer outra coisa, como no episódio que encerrou essa primeira temporada, como o Stuart finalmente saindo do armário para a mãe e sendo defendido lindamente pelo Freddie (e o mesmo, só que em outra circunstância, também já havia acontecido ao contrário ao longo dessa primeira temporada). E é importante reconhecer que entre os atores Derek Jacobi e o Ian McKellen existe uma cumplicidade e uma química que impressiona, com ambos atores veteranos dominando muito bem essa proposta, na qual eles inclusive parecem se divertir bastante. (de vez em quando eu sinto como se eles tivessem se esforçando para não cair na risada)

E por se tratar de uma temporada bem curta, a comédia inglesa acaba sendo mais um daquelas que você consegue acompanhar tranquilamente tomando um chá das cinco, do tipo que quando aparece qualquer episódio novo, você acaba dando aquele 1/2 sorriso de canto de boca, só de imaginar fazer uma nova visita no apartamento do casal mais amargo e adorável do momento na TV. E a boa notícia é que Vicious já foi renovada e ganhará uma Season 2. Hurray!

 

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4 Respostas to “Vicious, a relação mais amarga e adorável da TV”

  1. Cris Says:

    O bom das series inglesas é q elas são bem enxutas e sem enrolação, e é claro q uma pitada de nonsense sempre deixa tudo mais delicioso. Ultimamente tenho me encantado mais com a TV do q com o cinema, ver atores do nível do Ian dando um show na telinha mostra q a indústria de cinema tem que correr muito para alcançar a qualidade q as series tem mostrado ultimamente.

    • Essy Says:

      Os ingleses são ótimos mesmo. Precisos, sempre diretos ao ponto, sem muita enrolação.
      Só ficamos meio assim porque quando é muito bom, ficamos com saudades mais rápido.
      Gosto muito dessa transição que está acontecendo dos atores do cinema vindo para a TV. Acho que coisas boas podem acontecer nesse caminho.

  2. tati Says:

    Estou apaixonada por essa série! Ver Ian Mackellen e Derek Jacobi em cena realmente não tem preço. Eu adoraria ser “enrolada” pela série durante mais uns 15 episódios, só para ter o prazer de curti-los em cena. Eu me peguei rindo alto várias vezes!

    • Essy Says:

      Esses dois realmente dominam a cena, apesar da série ser mais simples e ter um outro tipo de humor, que nem por isso deixa de ser sensacional.
      Eu também, quase sempre me pego gargalhando com os dois! Do tipo que dá vontade de ver tudo de novo logo em seguida.

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