Hannibal reloaded

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Séries procedural ou policiais nunca foram meu forte e muito de vez em quando, uma ou outra acaba me atraindo, sempre por contar com um fator a mais do que o casinho da semana ou qualquer coisa do tipo. Foi assim com Fringe, que no começo, apesar de sempre ter sido vendida como Sci-Fi, parecia ser só aquilo mesmo em relação aos casos da semana, mas que no final das contas conseguiu nos apresentar uma trama muito mais complexa e maior do que tudo o que acompanhamos durante a primeira temporada e que para a surpresa de todos, mesmo com a série tendo deixado bastante de lado a sua alma procedural de ser, esses casos todos voltaram perto do final para nos perseguir e ajudar a esclarecer as coisas (de forma super coerente, o que foi ainda melhor). Isso sem contar os personagens, que sempre foram ótimos.

E algo muito parecido acabou acontecendo com Hannibal, apesar dessa se comportar muito mais assumidamente como uma série procedural do que qualquer outra coisa. Desde o seu piloto, já era possível perceber que estávamos lidando com um outro tipo de série do gênero, que conseguia fazer muito bem a junção entre o seu lado policial, com casos da semana cada vez mais elaborados, caprichadíssimos e com uma estética lindíssima, do tipo que já consegue te convencer apenas por esse diferencial, assim como o seu lado mais complexo e profundo de personagens que já eram conhecidos de uma maioria, nos apresentando de uma outra forma a personalidade e peculiaridades de cada um deles.

Além disso, a série já chegava com uma assinatura bacana, com o antigo dono de Pushing Daisies, outra referência visual sensacional, o senhor Bryan Fuller, que aproveitou todo o seu estilo super particular (algo próximo de um Wes Anderson) para nos entregar mais um trabalho esteticamente maravilhoso e que a essa altura já consegue imprimir toda a sua identidade esquisitona e ao mesmo tempo linda de se ver.

Do piloto até alguns episódios seguintes, é possível perceber que Will é o grande destaque da série, com sua inteligência e empatia predominando boa parte dos primeiros episódios, nos assombrando com seus pesadelos e refazendo os passos de trás para a frente dos casos da semana que mais parecem obras de arte de tão bem cuidados e muito bem executados que eles sempre são. E novamente é preciso dizer que o ator Hugh Dancy esteve maravilhosamente bem nesse papel, nos transmitindo todo o desconforto de carregar uma mente como aquela, capaz de fazer com que o personagem pense exatamente como os assassinos que ele precisa investigar. Em meio a inúmeros pesadelos que não são do tipo que te deixam assustado da forma mais fácil possível de se conseguir esse feito e ou em mergulhos profundos em sua mente completamente perturbada, ganhamos uma nova e excelente introdução ao personagem, que consegue nos convencer logo de cara que é um dos melhores personagens da TV atual.

Com isso, cheguei até a dizer que o personagem do Hannibal acabou sendo prejudicado de certa forma, pelo menos durante o começo da temporada, onde pouco ou nada havíamos visto do personagem em ação mesmo, colocando em prática sua patologia e na verdade, apenas havíamos começado a vê-lo como um grande manipulador em seu consultório muito bem decorado (lindíssimo por sinal) e ganhando de presente uma presa fácil como o Will para ser manipulada a seu favor. Isso até que começamos a ver o Hannibal Lecter em ação, que foi quando o personagem realmente acabou recuperando a sua força, encontrando o equilíbrio perfeito entre os dois lados dessa história e que era exatamente o que ainda estava faltando para que Hannibal pudesse ser declarada como uma das melhores novas séries do momento.

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Aos poucos fomos encontrando o personagem colocando em prática o seu lado negro, ou melhor, o seu lado sanguinário da força, com ele não medindo esforços para retirar do seu caminho qualquer um que conseguisse descobrir quem ele realmente era. E isso até que demorou bastante para acontecer, o que talvez tenha sido o grande erro da série durante essa Season 1, com o personagem sendo pintado a princípio apenas como um grande chef de cozinha, fazendo a sua audiência ficar com o estômago embrulhado só de ver a mesa posta para o jantar em sua casa. Pobres visitas, achando que comeram algo muito sofisticado… (e na verdade, todas as suas receitas são sim muito sofisticadas. Já os ingredientes… EW!)

E a medida em que o Will foi se aprofundando cada vez mais nesse universo de assassinos pavorosos, ganhamos o personagem se perdendo dentro dele mesmo, confuso, quase como se estivesse perdendo a sua própria identidade (que também já é bem exótica) de tanto que ele acaba absorvendo de cada um daqueles que ele investiga. Ainda mais ganhando o “auxílio” do Dr Lecter, que desde sempre enxergou no Will alguém com potencial para ser algo mais ou quem sabe até bem próximo de quem ele é. Pena esse “algo mais” ser algo nada positivo, rs. E é possível perceber que desde sempre, o Hannibal se identificou e muito com Will, exatamente por conseguir entender a mente confusa do seu paciente, além da empatia que ele acaba exercendo para o lado do mesmo também.

Apesar dos personagens famosos e já queridos de uma grande maioria e um elenco muito bem escolhido (o Dr Lecter por exemplo me dá até calafrios), Hannibal não seria metade do que é se não fosse pelo cuidado da série com a sua produção, que realmente impressiona por conta do estilo e do bom gosto sombrio que encontramos em cada um dos episódios dessa primeira temporada. Todos eles te convidam para um pesadelo que você não acharia tão ruim assim de se repetir, com cenas de crimes que chegam a impressionar por tamanha beleza e bom gosto, apesar do tema não ser dos mais convidativos ou comuns de se encontrar qualquer tipo de beleza. (para ser justo, vamos combinar que de certa forma, Dexter também já fez algo parecido – em uma escala bem menor inclusive na questão do estilo, claro – no passado)

Um estilo muito bem definido e que acaba sendo o grande diferencial de Hannibal para qualquer outra série policial do gênero, que certamente não conseguem chegar nem perto do estranho bom gosto que encontramos em todos os episódios da nova série da NBC (canal que se arriscou e muito bem nesse que não é o seu forte. Clap Clap Clap!). E esse tipo de cuidado não fica restrito apenas as cenas de crime dentro da série não e é possível perceber que tudo dentro daquele cenário foi muito bem pensado, desde os jantares para deixar qualquer um em Downton Abbey com inveja do serviço fornecido pelo próprio Lecter, até os figurinos do próprio, que tem aquele pé no cafonismo, mas que apesar dos excessos de materiais, texturas e tecidos, acabam passando como sóbrios e muito bem escolhidos, transformando a nova série em uma espécie de Pushing Daisies do mal, como se o sonho “estourado” e colorido que encontramos na série anterior do seu criador, agora tivesse se tornado um grande e lindo pesadelo.

Mas nenhuma série sobrevive apenas de referências visuais e ou bons personagens se não tiver uma boa história para contar e isso Hannibal também conseguiu nos demonstrar facilmente durante a sua Season 1. Além da complexidade da mente de ambos os protagonistas, tivemos excelentes plots de suspense em torno dos casos da semana, que também acabaram se tornando um atrativo a parte para a série, que sobrevive muito bem dentro desse universo também já tão batido das séries policiais que estamos acostumados a encontrar por aí a todo momento.

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Mas é inegável que a força da série está realmente concentrada entre o Will e o Hannibal, que fizeram uma excelente dobradinha ao longo da temporada. Só fica um pouco difícil entender como é que uma mente tão brilhante quanto a do Will, consegue permanecer tão clueless em relação ao seu psiquiatra (tá, ele já chegou a desconfiar de alguma coisa, mas sempre volta atrás por algum motivo, vai?), embora o personagem tenha ganhado seus momentos de desconfiança e tenha conseguido chegar a um passo da verdade sobre o seu médico. Mas nessa hora, acho que vale levar em consideração o lado profissional de Lecter, que deve conseguir brincar com a mente de qualquer um com certa facilidade.

E é preciso reconhecer também que ambos os atores estão excelentes dentro de cada um dos personagens principais, cada um a sua maneira. Hannibal está assustadoramente convincente, um homem frio, quase sem expressão, com uma dicção perfeita mesmo sem praticamente mexer as boca, com uma postura super elegante em meio a toda sua estranheza e um gosto sombrio para lá de duvidoso. Sério que ninguém acha muito estranho toda aquela frieza da sua sala de jantar? Já o Will do Hugh Dancy consegue ser exatamente o oposto, simples, como uma fragilidade enorme (AMO ele cuidando dos 367 cachorros abandonados que ele encontra) que acaba refletindo na sua personalidade mais reclusa, com sérias dificuldades para se relacionar com outras pessoas em todas as áreas, um personagem com quem qualquer um consegue sentir também uma forte empatia. Ou você vai me dizer que não ficou com o coração partido ao ver o Will sendo preso e já se encontrando em um estágio avançado de delírio?

Em meio a todos esses elementos que acabam complementando Hannibal e a diferenciando facilmente de qualquer outra série policial, encontramos uma nova opção excelente para a nossa agenda televisiva. O bacana também da série é que ela consegue ser muito bem resolvida, com os casos da semana tendo começo meio e fim, sem se tornar entediantes e mantendo de vez em quando alguns deles como assunto recorrente para o plot maior da temporada, fazendo perfeitamente a junção entre essas duas áreas da proposta da série. E com uma obra já tão conhecida e tendo um representante de peso no cinema, é de se espantar que Hannibal tenha conseguido se destacar de forma tão positiva, tanto pela nova introdução aos personagens que já conhecemos, quanto pelo novo olhar emprestado do Bryan Fuller, que realmente foi o que mais colaborou para que a série realmente nos chamasse a atenção e se destacasse completamente das demais do gênero, inclusive da sua versão cinematográfica.

Agora só nos resta esperar pela já confirmada Season 2 e torcer para que o seu criador consiga realizar o sonho (que na verdade foi quase que uma promessa) de ter o David Bowie como o tio do Lecter na nova temporada da série. Eu já estou na torcida faz tempo. #TEAMFULLERBOWIE

ps: recomendo que a série nunca seja assistida perto ou durante o jantar. O mesmo vale para tarde da noite, o que pode levá-los a confundir essa excelente trama com um pesadelo que de tão lindo e apesar de sombrio, a gente não se importaria de repetir, rs

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2 Respostas to “Hannibal reloaded”

  1. Sandra Says:

    Gostei da review, vou começar a baixar! E tem Hugh Dancy então…🙂

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