Antes da meia noite, ou a qualquer hora do dia ou da vida

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Anos atrás, nos deparamos com esse casal, Jesse e Céline, se encontrando pela primeira vez em um trem (“Before Sunrise”, de 1995) e vivendo uma ótima história de amor que tinha pouco tempo para durar por questões geográficas. Apesar das juras quando o cronometro começou a acusar que já não havia mais tempo para permanecerem juntos em Viena, pelo menos não naquele momento, desconfiamos que aquela poderia ser apenas mais uma história de amor para se lembrar com certa saudade e levar para a vida, mesmo tendo identificado facilmente logo de cara que algo de realmente muito especial havia acontecido entre aqueles dois.

Alguns anos depois, tivemos a chance de ver o reencontro da dupla pela primeira vez desde a promessa (não cumprida) que haviam feito no primeiro filme (“Before Sunset”, de 2004, o meu preferido de todos), ambos vivendo já os seus 30 e poucos anos e tendo muito o que conversar depois de terem ficado tantos anos separados e o pior de tudo isso, sem ter tido a chance de colocar um ponto final naquela história que já havia nos convencido desde o começo. Ele agora havia se tornando o homem que sempre sonhou ser, escritor, pai de um filho, com esposa (e um casamento não muito feliz, apesar disso só ter aparecido como detalhe no filme e não ter sido justificativa para qualquer outra coisa) e vivenciando um momento bastante especial em sua carreira, momento esse que teve como fonte de inspiração justamente aquele primeiro encontro com Céline, quando ainda jovens, lá atrás. Ela por sua vez também já havia se tornado a mulher que gostaria de ser (quando digo isso, penso em uma questão de repertório, valores, fundamento, essas coisas, não que eles já tenham alcançado o ponto mais alto de suas vidas tão cedo assim), apesar de ainda ter algumas pontas soltas em sua vida e estar apenas namorando no momento.

Esse primeiro reencontro acabou acontecendo justamente por conta da história dos dois que acabou virando um livro de sucesso escrito por ele, do qual Céline se sentia responsável de alguma forma (com toda razão), apesar de renegar o sentimento tentando justificar ter se sentido um tanto quanto ofendida e não representada tão fielmente assim na versão da história do Jesse. Assim, ambos tiveram muito o que dizer um para o outro até o pôr-do-sol, além da inevitável questão que ainda pairava na mente de ambos mesmo anos depois, sobre o que teria acontecido se eles tivessem mantido a promessa que foi feita ao final do primeiro longa ou se pelo menos algum deles havia cumprido com o prometido, quando ainda bem jovens.

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Pessoalmente, eu acho “Before Sunrise” uma obra prima. Sempre achei. Gosto da história, dos personagens, da forma como consigo me identificar facilmente com ambos e principalmente, da forma como eles conseguiram me convencer que foram feitos um para o outro em um caminhar por Paris, sem muito contato físico (tá, vamos dizer que esse reencontro ter acontecido na Shakespeare And Company, contou alguns pontos a favor), sem beijo e apenas uma enorme vontade (AMO ela morrendo de vontade de tocar o cabelo dele dentro do carro, próximo ao final do filme, por exemplo). Naquela cena final, com Céline fazendo uma performance à la Nina Simone e o Jesse atrasado para o voo que o levaria de volta para sua família nos USA, mesmo sem ter tido exatamente uma conclusão, além da ideia que ficou no ar e o 1/2 sorriso claro e evidente do Ethan Hawke (maravileeeandro desde o primeiro filme) durante a cena, na minha cabeça, estava mais do que claro que ele jamais teria pego aquele voo de volta. Jamais! Quando gosto demais de uma história ou personagem, gosto também de criar a minha própria versão para eles, mesmo quando suas obras já se encontram encerradas e por isso, sempre assumi para mim mesmo que Jesse e Céline estavam juntos, em algum lugar do mundo, vivendo extramente felizes (daquele jeito bem real, claro). Isso mesmo antes de saber e ou imaginar que o filme ganharia uma continuação. E a propósito, apesar de ter os meus momentos bem Jesse, não preciso nem dizer que eu sou exatamente como a Céline, preciso? (para você que está pensando em “não”, achei mesmo que não fosse necessário, rs)

Pois bem, anos depois novamente, ganhamos uma espécie de conclusão (para essa que é sem dúvida uma das minhas histórias de amor preferidas do cinema) com “Before Midnight”, encerrando a trilogia do diretor Richard Linklater. E lá estavam eles, Jesse e Céline, juntos (confirmou!), anos depois, em uma viagem de férias pela Grécia antiga com as filhas gêmeas e a continuação dessa história de amor que a essa altura já havia ganhado um peso completamente diferente a partir dos anos de convivência do casal e da bagagem que ambos acabaram trazendo inevitavelmente para a relação. (desconfiem de quem não carrega nenhum tipo de bagagem. Apenas, desconfiem…)

Apesar de reencontrarmos com ambos aparentemente vivendo felizes juntos, percebemos logo de cara que haviam alguns problemas a serem resolvidos e ou um certo nível de culpa no ar que jamais poderia ter sido evitado e isso por conta da não volta do Jesse para a sua família com esposa e filho nos USA (não disse?). Nesse momento, percebemos que Jesse se sentia culpado pela escolha que acabou fazendo, mesmo que ela tenha sido a escolha mais certeira de sua vida, justamente por ter de certa forma, escolhido ser feliz ao lado da mulher que ele realmente mais amou por toda a vida, construindo inclusive uma nova família, do que continuar vivendo ao lado da mãe do seu filho e consequentemente do próprio, que como nos foi ilustrado no filme, tratava-se de uma mulher que ainda não havia superado essa barra, algo totalmente compreensível, diga-se de passagem. Apesar de todo esse peso em sua consciência, sua relação com o filho parecia ser excelente, algo que não tivemos a chance de observar e apenas ouvimos sobre, assim como aceitação do menino hoje já adolescente em relação a Céline, aceitação que é possível considerar a mais natural possível, porque podemos dizer que é praticamente humanamente impossível não acabar completamente apaixonado pela personagem da atriz Julie Delpy. (com quem obviamente eu também me identifico e muito)

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E essa culpa toda Jesse de certa forma acaba dividindo com a Céline, que querendo ou não, se sentia parte da questão, principalmente por ter permanecido com o amor da sua vida em Paris e ter construído a vida de ambos por lá, dificultando assim o seu convívio com o filho (algo que mais tarde, acabou sendo ainda mais dificultado pela própria mãe do garoto como forma de vingança). Para ela, sobraram as típicas e honestas reclamações de uma mulher, mãe de gêmeas e que além de tudo, como quase todas as outras mulheres modernas, tentava se dedicar ao trabalho e  quando a sua carreira carreira acabou se estabelecendo em um outro patamar, novas questões acabaram surgindo na vida desse casal, que mais uma vez vivia uma espécie de ameaça por questões geográficas. Nessa hora e com total razão, apesar de entendermos completamente o lado dele, Céline acabou se sentindo completamente negligenciada pelo marido, que ela havia apoiado em sua carreira por todos esses anos, mas que naquele momento não retribuía tamanha dedicação ou comprometimento em relação a ela. (na verdade, ele acabou se vendo completamente dividido, e isso ficou bem claro e também foi altamente compreensível, assim como o discurso dela em relação a ele não ter acompanhado algumas etapas da vida do filho e isso já não ter mais volta)

A partir desses conflitos todos e com a Grécia como plano de fundo (cenário perfeito para uma tragédia grega), ganhamos mais alguns diálogos inesquecíveis desses dois, com ambos compartilhando um pouco mais de tudo novamente, desde algumas memórias lindas, como quando ela diz se lembrar com saudade do tempo em que a barba dele ainda era ruiva e o quão branca ela já estava ficando a essa altura (sério, meu coração quase explodiu em milhares de outros corações nesse momento = ♥ #PLIM), até uma série de referências aos dois filmes anteriores, como ambos observando o pôr-do-sol, por exemplo. Todas absolutamente especiais e comoventes para quem for mais apegado a detalhes. E é preciso evidenciar o quanto ambos atores parecem conhecer aqueles personagens, nos deixando com a sensação de que o filme é mais uma conversa solta entre ambos do que uma obra dirigida e com roteiro. (algo que a partir do segundo filme, ambos passaram a fazer parte também de tamanho envolvimento e carinho com o projeto)

Durante o longa, além de tudo isso, ainda ganhamos alguns parâmetros bem inteligentes em relação a história do casal, como quando eles se deparam com uma versão mais jovem de uma história de amor também separada geograficamente, percebendo que hoje em dia, com todos os recursos que quase todo mundo tem acesso, eles só não teriam mantido contato se realmente não quisessem e não teria sido necessário esperar até o reencontro de ambos, anos depois em Paris. Na companhia de outros personagens (diferente dos demais filmes), Jesse e Céline compartilham o seu melhor e vivenciam outras histórias de amor também, que acabam funcionando como pequenos contos dentro da própria história deles, algo que acabou contribuindo ainda mais para que o filme se tornasse algo tão especial. Aquela história da mulher que já havia perdido o marido então, foi de desabar qualquer um em lágrimas.

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Mas o forte desse terceiro filme realmente foi a grande discussão que quase acabou encerrando de vez essa linda história de amor (claro que precisaria de muito mais para uma decisão tão séria, mas ainda assim poderia ser o começo do fim), com ambos despejando algumas verdades na cara um do outro e aproveitando o momento para dividir a parcela de culpa que sentiam por conta dessa relação tão forte. Nesse momento, além de excelentes argumentos e um diálogo certeiro e afinadíssimo como sempre, é praticamente impossível não acabar se relacionando de alguma forma com o problema em questão e a história de amor dos dois. Sabe quando apesar de parecer um pensamento cruel, você chega a conclusão de que realmente foi necessário sacrificar algumas coisas da sua vida para conseguir viver outras, ou quando você acaba se dando conta de onde a sua relação pode acabar parando se um dos dois disser a coisa errada na hora errada? Então, mais ou menos isso ou pior, rs.

Confesso que essa foi a minha estreia mais aguardada para esse ano. Na época, não foi nada fácil conseguir assistir o filme, que estava disponível apenas em algumas salas da cidade de São Paulo e em horários nada convidativos. Acabei assistindo o longa em uma tarde, em um dia que se tornaria bastante especial para a minha vida profissional (não estou dizendo que eu sou a Céline?), e foi ótimo ter esse ponto em comum com a personagem de Delpy naquele momento. Além disso, por se tratar de uma sessão a tarde, imaginei que a mesma pudesse estar vazia, mas para a minha total surpresa, acabei me deparando com diversas senhoras, alguns jovens casais e pessoas de meia idade durante a sua exibição. Por me sentir extremamente próximo dos personagens e realmente AMAR toda essa história, acabei me vendo entregue as lágrimas por diversas vezes, do começo ao fim, algo que acabei compartilhando com uma senhora que estava sentada ao meu lado e me ofereceu um lenço. Uma foufa! Nos tornamos amigos obviamente (e ela decepcionadíssima porque eu não estou no Facebook, é claro) e no final da sessão, em uma conversa animada sobre o longa e seus dois antecessores, acabamos reunindo mais algumas colegas em um bate papo solto no café do cinema que acabou durando algumas horas e me fez me sentir um pouquinho como no clube do livro da Oprah. Desculpa, mas precisava dividir esse momento com vocês. Enfim…

Concluindo por enquanto essa história de amor fora do comum (do tipo que a gente adoraria viver um dia), ganhamos uma ótima leitura do próprio Jesse encontrando Céline de cara amarrada sentada a beira mar (quando ela não volta mais depois de bater a porta por diversas vezes durante aquela grande discussão é de dar um nó na garganta daqueles), ele que nesse momento falava por ele mesmo, só que eu uma versão do futuro, em um momento de extrema doçura. Um final extremamente simples e muito bem humorado, que nos transportou imediatamente para a realidade e o sentimento daquele casal e nada mais natural que antes da meia noite eles acabassem resolvendo todas as suas pendências momentâneas, lembrando o mais importante, que foi o que os manteve unidos desde então, mesmo durante todos os anos que permaneceram separados, até aquele inspirador reencontro em Paris do qual eles nunca mais conseguiram se separar.

Uma história de amor para se levar para a vida em três partes pra lá de especiais. Quem sabe eles não fazem um quarta parte dela daqui trinta anos? (eu adoraria ver essa versão senior, já sendo um senior também, hein?)

Para assistir até nunca cansar.

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5 Respostas to “Antes da meia noite, ou a qualquer hora do dia ou da vida”

  1. Jac Says:

    Nossa amei seu texto! Tô quase chorando rsrsrsrs
    Achei esse filme o mais “realista” e triste.
    Tenho 40 anos e tive a sorte de assistir aos outros filmes com a idade próxima a dos personagens e, guardada as devidas proporções, vivenciar na mesma época coisas parecidas.
    Li na época do segundo filme que eles (Julie, Ethan e Linklater) teriam a intenção de fazer mais filmes, acompanhando Jesse e Celine até eles ficarem velhinhos, mas não sei se isso é verdade.
    Amo esses filmes, adoro seu blog, por favor não o abandone!!rsrs
    Obrigada pelo texto.
    bj

    • Essy Says:

      THNKS! AMO quando os textos funcionam. Sempre acho eles todos meio assim, mas esse foi especial mesmo. (♥)
      Realmente, dos 3, esse foi o mais realista. Muito provavelmente pelo tempo que pela primeira vez agora, ambos passaram juntos.
      Acompanhar algo tão bom assim de forma bem próxima, com experiências parecidas e ou com a mesma idade, deve mesmo ter sido bem especial.
      Seria lindo se essa história não tivesse um final tão cedo assim. Reencontrar com esses dois a cada, sei lá, 10 anos, não seria sacrifício nenhum.

      E pode deixar, não abandonarei ninguém! rs
      Smacks

  2. Maay Says:

    3 pulinhos de alegria e agradecimento por essa review (Clap, Clap, Clap, Essy!)

    Essa trilogia, Blue valentine e Closer, estão na minha lista de . melhores filmes sobre gênero. Acho que Candy também, mesmo a temática sendo diferente.
    Enfim, o meu favorito é Before Sunrise. Aquela cena da Céline chamando Jesse para um brincadeira no bar com um telefone, que no fim foi pra confessar umas verdades, foi umas das mais lindas que já vi. Acho que se compara com os 5 minutos iniciais de Closer ao som de The Blowers Daughter, que me fez chorar litros. O beijo de despedida foi de tirar o fôlego.
    Já em Before Sunset, meu coração ficou apertado no minuto que vi a aliança. Eu era: ‘quando eles vão falar sobre isso’; Daí fiquei melhor quando ela falou que tinha visto em um artigo que ele era casado e tinha um filho. Mas na hora que ela fala que ele era um babaca por está em Paris, todo romântico e casado, aiiiiin.
    Por fim Before Midnight (na Grécia, covardia) me fez sentir o mesmo que senti em Blue Valentine.
    Simples, Honesto e Genial.

    Ps: Pode ser louco, mas quando vi Jessica Chastain pela primeira vez em Árvore da vida, me lembrei muiiito da Julie Delpy quando tinha uns 23 anos, sério.

    Ps²: Obrigada❤

    • Essy Says:

      Clap Clap Clap!

      E confirmou! Quando li seu comentário, tinha acabado de relacionar, comentar e recomendar “Closer” para a minha assistente. Todos esses também estão na minha lista, gosto dessa sinceridade, dessa realidade que todos eles trazem.
      AMO a cena do telefone. AMO! E AMO mais ainda como ambos estavam dispostos a se expor daquela forma e na mesma intensidade. Quando assisti “Closer” no cinema, fui a tarde, sem saber muito sobre o filme e me lembro exatamente da tipografia do filme entrando com os primeiros acordes de “The Blowers Daughter”, que me fez chorar na mesma hora, antes de ter visto qualquer coisa do filme. Lindo, lindo, lindo!

      Eu bem besta fiquei tão comovido com “Before Sunset”, com o reencontro, que nem imaginei a possibilidade das coisas estarem mais complicadas para eles. E naquele final, tive certeza que ele jamais teria voltado. Certeza!

      “Before Midnight” foi uma delícia e exatamente por isso mesmo: simples, honesto e genial. Poderia ficar observando aquele casal argumentar por muito mais tempo e seria o tipo de briga que não me levaria a uma dor de cabeça. E não por aquela não ser a minha briga, que fique bem claro, rs

      ps: agora que vc disse, passei a relacionar a Chastain com a Deply
      ps2: de nada. (♥)

  3. The Modern Guilt Awards 2013, o quinto ano do melhor prêmio de todos os prêmios | The Modern Guilt Says:

    […] que é uma das minhas histórias de amor preferidas no cinema. O filme além de muito especial por tudo que já comentamos por aqui, aconteceu para mim em um momento também muito especial, que eu achei lindo que assim ficasse […]

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