O dia em que fomos ao cinema especialmente para encontrar o Doutor

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Que dia lindo para se comemorar, não? Primeiro de tudo, temos que começar reconhecendo a sua marca: qual outra série que você conhece que chegou aos 50 anos de idade? Então, só por esse motivo, o especial de 50 anos de Doctor Who por si só já merecia todo e qualquer respeito. Segundo que pessoalmente, eu AMO novas experiências e acompanhar uma especial como esse, nessas proporções e no cinema, com exibição simultânea em diversos países no mundo, certamente foi mais uma delas. Uma experiência para se lembrar com carinho, porque ela foi realmente muito, mas muito especial. Agora entendo (entendo, só não sei se respeito, rs #PROVOCANDO) todo e qualquer fandom apaixonado que dorme na fila para assistir a estreia de uma franquia hype qualquer.

Fiquei realmente emocionado quando cheguei na sessão de cinema, super em cima da hora como sempre e me deparei com um sala completamente cheia, abarrotada de verdade. Me arrependi amargamente de não ter comprado minha sonic screwdriver quando tive a chance, porque no escuro da sala do cinema, seria o momento perfeito para eu sacá-la do bolso e fazer um performance convencendo a todos que eu também sou um Doutor (uma praga para quem ousar em pensar que eu seria o 24th). Mas tudo bem, naquele momento entendi e aceitei que o meu papel era o de uma companion (rs) e não o principal. E essa emoção já havia começado dias antes, quando apenas algumas míseras salas de cinema no Brasil haviam incluído a exibição do especial da série inglesa e isso em pouquíssimas cidades. Mas não demorou muito para todos se mobilizarem (isso sem contar a procura, que deve ter sido bem grande) e em pouco tempo, diversas outras salas foram abertas para o especial, em muitas outras cidades, inclusive em horários diferentes, esses já fora da experiência live, mas ainda assim, uma chance para encontrar com o nosso Doutor no cinema, gigantesco e em 12D. (quer dizer, 3D, porque segundo o próprio, em 12D só no especial de 100 anos da série)

Mas essa experiência também trazia um problema: dividir o tempo e espaço com outras pessoas, tanto ou mais animadas do que você em relação a qualquer coisa em comum. Geralmente, pessoas barulhentas e ou muito participativas no cinema sempre me incomodam. E não demorou muito para que o volume daquela sala começasse a subir, quando ganhamos uma participação mais do que especial do Strax fazendo suas recomendações em relação ao comportamento em uma sala de cinema. Divertidíssimo por sinal. Mas isso não foi nada comparado ao que aconteceu quando a tela finalmente ficou completamente branca e o meu Doutor (sorry, continuo possessivo) surgiu em close, para dar suas recomendações em relação a experiência em 3D do especial. Sério, nesse momento, um gritinho fino de menina (e por menina, eu quero dizer também os meninos presentes na sala, apontando dedos para mim mesmo inclusive) tomou conta do local, que foi quando eu finalmente consegui entender que naquele momento, o meu Doutor havia se tornado o Doutor de todos eles também.

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Matt Smith e seu carisma inegável, um Doutor infantil (como bem ressaltou John Hurt em uma de suas lines), cool, que sabe carregar muito bem a ironia e o humor de um personagem tão especial. Mas se eu achava que seria difícil compartilhar o meu Doutor com o resto das pessoas naquela sala, tudo ficou ainda pior e muito mais barulhento quando de repente, o 11th Doutor se transformou no 10th, David Tennant, também ainda no fundo branco, e com os gritos ensurdecedores (mais altos do que o primeiro, mesmo porque, a nossa saudade e ansiedade por esse momento era muito maior) de uma sala visivelmente comovida (olhava para trás toda hora só para dar uma conferida nas reações e a essa altura, já queria ser amigo de todo mundo) e uma dobradinha cômica excelente com o atual responsável pelo personagem a quem ele também já deu vida (as piadas sobre o queixo do Matt ou o efeito do tempo nas rugas do Tennant foram divertidíssimas), foi quase que instantânea a percepção de que não só eu, mas todas as pessoas naquela sala estavam realmente diante de algo muito, mas muito especial. Nesse momento, finalmente consegui deixar toda a minha possessividade de lado e aceitei dividir algo tão especial com os demais presentes, barulhentos ou não.

A partir disso, ganhamos um especial que realmente não poderia ter ganhado uma outra nomenclatura, a não ser “especialíssimo”. Com uma história que permeava a queda de Gallifrey, com a aparição da UNIT entre diversas referências à série e personagens antigos, ganhamos um episódio realmente especial do começo ao fim, mesmo sem saber muito bem o quanto isso ainda poderia ser superado durante a sua duração. Ainda falando da audiência com quem dividi a experiência, cada referência, cada piada, cada aparição era motivo de algum tipo de comoção e detalhe: todas eram absolutamente pertinentes e compreensíveis. Todos pareciam estar realmente conectados com aquele mitologia e ao mesmo tempo que me senti assustado ao encontrar fisicamente pela primeira vez pessoas que dividiam o mesmo tipo de gosto em comum nesse caso, me senti completamente orgulhoso de dividir o meu tempo e espaço naquele momento tão especial com cada um deles (eu sei que parece meio cafona dizer isso, mas é verdade e levem em consideração a emoção enquanto escrevia esse post, apesar dele ter demorado quase que um m~es para sair. E me perdoem, claro, rs), tanto que desse momento em diante, nenhum barulho excessivo ou qualquer tipo de manifestação chegou a me incomodar mais. De verdade.

Obviamente que todos estavam esperando as prometidas e divulgadas participações. Rose Tyler voltou, mas em The Day Of The Doctor, ela representava o “Momento”, que apenas havia tomado a forma de alguém que é de conhecimento de todos que foi verdadeiramente especial para o nosso Doutor. Clara também estava ali, essa sim representando o papel de companion da vez, a garota impossível que conheceu todos os Doutores (segure essa inveja meu caro leitor, porque ela teve sim essa sorte) e esteve com todos eles. Todos exceto um deles, aquele que nos foi introduzido em um nível alto de suspense durante o encerramento da dolorosa Season 7 (dolorosa por motivo de “despedida dos Ponds” em sua primeira metade, glupt!), interpretado pelo excelente ator John Hurt.

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Quando introduzido pela primeira vez, não tivemos exatamente muita chance de perceber a que veio, tão pouco como iria se comportar diante da difícil tarefa de encarar uma encarnação desconhecida de um personagem tão querido e que logo de cara, havia sido descrito como a mais sombria delas e isso justamente no dia em que o Doutor encontrou o seu túmulo, ou seja, mais dramático que isso seria bem difícil. Mas com pouco tempo em tela, ainda misteriosamente e dividindo o espaço com aquela que também atende por “Bad Wolf” (sim, a Rose) em sua “nova versão”, foi possível perceber que aquela não era uma encarnação do mal do personagem e tratava-se apenas do homem que teve que encarar o maior dos desafios de sua vida, aquele que foi responsável pela extinção de Gallifrey, seu planeta de origem. A essa altura, todos nós já sabemos que na mitologia de Doctor Who, o maior arrependimento ou culpa do personagem foi ter que extinguir sua própria espécie em nome de um bem maior e para o especial de 50 anos da série, encontramos o mesmo enfrentando exatamente o dilema desse dia que até o mais esquecido de todos os doutores (que é o 11th, como eles bem lembraram), gostaria de conseguir esquecer.

Uma história corajosa e muito bem resolvida, apesar das linhas temporais diversas (mas nada do tipo super complicado, sabe), que soube brincar com a maior mitologia da série de uma forma bem bacana, apesar de ter de certa forma “reescrito” a sua história. Mas sendo bem sincero, essa não é a primeira vez que Doctor Who resolve mexer no intocável portanto, não podemos nem dizer que ficamos tão surpresos assim. Em um outro momento da série, na despedida do Tennant, eles bem tentaram trazer Gallifrey de volta, de outra forma, mas tentaram. Na época, cheguei inclusive a torcer o nariz para a ideia (digo, na época da minha own maratona da série), principalmente para a justificativa (e entendam que a minha reclamação em relação ao episódio de despedida do 10th Doutor foi apenas essa, porque todo o resto e principalmente aquela sequência final, foi absolutamente perfeito). Mas dessa vez, a justificativa para mexer com algo tão importante foi muito bem executada, amparada na tentativa de tirar o maior peso das costas do próprio Doutor e vendo um personagem tão adorável ganhando a chance de ter a sua redenção dessa forma, além de aceitável, foi muito bem vindo.

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Mas muito além de uma boa história, todo mundo estava querendo mesmo era ver o encontro dessas duas gerações mais recentes de doutores, lamentando é claro a ausência do Eccleston, o 9th Doctor, que não aceitou participar do especial. E a sincronia (em todos os sentidos) dos dois atores em cenas quando juntos foi absurda, uma química inegável. Piadinhas irresistíveis em relação as características físicas de cada um deles, incluindo comparações além do próprio físico, como quando ambos enfrentaram as diferenças de tamanho de suas “screwdrivers”, além do reconhecimento de suas semelhanças, que foi de uma doçura sem tamanho. Com os dois em cena, foi uma delícia poder perceber as sutilezas, os trejeitos e as características mais marcantes de cada um, evidenciando o quanto a identidade do Doutor depende e muito de quem o interpreta e apesar dessas características próprias de cada um dos atores, foi possível observar também o quanto o personagem é muito maior do que tudo isso, mesmo porque se não fosse assim, ele não teria se transformado em um cinquentão de sucesso. (mundialmente falando, essa talvez seja a melhor fase da série inglesa).

E como se não bastassem dois doutores reunidos, ganhamos um terceiro, com o John Hurt nos convencendo facilmente que ele também fazia parte desse grupo de figuras adoradas por todos, mesmo ainda sendo um doutor desconhecido. Tudo bem que a introdução da sua história nos ajudou e muito a mudar a impressão que ganhamos com o misterioso final da última temporada da série, mas ainda assim, um personagem com esse peso, precisava realmente de um ator a sua altura. Com os três em cena, o especial conseguiu ficar ainda melhor, principalmente em termos de alívio cômico, trazendo o humor senior para o personagem.

Como ponto negativo, preciso dizer que mesmo reconhecendo que esse não era o momento delas, Clara e Rose ficaram em segundo plano demais, a ponto de quase sumirem. E digo isso principalmente em relação a Clara, que não teve a sua presença no especial tão justificada assim (digo algo além do fato dela ser a companion da vez), mas entendemos que esse era o momento de evidenciar o Doutor e não suas companions, por isso perdoamos. O mesmo vale para os personagens secundários do episódio, como a filha do Brigadeiro Lethbridge-Stewart, ou a garota nerd do cachecol do 4th Doctor, uma lembrança que a gente não fazia a menor ideia que poderia ir além do icônico acessório.

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Muito além da própria excelente história do especial, do encontro de doutores ou de qualquer outra característica desse marco da série, tudo ficou ainda mais especial quando após a resolução do plot central do episódio, ganhamos uma série de momentos absolutamente especiais para o encerramento dessa data comemorativa, começando pelo momento em que o 10th Doctor acabou repetindo a sua inesquecível line pré regeneração, “i don’t wanna go”, que para sempre nos levará para uma triste e adorável memória da mitologia da série. Isso até chegarmos ao momento em que o nosso adorável 11th Doctor acabou nos revelando o seu sonho de talvez se aposentar um dia e viver como um curador, que foi quando eles nos reservaram uma das grandes surpresas desse especial (essa e o momento com a participação apenas dos olhos do 12th e novo Doctor foram os momentos mais barulhentos do especial, sem dúvida e os mais surpreendentes também), com o Tom Baker (o 4th Doctor, um dos mais queridos de todos os tempos e dono do icônico cachecol que já havia aparecido no próprio especial) fazendo uma pequena e adoravelmente adorável participação, dividindo momentos de uma doçura sem tamanho com o nosso atual doutor, além de tê-lo deixado com alguma esperança de talvez poder viver um dia como um homem comum.

E se a gente achava que já havia encontrando momentos especiais e ou emoções o suficiente para essa história comemoração dos 50 anos da série, ainda fomos surpreendidos com uma imagem final para ficar guardada nos dois corações de qualquer whovian, com todos os doutores enfileirados e olhando de longe para Gallifrey, algo que todos os fãs da série não vão conseguir esquecer jamais e que foi o suficiente para levar a plateia da minha sessão a loucura, em um volume do tipo copa do mundo. Sério

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Dessa forma e vivendo uma experiência que poderia se tornar um hábito para momentos televisivos tão especiais como esse, nos despedimos desse encontro no cinema com o Doutor completamente satisfeitos e com aquela lágrima de carinho ainda escorrendo no cantinho do olho, mesmo com muito homem barbado tentando esconder a emoção no banheiro do cinema logo na sequência. Agora falando bem sério, quero o contato de todas aquelas pessoas que estavam na sala de cinema comigo. Seria possível? (rs, mas sério, vamos assistir todos os episódios juntos a partir de agora? #CRAZYEYES)

O difícil agora mesmo é só aceitar que para o próximo episódio, teremos que encarar uma triste despedida, para a qual eu já confessei inúmeras vezes ainda não estar preparado… Alôr, é da Kleenex? Se eu comprar um caminhão de caixas de lenços, tem desconto?

#TheDayOfTheDoctor

ps: bem que eles poderiam fazer o mesmo com o episódio de natal, que será a despedida do Matt Smith como o 11th Doutor e que pelo menos teremos sua exibição simultânea com a terra da rainha pelo BBC HD daqui. Alguém segura a minha mão quando essa hora chegar? Porque não vai ser fácil… mas não vai mesmo…

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2 Respostas to “O dia em que fomos ao cinema especialmente para encontrar o Doutor”

  1. The Modern Guilt Awards 2013, o quinto ano do melhor prêmio de todos os prêmios | The Modern Guilt Says:

    […] Porque uma série comemorar 50 anos realmente não é para qualquer uma e a experiência de ter dividido uma data tão especial no cinema, em 3D e em real time com a terra da rainha, foi algo realmente muito especial. […]

  2. The Time Of The Doctor – a inevitável hora da despedida do nosso 11th Doctor | The Modern Guilt Says:

    […] deixaria o personagem logo após o especial de 50 anos da série, também comemorado recentemente (e lindamente) e isso aconteceria exatamente no já tradicional especial de […]

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