Posts Tagged ‘Emmanuelle Riva’

A lista bem boa e equilibrada dos vencedores do Oscar 2013

Fevereiro 25, 2013

2013-02-25t014212z_

Sim, ontem ficamos acordados até tarde (smacks especiais para todos do Twitter), vestindo os nossos melhores PJ’s e tudo isso é claro que para acompanhar o Oscar 2013, uma premiação que chegou confirmando as  expectativas de que em 2013, parece que estamos mesmo retomando os rumos das grandes e memoráveis premiações novamente. Amém!

Primeiro foi o Golden Globes, com a impagável dupla Poehler + Fey que foi tipo a realização do nossa premiação perfeita dos sonhos, elas que estiveram sensacionais durante toda a premiação e nos fizeram nem sentir muito bem o tempo passar naquela noite. Sério, daquele jeito, a premiação poderia ter durado 7 dias e 7 noites, que todos nós resistiríamos bravamente.

Para o Oscar 2013 tivemos o Seth McFarlane como hostess da noite, algo que já me dizia que viria coisa bem boa pela frente (eu AMO e sempre AMEI o Seth, desde quando ele era outro homem e não tinha todo aquele nível de magia bem humorada – mas o bom humor ele sempre teve – Höy! Gosto tanto dele que me lembro muito bem da sua participação como ator em um dos episódios de Gilmore Girls, além de AMAR Family Guy, é claro). O meu medo era que o seu tipo de humor não fosse muito bem compreendido por uma maioria… (o que de fato pode até ter acontecido, mas não em grandes proporções)

Mas nada disso aconteceu e McFarlane esteve unfirah e afiadíssimo também (tanto quanto as meninas no GG) e ele não fez feio, falando de tudo e de todos com aquele tipo de humor mais ácido que ele tem e que mesmo assim conseguiu arrancar boas gargalhadas da platéia ali presente. A primeira piada, já trazendo à tona o assunto da não indicação do Ben Affleck ao prêmio de melhor direção desse ano foi simplesmente sensacional e quase tão debochado quanto o próprio texto de “Argo” em relação a Hollywood e suas façanhas do tipo.

les-miserables-oscars-2013-performance-watch-now-02

Sem contar que esse ano, tivemos uma premiação mais pop, com apresentações de tirar o fôlego e que todos gostariam de ouvir. Adele, Shirley Bassey, Barbra (♥), todas aparecendo divando, maravileeeandras e com vozes arrebatadoras, mas isso não foi quase nada se comparado aos momentos musicais que aconteceram durante a premiação, com  a Catherine Zeta-Jones deitando todas e ainda segurando perfeitamente o seu número em “Chicago” (Renée se ainda tivesse alguma expressão facial, teria demonstrado que ficou abaixo do limbo nessa hora) de forma lindíssima e isso dez anos depois, além de uma Jennifer Hudson demônia, soltando uma voz que mais parecia um tornado passando dentro daquele teatro, deixando todos completamente sem ar (e foi lindíssimo mesmo!) e para encerrar, um dos números mais emocionantes da noite, com cara de musical de verdade, com o elenco de “Les Mis” inteiro reunido e cantando suas músicas e deixando todo mundo que ousou falar de suas performances musicais no longa com a cara literalmente no chão. Juro, tudo foi perfeito, de chorar.

E a cerimônia além de ter sido muito mais bacana do que qualquer outra dos últimos tempos (leia-se qualquer outra cerimônia do Oscar) ainda nos trouxe uma lista bem boa equilibrada com os vencedores do ano (e a grande maioria deles nós AMAMOS!), confirmando quase todas as nossas impressões a respeito dos seus indicados (isso principalmente depois de ter visto parte deles no cinema, pelo menos):

 

Filme

1359136_et_0224_oscar_als-1141

Indomável sonhadora

O lado bom da vida

A hora mais escura

Lincoln

Os miseráveis

As aventuras de Pi

Amor

Django livre

Argo

 

Depois de ter ignorado completamente o Ben Affleck na indicação pelo seu trabalho como diretor esse ano (e ele ter vencido na categoria em quase todos os demais prêmios), eles estavam mesmo devendo esse prêmio para ele. E não só por isso (nem por ter pego por tanto tempo no seu pé, porque em alguns momentos  reconhecemos que Ben fez por merecer), mas porque “Argo” realmente é um filme excelente, do começo ao fim, com uma história contada da forma certa e pelas pessoas certas e já estava na hora de Hollywood superar certas birras, ainda mais quando se depara com um trabalho tão bacana. Sem contar que é um filme que brinca como ninguém com Hollywood, debochando da sua cara, fazendo piada da suas falhas. Realmente um trabalho muito bom, ainda mais considerando esse ano onde tivemos excelentes performances, histórias deliciosas, mas nenhum filme chegou a ser grandioso demais, do tio épico e arrebatador, daqueles que acabam levando tudo sem dar chance para os demais, por isso achei bem justo. E o seu discurso, apesar de esbaforido, foi ótimo, falando inclusive de tudo que ele teve que engolir por tanto tempo #BenAffleckRises

ps: aqui, a nossa review sobre “Argo”

 

Diretor

Michael Haneke, “Amor”

Benh Zeitlin, “Indomável sonhadora”

Ang Lee , “As aventuras de Pi”

Steven Spielberg, “Lincoln”

David O. Russell, “O lado bom da vida”

 

Ang Lee parecia o azarão da lista, mas acabou levando. Apesar de não ter visto o seu filme ainda (e esse sim estar amargamente arrependido de não ter ido ver em 3D), acho um trabalho de imagens sensacional, do tipo que mais parece um sonho. Apesar de tudo, a minha torcida nessa hora era mesmo para o Haneke, que com uma história bem simples, conseguiu emocionar o mundo com o seu “Amour”. Mas nada nesse mundo vai conseguir pagar a cara de Coca Zero do Spielberg ao perceber que o seu épico da vez não foi tão épico assim… (embora tenha interpretações épicas sim!)

 

Ator

Denzel Washington, “Voo”

Hugh Jackman, “Os miseráveis”

Daniel Day-Lewis, “Lincoln”

Bradley Cooper, “O lado bom da vida”

Joaquin Phoenix, “O mestre”

 

Esse prêmio seria quase impossível de alguém tirar das mão do Daniel Day-Lewis, que ainda me apareceu mais maravileeeandro do que nunca para recebê-lo, das mãos da Meryl (♥), com quem ele aproveitou para fazer piadas sobre uma inversão de papéis, trazendo um humor super bacana para o seu discurso, além de uma declaração de amor linda para a sua esposa. Daniel Day-Lindo! Mesmo assim, temos que reconhecer que o Hugh Jackman também foi grandioso esse ano e merecia pelo menos um pedacinho desse prêmio pelo seu Jean Valjean. Aliás, o que foi aquela apresentação com o elenco de “Les Mis”? De arrepiar a alma e fazer ter vontade de sair cantando feito uma pessoa desequilibrada na rua segurando uma baguete, caso não tenha achado uma bandeira da França, rs

 

Atriz

jen1

Naomi Watts, “O impossível”

Jessica Chastain, “A hora mais escura”

Jennifer Lawrence, “O lado bom da vida”

Emmanuelle Riva, “Amor”

Quvenzhané Wallis, “Indomável sonhadora”

 

OK, nessa hora, eu confesso que o meu coração estava completamente dividido. Estava torcendo para a Emmanuelle Riva, confesso, ela que estava de aniversário ontem e teria sido um acontecimento caso o prêmio fosse parar em suas mãos. Fiquei com pena dela, imas isso só durou até a J-Law subir ao palco, com seu Dior (meio assim, mas isso é assunto para depois) e se estabacar no meio do caminho. CATAPLOFT! (enérgias negátivas + afobação) Juro, sabe toda aquela vontade que a gente teve de ajudar o casal de “Amour” durante todo o filme? Tive exatamente a mesma sensação depois daquele tombo ela e a minha vontade era a de ir até lá ajudar a Katniss (fiquei impressionado como nenhum do meninos levantou imediatamente para ajudá-la. Shame on you! – apesar do Dujardin ter dado aquela forcinha depois. Aliás, Höy!). E sim, apesar da nossa torcida por uma história melhor (e que exigia muito mais de uma atriz), Jennifer Lawrence vem fazendo por merecer e por isso, também ficamos extremamente felizes com o seu momento e por aqui, nada de imagens da sua queda, porque não somos desse tipo de gente (até somos, mas só com quem não gostamos muito ou quando a piada rende mais do que qualquer outra coisa. Go Katniss! Go Katniss!

ps: aqui, a nossa review sobre “O Lado Bom da Vida”

 

Ator coadjuvante

Alan Arkin, “Argo”

Christoph Waltz, “Django livre”

Philip Seymour-Hoffman, “O mestre”

Robert De Niro, “O lado bom da vida”

Tommy Lee Jones, “Lincoln”

 

Waltz roubou “Django” para ele, quase que naturalmente e não teve para mais ninguém. E que belo ator, não? Aliás, ele, a passagem do DiCaprio (mais do que o seu personagem) e o humor especial do Tarantino, são as melhores coisas do filme. Sem contar a trilha. Sensacional!

ps: aqui, nossa review sobre “Django Livre”

 

Atriz coadjuvante

anne26f-5-web

Amy Adams, “O mestre”

Anne Hathaway, “Os miseráveis”

Helen Hunt, “The sessions”

Jacki Weaver, “O lado bom da vida”

Sally Field, “Lincoln”

 

Outro prêmio que parecia ser impossível que fosse acabar em outras mãos. Anne realmente fez algo muito especial em “Les Mis”, segurando muito bem a força do seu papel e nos emocionou com toda a fragilidade da sua personagem, mesmo aparecendo apenas nos primeiros 40 minutos do filme. Maravileeeandra!

ps: aqui, nossa review sobre “Les Mis”

 

Roteiro original

Michael Haneke, “Amor”

Quentin Tarantino, “Django livre”

John Gatins, “Voo”

Wes Anderson e Roman Coppola, “Moonrise Kingdom”

Mark Boal, “A hora mais escura”

 

Tarantino merece todos os prêmios do mundo só por ser essa figura que manda a orquestra ficar quieta que ele ainda tem o que falar. Em “Django” eu não consegui encontrar o seu melhor, apesar do seu fundamento estar todo ali e ainda assim, acho que faltaram algumas coisas. O que também não significa que seja uma filme ruim, apenas não o melhor deles. 

 

Roteiro adaptado

Lucy Alibar e Benh Zeitlin, “Indomável sonhadora”

David Magee, “As aventuras de Pi”

Chris Terrio, “Argo”

Tony Kushner, “Lincoln”

David O. Russell, “O lado bom da vida”

 

Nada mais do que justo sendo “Argo” um filme basicamente sobre um roteiro “adaptado” àquela situação, rs

 

Filme estrangeiro

“Amor” (Áustria)

“Kon-tiki” (Noruega)

“O amante da rainha” (Dinamarca)

“No” (Chile)

“War witch” (Canadá)

 

Alguma surpresa? Um filme estrangeiro com força o suficiente para chegar a concorrer entre os grandes filmes do ano merecia pelo menos esse carinho. Justo. 

ps: aqui, a nossa review sobre “Amour”

 

1jack

Animação

“Detona Ralph”

“Frankenweenie”

“ParaNorman”

“Piratas pirados!”

“Valente”

 

Gosto muito de “Valente”, apesar de não ser dos meus preferidos da Pixar. E foi o prêmio ruivo da noite, então…

 

Curta-metragem de animação

“Adam and dog”

“Fresh guacamole”

“Head over heels”

“Maggie Simpson in ‘The Longest Daycare'”

“Paperman”

 

Alguém sabe me dizer se “Paperman” tem alguma relação com “Signs” (que eu AMO já tem alguns anos). Acho tudo muito dentro do mesmo fundamento, apesar das diferenças…

 

Edição

“As aventuras de Pi”

“Argo”

“A hora mais escura”

“O lado bom da vida”

“Lincoln”

 

E o filme tem mesmo um edição bem boa!

 

Fotografia

“007 – Operação Skyfall”

“Anna Karenina”

“As aventuras de Pi”

“Django livre”

“Lincoln”

 

E foi mesmo o filme das grandes paisagens/imagens do ano. Merecido. 

 

Efeitos visuais

“Branca de Neve e o caçador”

“O hobbit: Uma jornada inesperada”

“As aventuras de Pi”

“Prometheus”

“Os Vingadores”

 

Sério, alguma surpresa?

 

Figurino

“Branca de Neve e o caçador”

“Espelho, espelho meu”

“Anna Karenina”

“Lincoln”

“Os miseráveis”

 

Desde o trailer (que dizem que engana bem em termos de qualidade do longa), conseguimos perceber a qualidade e grandeza do figurino do filme. 

 

Maquiagem e cabelo

“Hitchcock”

“Os miseráveis”

“O hobbit: Uma jornada inesperada”

 

Tirando toda e qualquer peruca que o Hugh Jackman tenha usado no longa (todas horrorendas), acho que o prêmio já valia só pela caracterização do Sacha Baron Cohen, que está sensacional e ou aquelas mulheres das ruas. 

 

Canção original

22488-adele-poses-in-the-press-room-during-620x0-1

“Before my time”, de “Chasing ice” – J. Ralph (música e letra)

“Everybody needs a best friend”, de “Ted” – Walter Murphy (música) e Seth MacFarlane (letra)

“Pi’s lullaby”, de “As aventuras de Pi” – Mychael Danna (música) e Bombay Jayashri (letra)

“Skyfall”, de “007 – Operação Skyfall” – Adele (música e letra)

“Suddenly”, de “Os miseráveis” – Claude-Michel Schönberg (música), Herbert Kretzmer (letra) e Alain Boublil (letra)

 

“Skyfall” deve muito disso para a sua interpretação, apesar de ser uma música linda também

 

Trilha sonora original

Dario Marianelli (“Anna Karenina”)

Alexandre Desplat (“Argo”)

Mychael Danna (“As aventuras de Pi”)

John Williams (“Lincoln”)

Thomas Newman (“007 – Operação Skyfall”)

 

Mixagem de som

“007 – Operação Skyfall”

“As aventuras de Pi”

“Os miseráveis”

“Argo”

“Lincoln”

 

Edição de som

“Argo”

“As aventuras de Pi”

“A hora mais escura”

“007 – Operação Skyfall”

“Django livre”

 

Empate. Deveriam usar esse recurso em categorias mais disputadas também, como essa ano foram as de atriz e ator, por exemplo…

 

1jack

Design de produção

“Anna Karenina”

“As aventuras de Pi”

“Lincoln”

“O hobbit: Uma jornada inesperada”

“Os miseráveis”

 

Melhor curta-metragem

“Asad”

“Buzkashi boys”

“Curfew”

“Death of a shadow (doos van een schaduw)”

“Henry”

 

Documentário em longa-metragem

“5 broken cameras”

“The gatekeepers”

“Searching for Sugar Man”

“How to survive a plague”

“The invisible war”

 

Documentário em curta-metragem

“Kings point”

“Mondays at Racine”

“Inocente”

“Open heart”

“Redemption”

 

♥ Já está seguindo a magia do Guilt no Twitter? Ainda não? @themodernguilt

Amour

Fevereiro 21, 2013

OPCC_01_AMOUR_8.14_Layout 1

Amor para toda vida, inclusive quando ela se complica. (♥)

Quando pensamos em amor, pensamos no amor de agora (para ser honesto, as vezes lembramos também de amores antigos), do presente, do que está acontecendo nesse exato momento da nossa vida e dificilmente conseguimos projetar isso para um futuro realmente distante, daqui 40 ou 50 anos por exemplo. Apesar de ser lindo romantizar essa visão de vez em quando, a realidade pode ser bem diferente e dificilmente a gente vai conseguir chegar perto de algo mais real e concreto do que realmente acontecerá no futuro e saber de fato como será quando finalmente chegarmos lá.

Imaginamos o hoje, projetamos a história que estamos vivendo para mais alguns anos, 5, 10 no máximo, mas nunca imaginamos o que aconteceria com um amor para toda vida. Corrigindo, imaginamos sim, até sonhamos com ele, mas nunca pensamos nas dificuldades dessa fase da vida que ainda não conhecemos e que enquanto ainda jovens, parece tão distante e quase inatingível. Não nos preparamos para nos tornarmos velhos, essa é a verdade.

“Amour” traz exatamente uma visão bem intimista, real e extremamente sensível dessa relação de amor que resiste ao tempo, através da visão do sempre excelente diretor Michael Haneke (“Funny Games”, “Das weiße Band”, mostrando uma casal de músicos, Anne e Georges, vivendo essa relação de amor até o seu fim. Uma visão honesta de um cotidiano agora doloroso, devido as circunstâncias da vida naquele momento, que por conta de um derrame, coloca aquela mulher em um situação bem difícil, onde ela passa a contar totalmente com a cooperação e ajuda do marido para fazer de tudo, das coisas mais simples do dia a dia até os exercícios para a sua reabilitação.

O primeiro momento onde ela é pega pela doença chega a ser assustador, embora ela esteja praticamente paralisada em cena e muito disso por conta da sensação de ver a pessoa que você ama deixando de funcionar normalmente, mesmo que seja por poucos minutos, como acaba de fato acontecendo no longa. E de certa forma, Georges (Jean-Louis Trintignant) acaba se sentindo responsável pelo que acabou acontecendo com ela após esse primeiro derrame, onde Anne (Emmanuelle Riva) acabou ficando com parte do corpo paralisado devido a esse problema, isso porque foi ele quem insistiu em levá-la ao médico para que a sua condição não se agravasse, assumindo os riscos de um procedimento não muito bem sucedido em uma cirurgia da qual ela acabou sendo vítima da porcentagem mínima porém não nula de sequelas.

a

Debilitada, Anne não é das pacientes mais fáceis de lidar também, apesar de ter uma vontade inicial de vencer aqueles obstáculos e até colaborar dentro das suas limitações. Vontade essa que não consegue resistir ao tempo e aos poucos, ela que não consegue lidar muito bem com a sua atual condição, se sentindo envergonhada quando exposta a outras pessoas, como o ex aluno que passa pelo aparatamento do casal para visitá-la ou a filha que resolve aparecer de vez em quando, acaba pensando em desistir de viver. Ao mesmo tempo, ela vai se sentido humilhada também por não conseguir realizar sozinha uma tarefa de necessidade física simples como ir ao banheiro e para tudo ter que depender no marido, o qual se dedica ao máximo aos seus cuidados.

Com isso, acabamos ganhando uma visão do dia a dia daquele casal de idosos, com toda a dificuldade já carregada naturalmente através da idade avançada dos dois, somadas a sua atual realidade. Um olhar bem sensível para o lado simples da vida, importante para demonstrar a honestidade do longa. E esse cotidiano é uma delicia de se acompanhar (aquele tipo de retrato da realidade que nós andamos gostando tanto ultimamente), apesar de todas as dificuldades, principalmente levando em consideração a relação de amor presente a todo momento entre os dois, com ele se dedicando ao máximo, mesmo não estando também no auge do seu potencial físico, cuidando daquela com quem dividiu uma vida da melhor forma possível e de acordo com as suas possibilidades.

A essa altura, é importante dizer que apesar da idade também bastante avançada do marido, Georges acabou se dedicando incansavelmente a atual condição da esposa nessa fase inesperada de sua vida, mesmo com toda a dificuldade e limitações que encontramos com a própria idade (ele tendo que colocar sozinho aquela pomba para fora do apartamento foi um exemplo prático sensacional para ilustrar exatamente esse tipo de situação naquela idade). Um companheirismo notável, apesar dele reconhecer certo constrangimento em ver a mulher em situações que ele jamais imaginou ver, mas que mesmo assim não lhe restava outra alternativa a não ser seguir fazendo tudo aquilo que estava ao seu alcance, enquanto esperavam o tempo passar, uma vez que já não havia mais o que se fazer em relação ao seu estado a não ser uma internação, algo que antes de tudo se agravar, em outro momento importante para a história, ela acaba fazendo com que ele prometesse que jamais a levaria ao médico novamente, muito provavelmente devido ao trauma que ela acabou carregando para a vida em sua visita anterior, o que de certa forma acaba acarretando uma parcela de culpa ainda maior para ele, que prontamente aceita a promessa.

Amour (2012

O casal vive em um enorme apartamento, cercado das memórias de uma vida inteira, em meio a muitos livros, algumas obras de arte e muita música erudita, uma paixão que ambos dividem e que a sua filha também acabou seguindo como profissão. Móveis pesados, visivelmente de uma outra época, uma bagunça ligeiramente organizada em meio a muitos objetos e alguns cacarecos que todos nós vamos acumulando sabe-se lá porque ao longo da vida (me lembrou muito a casa de uma tia que eu visitava com a minha mãe quando criança de vez em quando e adorava explorar, para desespero dela, é claro, rs). Mas tudo com muito bom gosto, organizado até, em meio a cômodos largos, espaçosos, que a essa altura da vida acabam sendo inconvenientes por uma questão simples de locomoção rápida dentro dos mesmos, ainda mais dentro de um cenário como esse.

E essa questão da companhia para a vida é outra questão que me fez pensar sobre o assunto. Como é importante escolher alguém para se passar a vida com quem você pelo menos goste da companhia, com quem tenha o que dividir, goste do humor, tenha interesses em comum e tenha o que conversar, mesmo que já tenha se passado 50 anos do inicio dessa relação. Um momento bem bacana do filme acontece inclusive quando em uma conversa solta sobre o nada, ele acaba soltando uma peculiaridade qualquer da sua vida (sempre gostei de gente mais velha e especialmente por suas histórias), que mesmo tendo passado todo esse tempo juntos, ela ainda não conhecia. E conseguir despertar esse tipo de surpresa no seu parceiro de vida a essa altura do campeonato, deve ter um gostinho extremamente especial. Espero chegar lá um dia e gostar da minha companhia. Ou melhor, que alguém ainda goste e ou aguente a minha companhia, rs.

Dentro daquele aparatamento, vamos observando o dia a dia do casal, que vai mudando ao poucos e acrescentando elementos ao seu cenário a medida em que a situação vai piorando e eles vão precisando se adaptar mais àquela realidade, agora com uma pessoa que vai precisando cada vez mais de cuidados especiais. Outros personagens também passam a ser acrescidos a história, como as enfermeiras que passam a cuidar de Anne, assim como algum vizinho gentil que passa de vez em quando para fazer um favor ou apenas ver com andam as coisas ou empregados.

19AMOUR-

Com esses outros personagens ganhamos dois excelentes momentos, como a enfermeira meio assim que assumiu um novo turno no tratamento de Anne e foi colocada devidamente em seu lugar pelo próprio Georges, quando ele disse que desejava que ela passasse pela mesma situação de ter que depender de alguém para fazer qualquer coisa um dia e não pudesse revidar qualquer tipo de abuso ou grosseria (e olha que nós conhecemos histórias de enfermeiros bem piores, apesar da reação da moça ter entregado bastante da sua índole), além daquela conversa franca que ele acabou tendo com a própria filha, situando a moça no seu devido lugar, dizendo inclusive que enquanto ele estava vivendo pelos dois, ele não tinha mais tempo para gastar com preocupações momentâneas da filha ausente, que só agora resolveu se preocupar, por puro desespero (comportamento clássico de quem não participa efetivamente do problema). Dois momentos sensacionais!

Até que o estágio da doença acaba avançando e Anne vai se encontrando cada vez pior, em um trabalho de atriz fantástico, que não é a toa que fez com que a Emmanuelle Riva fosse reconhecida esse ano no Oscar, que inclusive ela também é uma das que merecia levar, devido a tamanha entrega e emoção que ela conseguiu nos transmitir com a sua personagem naquela condição, cada vez mais limitada. Com esse avanço, começa a bater o desespero em Georges, que entra em um conflito com ele mesmo a respeito do que fazer quando ele passa a ver o grande amor da sua vida sofrendo de forma desesperadora (e nessa hora ele faz uma analogia a uma história do seu passado, ainda quando criança, que é bem importante para o momento), visivelmente cansada de lutar contra (uma vontade que ela chega a mencionar no começo do longa, logo quando a personagem volta do hospital) e ele já estava inclusive perdendo a paciência e se tornando um homem que provavelmente não gostaria de ser. (a vergonha que ele sente depois daquele tapa e o desespero dele em ter que lidar com a visita da filha logo na sequência, também são momentos sensacionais do longa)

O final do filme já é anunciado em seu começo, apesar de existir uma grande surpresa em seu caminho, que acaba justificando de certa forma tudo aquilo que nós já sabíamos que iria acontecer. Um final que não poderia ser diferente ou mais corajoso, que ao mesmo tempo que funciona com um tapa na nossa cara com um baguete originalmente francesa, também acaba funcionando como um alívio para o final feliz daqueles dois personagens, capazes de tudo e dispostos a tudo para ficar juntos até o fim. E isso só pode ter um nome e por lá, eles chamam de “Amour”. (♥)

Um filme sensível e extremamente corajoso por conta da sua resolução final, que apesar das circunstâncias, passa longe de ser um grande dramalhão e funciona apenas como uma linda janela de frente para a vida daquele casal, durante aquele período específico de suas vidas e que merece ser visto por todos. Um filme com cheirinho de avó e quem tem ou teve uma figura tão especial assim na vida sabe exatamente do que eu estou falando (pena a casa dela também hoje já estar vazia. Humpf!). E é bom separar uma caixinha de Klennex, só para garantir.

 

♥ Já está seguindo a magia do Guilt no Twitter? Ainda não? @themodernguilt


%d bloggers like this: