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Vicious, a relação mais amarga e adorável da TV

Outubro 22, 2013

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Deixando o romantismo de lado e pensando no lado prático da história, imaginem o quanto a ideia do  “até que a morte nos separe” pode ser aterrorizante hoje em dia. Sendo bem prático mesmo e pensando no tempo de nossas avós, que se casavam bem jovens e ficavam com seus maridos por muito tempo (normalmente até o fim da vida), essa relação com alguma sorte e contando bastante com a saúde dos envolvidos, poderia chegar aos 50 anos, talvez. Em países que foram para a guerra no passado então, essa ideia não chegava a durar muito e muitas vezes acabava por motivos trágicos, muito antes do que se imaginava. Mas hoje em dia, com a expectativa de vida aumentando cada vez mais e com a possibilidade de chegarmos aos 100 anos de idade, a ideia de permanecer ao lado de alguém para o resto da vida, apesar de romântica e super poética como sempre, na realidade, pode significar que considerando que você se case antes dos 30 anos, você corra o risco de comemorar segundo uma pesquisa rápida na internet, algo que é conhecido como “bodas de vinho”, que é quando um casal completa 70 anos de casamento. Imaginem só? (eu imagino a paciência de alguém para me aguentar por 70 anos e não consigo imaginar alguém forte o suficiente para aguentar essa tarefa, rs)

Não somos exatamente preparados para isso ao longo da vida (recentemente o filme “Amour” nos deu uma bela ilustrada de uma relação duradoura bastante semelhante a questão e sobre o que tudo isso pode significar para esse amor) e tão pouco estamos acostumados a encontrar principalmente na TV, histórias de casais que dedicaram quase 50 anos de suas vidas ao lado um do outro. Pelo menos não como personagens principais. E se isso já não é muito comum, para um casal gay então, essa se torna uma experiência praticamente inédita, que é o que acompanhamos durante a divertidíssima Season 1 de Vicious, uma série inglesa deliciosa sobre a linda relação amarga de dois homens que passaram a maior parte de suas vidas juntos.

Com um humor extremamente ácido, em uma curta temporada de apenas 6 episódios (as vezes, odiamos os ingleses por isso) e um ainda inédito especial de Natal prometido para esse ano (veremos…), acompanhamos de perto o dia a dia dentro de um apartamento escuro da Londres antiga do casal de velhinhos mais adorável do momento. E sim, eles podem ser ácidos, extremamente sinceros de vez em quando, mas é impossível negar que Stuart e Freddie sejam adoráveis. E conseguimos perceber logo no piloto que o título “Vicious” poderia realmente representar muito bem a série, que apesar de não ser nada genial (temos que admitir que essa é mais uma seguindo aquela famosa temática familiar que parece ser a grande aposta da vez), logo de cara já nos apresentava a possibilidade de se tornar o nosso mais novo vício televisivo. E confirmou! Ao final dos 6 primeiros episódios de sua temporada de estreia, acho que podemos dizer facilmente que já nos encontramos completamente viciados em mais essa delícia inglesa.

Com uma longa história de 49 anos de convivência, além dos bons momentos que dividiram juntos durante todo esse tempo, ambos parecem ter focado nas mágoas que obviamente fizeram parte do relacionamento e principalmente da convivência da dupla e a partir disso, ganhamos muito daquele humor que só os ingleses conseguem fazer dessa forma, um tipo de deboche mais refinado, muitas vezes bem malvado, mas que ao mesmo tempo esconde um tipo de humor delicioso que sempre me pareceu muito bacana e atraente porque apesar de simples, é extremamente inteligente. E em meio a muitos insultos, ambos vão nos conquistando aos poucos com suas manias e costumes, além das visitas que não param de acontecer naquele apartamento a todo momento e alguns plots e personagens recorrentes que apesar de bem simples ou caricatas de vez em quando (e todos eles são bem assim, o que me fez lembrar muito de Ab Fab), conseguem nos arrancar gargalhadas extremamente sinceras e muito bem gastas.

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Stuart é quase uma dona de casa e parece gostar de se comportar como tal, do tipo que diz que abdicou do seu lado profissional para cuidar do outro, se vangloriando do fato de sempre ter sido o mais bonito do casal (há controvérsias, rs), ele que é dono de uma notável fragilidade, tanto que até pouco tempo ao longo da temporada, o personagem se manteve dentro do armário para a mãe, que não fazia ideia da verdadeira relação entre ele o seu parceiro de longa data. Mas apesar dessa fragilidade mais evidente, é preciso dizer que na hora de combater aos insultos do grande amor da sua vida, Stuart não fica atrás e acaba revidando cada um deles de forma excelente, em uma dinâmica que ambos os atores dominam lindamente.

Freddie é o mais vaidoso dos dois, muito provavelmente por conta da sua profissão de ator, que não anda lá essas coisas e parece que já faz tempo, mas mesmo assim ele não perde a pose por nada nesse mundo (tendo ele participado da série clássica de Doctor Who como um dos vilões e segundo a série, sendo esse o seu maior papel até hoje, eu também jamais perderia a pose e te entendo completamente, Freddie). Convencido de que tem muito menos idade do que aparenta ter (ambos tem muito disso, mas ele tem mais), o personagem é quem mais faz questão de se comportar como um jovem e também é dono de uma língua afiadíssima, principalmente na hora de atacar a sua companhia para a vida.

Mas apesar de viverem nesse delicioso campo minado de ofensas pessoais envolvendo o histórico de anos dos dois, o casal consegue manter a doçura necessária para que a gente acredite que eles se amam de verdade, tanto que mesmo fazendo piadas e mais piadas sobre os fracassos na vida de cada um deles, ambos não medem esforços quando chega a hora de defender o seu parceiro contra qualquer pessoa que ouse falar qualquer coisa negativa em relação ao dois, mesmo com eles praticando esse exercício quase que o tempo todo, algo muito parecido com as relações de qualquer família ou pessoas que se amam ou que passaram a conviver de perto por muito mais tempo. (inclusive, eles me lembram muito meus avós)

Apesar da limitação do cenário (algo próximo de Him & Her), surpreendentemente os atores conseguem fazer a série render e muito, mesmo quando só estão os dois dividindo um lugar no sofá do próprio apartamento. É claro que Vicious ganha muito também com as participações pra lá de especiais dos visitantes que não param de chegar no apartamento do casal, como a Violet (Frances de la Tour) ou o vizinho magia Ash (Iwan Rheon, também conhecido como o torturador de GOT), com o qual eles juravam que poderiam ter alguma chance. E tem também a dinâmica deles com o cachorro moribundo, que nunca apareceu realmente, apesar de ter estado em cena durante algumas vezes nessa temporada (e a coleção de urnas com as cinzas dos cachorros anteriores do casal? rs) Mas apesar de permanecer bastante dentro do mesmo cenário, a série até chegou a se arriscar em alguns outros, como naquele episódio em que o Stuart começa a trabalhar como vendedor em uma loja de departamento ou quando o Freedie acaba se aventurando nas noites inglesas, na companhia do Ash e seus amigos.

Além do humor super ácido entre o casal e seus amigos, Vicious também conta com uma série de referências a TV inglesa atual que são igualmente divertidas, como quando o Freedie acaba conseguindo um papel como figurante com apenas uma line em Downton Abbey, além das várias menções a Doctor Who. E além de divertidíssima, eles conseguem nos entregar um lado mais foufo para a Vicious e isso acaba acontecendo toda vez que o casal reconhece que se ama apesar de qualquer outra coisa, como no episódio que encerrou essa primeira temporada, como o Stuart finalmente saindo do armário para a mãe e sendo defendido lindamente pelo Freddie (e o mesmo, só que em outra circunstância, também já havia acontecido ao contrário ao longo dessa primeira temporada). E é importante reconhecer que entre os atores Derek Jacobi e o Ian McKellen existe uma cumplicidade e uma química que impressiona, com ambos atores veteranos dominando muito bem essa proposta, na qual eles inclusive parecem se divertir bastante. (de vez em quando eu sinto como se eles tivessem se esforçando para não cair na risada)

E por se tratar de uma temporada bem curta, a comédia inglesa acaba sendo mais um daquelas que você consegue acompanhar tranquilamente tomando um chá das cinco, do tipo que quando aparece qualquer episódio novo, você acaba dando aquele 1/2 sorriso de canto de boca, só de imaginar fazer uma nova visita no apartamento do casal mais amargo e adorável do momento na TV. E a boa notícia é que Vicious já foi renovada e ganhará uma Season 2. Hurray!

 

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Vicious – ainda não parece genial, mas pode realmente se tornar viciante

Maio 7, 2013

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Um casal gay vivendo na terra da rainha. Um deles é um ator decadente, Freddie Thornhill (Ian McKellen) que se recusa a se comportar como um aposentado e se vangloria dos pequenos papéis que fez durante a sua carreira, como uma participação em Doctor Who por exemplo. O outro é Stuart Bixby (Derek Jacobi), esse bem mais sensível, delicado, cheio de trejeitos e afetações, mas que mesmo assim ainda não conseguiu se assumir para a mãe e diz que mora com um “amigo” com quem divide as contas, naquele velho truque da irmandade (rs). Em um apartamento antigo, super datado, com cara de museu e as cortinas sempre fechadas, ambos vivem naquele eterno atraque de elogios deselegantes, uma arte que se adquire facilmente com o tempo e com a convivência (e que também faz bastante parte da cultura gay), além de uma vida quase que inteira compartilhada nessa relação de amor, que todo mundo sabe que nem só desse sentimento sobrevive. (mas principalmente por ele)

Assim é Vicious, a nova série inglesa que conta a história desse adorável e rabugento casal gay envelhecendo juntos em meio as memórias de uma vida inteira. Além do sotaque que nós amamos e não cansamos nunca de ouvir, a série tem tudo o que nós gostamos das produções do gênero da terra da rainha, além de ser uma deliciosa comédia de situação sobre o nada, onde aparentemente tudo pode acontecer dentro daquele apartamento que mais parece a catacumba que esconde dois vampiros antigos. (que isso não soe como preconceito, porque em um determinado momento ambos demonstram uma forte rejeição a luz do sol, rs)

Um apartamento com cara de antigo, com aquele mobília pesada, escuro, onde aparentemente se é proibido sequer abrir as janelas (não falei?), cacarecos por todos os lados em um ambiente que quase nos transporta imediatamente para uma outra época. Cenário perfeito para esse tipo de história, que não precisa de uma grande movimentação ou grandes acontecimentos para se desenvolver perfeitamente ou nos fazer rir.

Claro que boa parte da história, além da língua afiadíssima de ambos os personagens que trocam ofensas daquela forma cínica que nós sempre adoramos (gay or straight), conta e muito com o carisma e talento de seus atores principais McKellen + Jacobi, que são grandes lendas da TV e do cinema, que conseguem carregar os papéis de ambos os personagens com maestria, apesar de todo o caricatismo estampado na série, que parece ter assumidamente escolhido esse caminho para percorrer.

Durante o piloto já enfrentamos uma história de luto (algo que deve ser especialmente assustador nessa altura da vida e uma vez minha avó me disse algo do tipo que me fez imaginar bem essa situação), que eles acabam aproveitando para fazer piada sobre o assunto, sendo o morto da vez um interesse em comum do passado de ambos. Nessa hora, eles acabam recebendo também a visita de velhos amigos, todos bem divertidos apesar da menor participação, assim como a amiga de longa data do casal, Violet Crosby (Frances de la Tour) que parece não saber muito bem se Zac Efron é uma pessoa ou um lugar. Sério, #TEMCOMONAOAMAR?

A série conta também com a participação de um vizinho magia que se muda ainda no piloto para o andar de cima do flat do casal, Ash Weston (Iwan Rheon, que atualmente também está em GOT) bem mais jovem e ainda sem preferências definida, algo que acaba despertando o interesse e a curiosidade de todos. Só achei que o plot sobre ele ser gay ou não poderia ter rendido mais e talvez até porque não ter virado uma espécie de mitologia para o personagem dentro da série, pelo menos por um tempo, claro.

Apesar de não ser genial em nenhum momento, nessa simplicidade da série e no talento dos seus atores principais está o maior trunfo da mesma, que em diversos momentos, dadas as devidas proporções, chega a nos lembrar de delícias como “A Gaiola das Loucas”, Will & Grace (e tem dedo dos produtores da série antiga na nova série também) e até mesmo Him & Her, para fugir de qualquer tipo de estereotipo. De qualquer forma, apesar de qualquer coisa (inclusive proximidade e identificação com um futuro bem possível para alguns… tisc tisc, rs), é bem possível que Vicious acabe se tornando um dos nossos mais novos vícios na TV.

Veremos…

 

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