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A Carnificina “educada” de Roman Polanski

Janeiro 27, 2012

Uma discussão sobre o bullying, onde o próprio assunto acaba se tornando pequeno demais perto dos outros problemas maiores da elite americana.

Roman Polanski tocando na ferida americana no seu novo longa “Carnage”, com um elenco de peso e uma deliciosa discussão de 90 minutos dentro de um apartamento no Brooklyn, NY.

Pais se confrontando para discutir o comportamento violento dos filhos. Representando os pais da vítimas, de um lado temos John C. Reilly e Jodie Foster (ela que está excelente bancando a mãe super protetora e irritadinha) e do outro lado, os pais do suposto agressor, Christoph Waltz e Kate Winslet (ambos em excelentes performances), todos discutindo um assunto relativamente simples, mas que acaba ganhando proporções muito maiores do que o verdadeiro problema em questão, que é o comportamento violento dos seus filhos.

O filme é baseado na peça “Le Dieu Du Carnage” da escritora francesa Yasmina Reza e curiosamente, teve que ser gravado inteiro em Paris, por conta da proibição da entrada do diretor em território americano por conta daquele seu problema de sempre na america antiga. O que nesse caso não fez a menor diferença, porque o filme se passa inteiro dentro do apartamento do casal, entre inúmeros ensaios de saída no corredor do prédio e uma breve passada pela cozinha e banheiro desse mesmo apartamento.

“Carnage” na verdade funciona como uma grande provocação do diretor em relação ao atual comportamento da sociedade americana (copiada pelo mundo…), com suas regras comportamentais e uma “falsa tolerância” em nome da aparente boa convivência, que esconde na verdade uma grande leva de hipocrisia e ideologias furadas que eles insistem em sustentar, mesmo ficando cada vez mais impossível de acreditar nesse modelo.

Ao longo do filme, vamos percebendo como a história vai ganhando novas proporções a medida em que os outros assuntos entram em questão durante a discussão dos casais, quando ambos tem que confrontar as diferenças que se encontram naquele monento, naquela sala, sem a opção de poder fugir do problema e tendo assim que encarar a própria hipocrisia, a crueldade, o preconceito e uma série de outros fatores que vão dando material para que esses quatro excelentes atores consigam nos fazer ficar presos naquela sala junto com eles por 90 minutos. E isso com a maior facilidade do mundo.

O roteiro é excelente e é bem engraçado como o jogo vai mudando de figura a todo momento. Ao mesmo tempo que eles passam a se odiar por um motivo qualquer que surge como assunto durante a conversa, cinco minutos depois eles já estão vestindo a camisa do mesmo time, defendendo os seus ideais e provocando uns aos outros o tempo todo.

E é muito engraçado também a forma como o diretor consegue achar a graça dentro daquela discussão tão séria entre os personagens, onde até em uma cena de pura escatologia, por sinal, muito bem encarada pela atriz Kate Winslet, cena essa que consegue ser engraçada e ao mesmo tempo passar a mensagem da discussão maior do longa, que se esconde atrás do problema em comum dos casais em questão.

Outro que está impagável em “Carnage” é o ator Christoph Waltz, vivendo um homem “comprometido” com o seu trabalho, que vive pendurado no seu smartphone, mas que aproveita os poucos minutos que eles se encontra longe do seu gadget para alfinetar o casal oponente, provocando principalmente a ira da mulher do outro (Jodie Foster), em uma série de situações divertidíssimas de conflito, testando os limites da educação e tolerância do próximo.

Um conflito quase que gratuito, causado pela intolerância de não conseguir lidar muito bem com pessoas que pensam ou são completamente diferentes de vc mesmo. E o curioso, é que mesmo parecendo ser tão diferentes, ou pelo menos tendo ideias tão distintas, ambos acabam se assemelhando e muito em diversos momentos do filme e isso acontece quando eles vão mudando de time ao longo dessa deliciosa discussão.

E como a gente esconde muita coisa tentando parecer educado quando não sentimos vontade de praticar essa boa educação, não? Uma questão para se pensar…

O filme além de provocativo em relação a essa postura atual da sociedade americana, que julga, aponta o dedo e tenta parecer superior ao resto do mundo, forçando o politicamente correto, mas deixando rastros bem evidentes de que eles não são tão corretos assim (mas isso não é uma exclusividade dos americanos…), chega também como um ótimo ponto de reflexão sobre o atual momento do mundo em relação a diversos assuntos e ainda assim, funciona muito bem como uma comédia com atores de primeira.

E o bullying, assunto recorrente que começa e encerra os créditos do longa e que certamente é a palavrinha da moda, no filme, acaba tendo uma solução muito mais simples do que muitas vezes a gente imagina para qualquer tipo de conflito, com os meninos resolvendo os seus problemas entre eles mesmo, de uma forma muito mais civilizada do que os seus pais “super educados”, que certamente ficariam naquela sala discutindo o problema por muito tempo, coisa que os seus filhos resolveram de forma bem mais simples, mostrando que muitas vezes o problema é muito menor do que a importância que acabamos atribuindo a ele.

Um delicioso exercício de paciência, educação e civilidade, simples assim e também ao contrário, rs.


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