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O Prometheus de Ridley Scott

Julho 13, 2012

Começando de forma bem cretina e já fazendo uma piadinha batida que poderia ter sido evitada, digamos que “Prometheus” prometia muito mais. Segundo minha companhia dentro dessa experiência: prometeu, prometeu e não cumpriu. (rs)

Claro que um filme que marcava a volta do diretor Ridley Scott a um gênero que ele dominou no passado com todos os seus Aliens e até mesmo com o seu sensacional (e meu preferido) “Blade Runner”, já teria uma grande expectativa criada em torno do seu aguardado lançamento, mesmo sem precisar fazer muito esforço.

Para quem é fã do diretor ou de Sci-Fi, “Prometheus” é um prato quase cheio, quase. Digo isso porque todo o seu fundamento está reunido nessa nova obra, mas talvez essa revisita ao passado do diretor tenha sido um pouco demais, meio óbvia até, o que facilmente poderia ser confundido como um oportunismo barato (que eu quero acreditar que não seja o caso). Além do que, o filme não só resgata um universo criado pelo próprio diretor, o que talvez seja uma novidade apenas para essa nova geração, mas também acaba bebendo da fonte de outros clássicos do gênero. É praticamente impossível não comparar aquela sequência de abertura com David vagando sozinho pela embarcação ao som de música clássica, recebendo um bom dia da própria máquina e não lembrar de “2001 A Space Odissey” de Stanley Kubrick, por exemplo.

No longa, temos a história de uma expedição motivada pela descoberta de um casal de arqueólogos, Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), que ao redor do mundo descobrem algumas figuras que eles acreditam ser um convite deixado no formato de um mapa por quem eles chamam de “engenheiros”, uma espécie de criaturas que eles acreditam terem sido os responsáveis pela criação, ou que pelo menos tenham algumas respostas em relação ao surgimento da humanidade. Um mix de questões evolucionistas e um pouco do próprio criacionismo, mais ou menos algo como a velha pergunta de sempre: quem somos e de onde viemos?

Patrocinados por uma empresa chamada Weyland, eles embarcam na Prometheus, que nada mais é do que o nome da nave que foi batizada segunda a mitologia grega do titan Prometheus, que segundo a história, foi punido por Zeus após a sua tentativa de aproximar a humanidade dos deuses.  Nessa expedição em busca do tal planeta, eles tem o auxílio de uma pequena equipe (se não me engano são apenas 17), sobre a supervisão da gélida Meredith Vickers (Charlize Theron), que chega a gerar alguma desconfiança sobre o fato dela ser realmente humana e quase não consegue justificar a presença de um nome como o da Charlize interpretando esse papel nesse elenco, devido a pouca relevância da sua personagem para a trama. Dentro da embarcação ainda temos ele que é o grande personagem do filme, o robô David (Michael Fassbender), que na verdade é o grande responsável por todos dentro daquela expedição e talvez seja a sua maior arma. E foi bem bacana a forma como eles conseguiram transformar um personagem desalmado e um tanto quanto “incomodado” por isso, na sua condição inferiorizada de não humano e mostrá-lo como a maior alma dentro daquele cenário. Bacana mesmo.

A princípio, confesso que estranhei ver um agora grande nome como o do Michael Fassbender em um papel como esse e fui logo imaginando que ele teria aceito esse desafio muito mais por conta do peso do nome do diretor Ridley Scott, do que por qualquer outra coisa. Grande engano meu, porque David tem um papel fundamental dentro daquela história, o que pra mim não chegou a ser uma total surpresa, mas além disso, ele consegue ser de longe o melhor personagem do filme, em todos os sentidos. E isso fica ainda mais evidente perto do final, onde mesmo se encontrando em uma situação bem meio assim (e vale reforçar esse “bem”), o ator conseguiu entregar mais uma vez um excelente desempenho, como vem acontecendo em todos os seus trabalhos recentes.

Um papel que certamente não poderia ser vivido por um ator qualquer ou menos talentoso, o que poderia até arruinar todo o longa de forma irrecuperável. Mas com Fassbender no comando, ganhamos uma versão robótica em conflito com a sua própria existência, porém, com uma doçura no olhar e cheio de personalidade, do tipo super questionador e muito teimoso, com uma visível inspiração no visual do David Bowie antigo (o que talvez justifique até o seu nome) e uma paixão pelo cinema, revelada através da sua obsessão com o clássico “Lawrence da Arabia” (thnks L.L e C.  leitoras do Guilt que me trouxeram a referência), filme também antigo do qual ele chega a citar algumas quotes em diversos momentos. Um trabalho bem sensível e lindíssimo de interpretação do ator, onde mais uma vez ele justifica o porque de todo o barulho em torno do seu nome recentemente. (Clap Clap Clap!)

E como eu disse no começo do post, as referências a mitologia do diretor estão todas presentes no filme, que nos revela uma série de similaridades com o que nós já vimos Ridley realizar com maestria no passado. Aquela visão futurista bem especial do diretor, que a essa altura já se tornou referência estética, o climão de suspense e até mesmo de “terror” de uma ameaça alienígena, o medo do desconhecido e as diversas questões sem resposta da humanidade estão todas ali, reunidas nessas quase duas horas de duração do longa, que não chegam a ser cansativas, onde embora a sua primeira hora seja até bem mais lenta, ela consegue ser também bem mais interessante do que a sua continuação.

O problema é que apesar de “Prometheus” ser um bom filme, ele não consegue ir além porque quase tudo é muito raso em sua trama. As questões ficam no ar e parece que ninguém tem coragem de arriscar um palpite ou sugerir um caminho como proposta. Temos uma expedição cheia de questões que inclusive nos são apresentadas, mas suas respostas eles ainda ficaram nos devendo. Talvez propositalmente, porque o seu final em aberto, deixa uma boa possibilidade de continuação, onde podem estar essas respostas,  embora o seu encerramento também seja satisfatório e eu até acho que eles deveriam parar por ali. Mas buscando um pouco mais de informação sobre o seu roteiro, acabei descobrindo que ele ficou por conta de Jon Spaihts e ele, Damon Lindelof, que já nos provou em Lost que não é o melhor nome ou uma mente tão genial assim quando o assunto é a finalização do seu trabalho, o que nesse caso se repete e novamente deixa uma insatisfação no ar. (nada no nível da última temporada e final da série, mas nesse mesmo caminho).

O que realmente impressiona no filme é a sua qualidade estética, o que não poderia ser diferente tratando-se novamente de um nome como Ridley Scott, que é uma grande referência nesse sentido. Cenários lindíssimos do futuro, com figurinos e objetos redesenhados com maestria (o new look deles de “astronauta” é maravileeeandro), o que ajuda a impressionar e distrair visualmente, compondo muito bem o clima daquela história e que mesmo tratando-se do ano de 2093, a impressão que fica é a de que não parece ser um futuro tão distante assim e bem possível, ao contrário do que deve ter acontecido quando ele apresentou o seu olhar com “Blade Runner” em 1982, por exemplo. Nesse campo de inovação e olhar futurista, tudo me pareceu mais contido e preocupado com o realismo, com os pés mais no chão, mesmo que de outro planeta, rs.

Cheguei a achar o figurino da personagem principal bem parecido com o de “The Fifth Element” (o cabelo apesar de mais básico, também ajudou), naquela sequência com a maquina da cirurgia que deve ter deixado muito fã saudoso da franquia de Alien bem feliz. Bacana também são as projeções e hologramas que encontramos ao longo do filme, que funcionam perfeitamente dentro daquele cenário, criando uma textura e um contraste de luz belíssimo de se ver. Aquela cena com o David no centro de comando da nave alienígena, em meio as projeções de como aquele mecanismo todo funcionava, foi realmente de tirar o fôlego de tão bonita, quase que como uma grande instalação artística dessas mais modernas, que a gente anda visitando em exposições por ai e que nos deixam sempre de boca aberta, querendo morar dentro da obra. (pelo menos comigo é sempre assim, rs)

No elenco do filme é bem bacana encontrar nomes com o do ator Logan Marshal Green ou de uma Noomi Rapace com personagens principais, que são ótimos atores de uma nova safra, mas nessa hora, talvez o diretor tenha confiado demais na estética e em todo o seu fundamento e tenha esquecido que cinema também é feito de uma boa dose de carisma, o que nesse caso acabou faltando também. Eu pelo menos não consegui me relacionar muito bem com a protagonista a ponto de torcer por ela ou desejar um final feliz para a sua história. Não que a atriz seja ruim, mas talvez um rostinho mais conhecido ou até mesmo uma profundidade maior para a personagem, tivesse jogado mais a seu favor. Fora que um dos porques dela hoje ser quem ela é, está escondido em um grande clichê (e o filme não tem só esse…), nesse caso até mesmo desnecessário. Tão desnecessário quanto o plot da discussão da fé dentro do filme (a discussão da Ciência vs Fé sempre me deixa com um certo nível de preguiça), que eu sinceramente acho que poderia ter ficado totalmente de lado, esquecido na Terra, rs.

Fora que eu não gosto muito da sensação de que o o herói tem mais sorte do que competência, sabe? Quando tudo se resolve fácil demais ou os caminhos apesar de difíceis, escondem sempre uma resolução a favor do herói, eu sempre acabo ficando com a sensação de que a história é pouco crível. E é exatamente o que acontece em “Prometheus”, onde Elizabeth acaba contando demais com a sorte, onde para todo o resto da tripulação ela parece não sorrir tanto, exceto para a protagonista, que mesmo sozinha em meio ao solo de um outro planeta e com uma ameaça alienígena 10 vezes maior do que ela (fora aquela outra dos tentáculos) na sua cola, a personagem consegue se safar praticamente ilesa de toda aquela situação caótica e desesperadora. Nesse caso, ela segue seu destino e sai até carregando a cabeça do seu “app poder” dentro da bolsa. Simples assim.

Mas o resultado final não deixa de ser positivo, mesmo ficando a sensação de que uma volta como essa, para um direitor como Ridley Scott, poderia e deveria sim ter sido bem mais grandiosa, como dava a entender a promessa desse novo longa e tudo que se comentou sobre, antes mesmo do seu lançamento. E apesar do filme ser um produto lindíssimo, super bem acabado, reunindo tudo o que a gente sempre admirou em seu trabalho, o que  mais acabou fazendo falta nesse caso foi ter mais história, ou até mesmo mais profundidade para o pouco que nos foi proposto, o que faz com que “Prometheus” fique preso no estigma de apesar da sua grandiosidade, ele não tenha força o suficiente para ultrapassar as barreiras de ser classificado apenas como mais um filme bom.

ps: vimos ou não vimos um Alien naquele final hein? Eles dizem que não, mas nada me tira da cabeça que sim… rs

 

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