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Nós realmente deveriámos ter falado mais sobre o Kevin

Fevereiro 6, 2012

Mas será que teria adiantado? Ou melhor, teria mudado alguma coisa?

E essas são algumas perguntas que ficaram na minha cabeça após assistir “We Need To Talk About Kevin”, um filme forte, tenso, vermelho, porém de emoções frias, da diretora Lynne Ramsay.

Primeiro, vamos começar falando sobre dois mitos que somos praticamente forçados a acreditar e que o filme faz questão de derrubar.

O primeiro deles é o que “toda mulher nasceu para ser mãe”, o que a essa altura da vida, depois de conhecer várias histórias diferentes e sermos pessoas que conseguem enxergar o mundo em que vivemos e realmente ver alguma coisa, nós já sabemos que isso não é verdade. O segundo mito é o de que “crianças são anjos”. Longe disso, crianças são seres humanos comuns, descobrindo a sua personalidade, formando o seu caráter, experimentando sentimentos dos mais variados possíveis, sejam eles bons ou ruins. Embora seja politicamente correto acreditar no contrário e até socialmente aceito com mais facilidade, basta olhar com cuidado para meia dúzia de crianças brincando na praça, ou observá-las na escola para entender que eles não são tão angelicais assim e quanto antes vc perceber isso pode ser melhor, ainda mais se vc já for pai.

E o filme fala exatamente desses dois aspectos. De uma lado temos Eva (Tilda Swinton, gélida, tentando ser simpática, profundamente magoada e ótima por sinal!) uma mulher que se encontra encarando a maternidade da forma mais real possível. Nada de grávidas confortáveis com aquela barriga pesada e gigante de fora, no meio de uma aula de lamaze qualquer. Ao contrário disso, do perfil da “mulher grávida com uma luz especial”, Eva se encontra incomodada com a sua atual situação, como se talvez ela não estivesse exatamente pronta naquele momento para encarar ter que se transformar em mãe, um pouco além do desconforto natural que já se é esperado.

Um momento que querendo ou não, acaba mudando a sua vida. As prioridades acabam mudando e os sonhos em alguns casos acabam ficando para depois ou vão virando apenas parte da decoração da sua casa, para te lembrar de vez em quando do que vc costumava desejar antes dessa transformação.

Com o nascimento do bebê, podemos observar que o seu desconforto continua, mesmo com ela tentando ao máximo agradar a criança e tratá-la bem, tentando também ignorar a exaustão, onde em um determinado momento do filme, ela chega ao ponto de preferir o barulho de uma britadeira em uma obra local, ao invés do choro constante do seu próprio filho. Uma momento tão honesto, de sinceridade tão difícil de ser visto, principalmente retratado no cinema ou relatado em uma roda qualquer de mães de primeira viagem, que certamente não vão ser tão sinceras assim, porque no mínimo parece errado diante dos olhos da sociedade.

Cansada, incomodada, suada, tentando descansar em casa nos poucos momentos livres que acabam sobrando quando se é mãe, ela ainda tem que lidar com o marido conformista, Franklin (John C. Reilly, que tem conseguido entregar bons papéis recentemente não?) que não parece entender exatamente pelo que ela está passando naquele momento da sua vida ou sequer consegue enxergar o estado de exaustão em que ela se encontra, considerando tudo aquilo muito natural para todo mundo. Talvez porque ele seja do tipo de pessoa que acredita no modelo contrário ao que eu começo descrevendo no início desse post, quando falamos dos mitos que o filme faz questão de derrubar.

Assim, ambos vão construindo uma relação familiar, pai, mãe e filho (e mais tarde uma nova filha), mas não parece que as coisas vão indo muito bem. Kevin (Rock Duer, Jasper Newell e Ezra Miller) é uma criança apática, indiferente e parece completamente distante, como se não tivesse o menor interesse em nada ao seu redor dentro daquele cenário familiar. A mãe, assustada com esse tipo de comportamento, começa a encarar os problemas do filho de forma diferente, como se fosse algo pessoal, diretamente ligado a ela.

O bacana também é que aparentemente, não existe uma coisa concreta que possa ser ligada a esse tipo de comportamento. Sem grandes traumas, sinais de maus tratos dos mais violentos ou qualquer coisa do tipo que pudesse justificar o comportamento do garoto em relação a mãe. Ele apenas se sente assim em relação a ela, simples assim. (talvez aqui caiba aquele teoria de que os bebês sentem o que a mãe está passando durante a gravidez. Mas esse é só um palpite)

Como quando ela o leva ao médico para verificar se está tudo certo com o atraso do filho em desenvolver a fala e acaba ficando visivelmente decepcionada quando ouve do próprio médico que o seu filho é uma criança normal, talvez apenas preguiçoso. E esse tipo de comportamento vai sendo repetido ao longo do filme, em diversos momentos, com o garoto se recusando a comer, ou aprender a ler, contar, como se fizesse questão de colocar a mãe de lado e não deixá-la participar do seu desenvolvimento de propósito.

Ambos na verdade parecem muito distantes um do outro, como se não tivessem vínculo algum além do grau de parentesco. Ela até tenta disfarçar no começo, mas depois chega até a ser pega pelo marido falando para o filho que ela costumava ser mais feliz antes de tê-lo fazendo parte da sua vida. Coisas que a gente ouve quando criança, dentro ou fora de um contexto e que acabam marcando a nossa vida.

Mas tudo muda com a chegada do pai em casa, onde o menino se demonstra animado, disposto, exatamente o contrário do que  quando ele está apenas com a sua mãe, o que dificulta ainda mais para que aquele pai consiga enxergar o ponto de vista da sua mulher em relação ao filho. Uma mudança de humor repentina, exagerada, pouco real, que ela começa a perceber que não se trata de uma simples preferência pelo pai e sim algo que vai muito além disso, mesmo com o garoto sendo ainda apenas uma criança. (“Mas ele é só uma criança” – detesto quando pessoas preguiça dizem isso como argumento)

E crianças podem sim ser malvadas, mentirosas, ou vc nunca perguntou para uma criança algo que ela negou de pés juntos ter feito, mesmo vc tendo certeza de que foi ela quem fez? Por isso vamos deixar a hipocrisia de lado, porque talvez isso te deixe ainda mais distante da mensagem que “We Need To Talk Abou Kevin” gostaria de passar.

Ao meu ver, o marco desse código entre os dois (mãe e filho), onde ambos passaram a se enxergar exatamente como são, foi quando em um momento de descontrole por mais uma de suas inúmeras malcriações (nem sei se essa é bem a palavra, porque no filme parece mais como uma afronta ou desaforo), ela acabou quebrando o braço do garoto, o que o levou a ganhar uma cicatriz para o resto da vida, uma espécie de simbologia para aquele momento que mais tarde,  marcaria a história dos dois.

Quando eles chegaram em casa e o garoto assumiu a total culpa do acidente e a mãe, diante do marido acabou concordando com a mentira (porque o marido já achava que ela não gostava muito do garoto, logo seria um drama), eu senti que foi o momento em que eles mais se aproximaram de se entender na vida, a ponto de se tornarem quase que a mesma pessoa, ou pelo menos ficarem muito parecidos naquele momento. E como sinal de gratidão por ela ter tido o “único momento de sinceridade” aos olhos do garoto mais tarde, ele simplesmente largou as suas fraldas, utilizando pela primeira vez o banheiro sozinho.

A partir desse dia, eles estabeleceram esse código entre os dois, onde ambos sabiam e entendiam exatamente o que haviam feito de errado, apenas com um olhar dessa culpa que ambos dividiram de alguma forma nesse exato momento de suas vidas.

Um dos poucos momentos maternais entre os dois personagens se dá com o nascimento da  sua irmã e ele como qualquer outra criança, acaba disputando pelo espaço no colo da mãe. Um raro momento de afeto e proximidade entre eles que praticamente não se repete ao longo do filme.

E essa relação só vai piorando a medida em que o garoto vai crescendo e se tornando um adolescente ainda mais frio e distante do que de costume, com hábitos fora do comum para qualquer um da sua idade. Como colecionar vírus de computador, ou continuar se masturbando quando a própria mãe o pega no flagra. Certamente, um momento extremamente constrangedor para qualquer pessoa comum. Um comportamento que ela consegue enxergar, mas que acaba de certa forma não fazendo nada a respeito.

O mais interessante no filme também é a forma como ele é contado, misturando o presente da personagem da Tilda Swinton tentando refazer a sua vida em uma pequena casa, sofrendo bullying da vizinhança e até sendo agredida gratuitamente nas ruas (um momento que até assusta), cenas misturadas com as do passado da personagem, um passado cheio de imagens confusas, que parecem ser de um acidente, até que as duas histórias se encontram no tempo para chegar a conclusão do filme e tudo se encaixar perfeitamente. Uma construção muito bem feita eu diria. De certa forma, até me lembrou a edição de “Tree Of Life” em alguns momentos e não de u,a forma óbvia, que fique bem claro. Clap Clap Clap!

Engraçado que, a mesma frieza que o Kevin apresenta no longa em todas as fases da sua vida,  é possível de ser reconhecida na mãe pós o acontecido (no presente pelo menos). Um olhar confuso, distante, que não parece estar concentrado em nada ou em ninguém, apenas esperando os dias passarem. Alguém que simplesmente não se importa mais. Mas será que algum dia realmente se importou ou apenas estava acostumada com a situação? Como o próprio garoto chega a questionar em um determinado ponto da história.

Agora, sinceramente, eu acho que esse título não poderia ter sido melhor (pensando em um contexto geral). Como faltou conversa para aquela família, não?

Ainda mais tendo uma mãe escritora, uma comunicadora, que  até que tentou chamar a atenção do marido por algumas vezes, ele que considerava o comportamento do garoto normal e que de certa forma até acabou colaborando para o resultado final dessa história, não enxergando a verdadeira identidade do filho. Mas ela tentou pouco, falou pouco, não insistiu e talvez por isso a história tenha caminhado para esse triste final.

E esse silêncio da personagem a aproxima muito do perfil do seu filho, que não era muito de falar, pelo menos não com ela. Ambos na verdade, dividiam uma personalidade muito próxima ao me ver e apenar externaram isso para o mundo de formas diferentes. Talvez Eva tenha sido mais contida e controlada a vida inteira, enquanto o seu filho tenha encontrado na necessidade de demonstrar a sua “coragem”, uma muleta para externar tudo que ele guardava de pior dentro de si.

E quantos pais que vc conhece ou ouvir falar, que fazem exatamente isso com seus filhos e fingem que não estão vendo no que aquelas criaturas estão se transformando, hein? Depois eu nunca consigo entender a surpresa, quando o problema aparece. Sempre acho uma reação no mínimo  cínica.

Novamente, de uma forma bem pessoal, o ponto X dessa história no meu olhar, foi quando ele sumiu com o hamster da irmã (não entendo de animais e não sei bem se era um hamster mesmo, rs, mas enfim…). Naquele momento, aquela mulher tinha que ter saido feito uma maluca no quintal, falando alto, mostrado para aquele menino que alguém estava vendo o que ele fazia por ali (que seria o que eu teria feito, por exemplo). Como ignorar tamanho ato de crueldade? Mas não, ela preferiu permanecer em silêncio, mais uma vez.

Atitude essa que se tivesse sido tomada,  talvez tivesse evitado o desfecho da história da pequena irmã do garoto, de quem eu fiquei com uma pena que quase que não cabia dentro de mim mesmo.

A reta final do filme é absurda, com as peças do quebra-cabeças das cenas todas que nós passamos o filme inteiro vendo em flashs, finalmente se encaixando, levando o personagem do Kevin  munido do seu arco e flecha e travas de segurança que ele comprou a preço de banana na internet, a caminho da escola para a conclusão da sua vida.

E nessa hora, quando aquela mãe chega até o colégio, talvez rezando para não encontrar o seu filho no meio das vítimas e acaba se deparando com as travas amarelas que ela mesmo viu o seu próprio filho recebendo em casa como encomenda, essa foi certamente uma das cenas mais primorosas do filme, com aquela mulher completamente sem voz, quase que não acreditando no que aquele garoto foi capaz de planejar e realizar.

Eu que já estava me preparando para esse momento ao decorrer do longa, fiquei ainda mais de boca aberta, quando a personagem volta para casa e dá de cara com a cena final do crime do seu próprio filho, onde naquele momento talvez ela tenha entendido que ele seria capaz de tudo para machucá-la das piores formas possíveis. Mas porque? E essa é a pergunta que ela faz para o filho, que se encontra preso pelos crimes que acabou cometendo e que mesmo apesar dele ter sido o responsável por toda aquela desgraça envolvendo a sua família, ela não teve coragem de abandonar, talvez por sentir o peso da culpa de não ter discutido muito mais o comportamento do filho quando ainda havia tempo.

Naquele abraço final entre os dois então, é possível sentir a presença de ambos em cena, uma forte presença até, que nota-se pelo impacto dos dois corpos ao se abraçarem, mas que não vai além disso e amor mesmo não existe mais por parte daquela mãe, já ele (um excelente ator por sinal!), acaba revelando que já não tem mais a clareza do porque de ter feito aquilo tudo, talvez até por ainda ter a mãe ao seu lado, mesmo depois de tudo o que aconteceu e acaba expressando por uma única vez, alguma sinceridade que ele mesmo sempre cobrou da própria mãe.

Certamente um filme que vai te deixar incomodado, com um nó na garganta no final e que além de destruir alguns mitos que nos são vendidos diariamente por todos os lados, ainda nos deixa uma sábia sugestão de que de repente, uma boa conversa pode ser a solução para tudo. Falar, conversar, discutir, ainda pode ser a saída mais simples, mas pode ser também a salvação para diversos problemas.

Respondendo as duas perguntas que eu começo fazendo nesse texto, ter conversado mais sobre o Kevin talvez não tivesse adiantado muito, porque ele até poderia continuar sendo a mesma pessoa, mas com certeza poderia ter mudado os rumos do final dessa história, ou pelo menos parte dele.


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