Posts Tagged ‘Vincent Regan’

Hit, Miss and Love

Julho 18, 2012

Prontos para ganhar uma nova heroína?

Hit & Miss é mais uma produção inglesa que a princípio foi chamada de minissérie, seguindo o mesmo conceito de sempre deles do outro lado do oceano, que primeiro lançam um produto no formato de minissérie de forma mais despretensiosa, para depois, de acordo com o seu sucesso, transformá-la em uma série de TV, que nesse caso é o que todos nós que assistimos Hit & Miss estamos torcendo nesse momento, porque uma história tão boa como essa merece ter uma continuação. Juro que eu vou ficar inconsolável no caso da minissérie ter realmente terminado por aqui, com apenas seis episódios produzidos.

Sua personagem principal é Mia (Chloë Sevigny), uma assassina profissional, lindíssima, super feminina e que parece ser bastante competente e porque não dizer “realizada” com o que faz para sobreviver. Em uma vida de sucesso no mundo do crime, ela parece absolutamente fria, sozinha, vivendo naquele enorme espaço que é o seu QG, que nós não estendemos exatamente se é um apartamento ou um espaço abandonado no meio da cidade. Tudo parece estar andando como sempre em sua vida, até que um dia ela recebe uma carta de uma amiga antiga, revelando que Mia tem um filho. E ai vc se pergunta: como assim ela tem um filho e não sabia ou se encontra surpresa daquela forma?

Bom, nesse detalhe está escondido a grande novidade que H&M (rs) nos traz como proposta, que é o fato de que que Mia nasceu Ryan e está em fase de transição para assumir de uma vez por todas a sua identidade como mulher, vivendo como uma transexual ainda em fase de pré-operação de mudança de sexo, para a qual ela vem guardando o dinheiro que ganha botando marmanjo para dormir em poças de sangue.

Uma notícia que cai em suas mãos como uma bomba e que acaba mudando toda a sua rotina de freelancer do crime, onde ela parte em uma viagem para resgatar uma certa parcela do seu passado, indo encontrar o tal filho que ela até então desconhecia. Detalhe é que a amiga que lhe escreveu a carta já se encontra morta e juntamente com o filho fruto dessa relação do passado com Mia antes de sua transformação, ela acaba se deparando com uma cenário bem mais complicado do que imaginava, com outros três filhos da amiga recém falecida, dois jovens adolescentes e uma garotinha ainda menor do que o seu próprio filho, ele que como uma provável homenagem ao pai no passado, também se chama Ryan.

De cara com essa nova realidade, a personagem não consegue não se envolver com a história daquelas crianças agora orfãs e decide que a sua missão a partir daquele momento não é só a de criar o seu filho Ryan e sim todos os seus irmãos por parte de mãe, o que vai totalmente contra a frieza que se espera de uma assassina por exemplo, revelando um outro lado da personagem que dentro daquela nova realidade, enxerga a possibilidade de reforçar ainda mais o seu lado femininodespertando uma espécie de instinto “maternal” que ela até então desconhecia.

Entre os membros da nova família, no núcleo adolescente temos Riley (Karla Crome), a menina que acaba fazendo as vezes de mãe para todos os irmãos, que não é das mais simpáticas (na verdade ela parece meio amarga diante aquela situação da sua vida naquele momento) e mantém um relacionamento doentio com o homem abusivo da vizinhança, que é casado e é meio que o rei do pedaço. Ele que logo de cara, mesmo sem saber da relação com a garota, acaba se tornando o grande inimigo de Mia, com quem acaba entrando em conflito, inclusive físico, o tempo todo. Nesse núcleo temos também Levi (Reece Noi), outro dos seus “novos filhos” adolescentes, esse com um certa tendência a gostar do que é errado, meio ambicioso e que não poupa Mia de piadinhas cretinas a respeito dela ser uma transexual.

Entre as crianças temos Leonie (Roma Christensen), uma garotinha super foufa que vive vestida de borboleta e acha que a mãe (morta) está dentro do rádio. Ela que tem uma imaginação sensacional, além de uma doçura toda especial. Sério, o que foi o simbolismo da cena dela cortando os cabelos da boneca na raiz para ela ficar mais parecida com a sua mãe (que morreu de câncer) ou dizendo para a professora de ballet que ela não poderia fazer aula porque estava com câncer? Chutes certeiros nos nossos estômagos. Tum! E ele, Ryan (Jorden Bennie, que eu não entendi o porque de no IMDB estar apenas com crédito por dois episódios…), que é o filho fruto dessa relação do passado da agora Mia, que tem uma doçura no olhar fora do comum, além de um talento bem especial para uma criança dentro desse cenário tão atípico. Sério, só pensava em adotá-lo, rs.

Ryan que também tem cenas bastante importantes e simbólicas dentro dessa história, como ele ameaçando se cortar na aula de ciências por não concordar em ter que dissecar sapos na escola e voltando no outro dia todo pintado de verde, para liberar todos aqueles animais que morreriam injustamente. Bem bacana vai? Além de ser um momento super foufo para a série. E os diálogos dele com as outras crianças são ótimos também, onde ele faz peguntas importantes e que são tratadas com bastante naturalidade dentro do seu universo ainda bastante infantil e que valorizam a inocência das crianças.

E foi bem bacana a forma como Mia foi ganhando a confiança de Ryan, que naturalmente custou a entender o porque do seu pai estar representado naquele momento com uma figura feminina, mas que no final das contas acabou entendendo dentro da limitação da sua idade o porque de tudo aquilo. Muito bacana que nesse caminho, eles conseguiram mostrar de uma forma bem natural e sem ignorar a estranheza dos fatos, a confusão que se instaura na cabeça daquele menino no momento em que ele descobre um pai que até então ele desconhecia e que para a sua surpresa, não é exatamente o que se espera da figura masculina paterna, mas que não deixa de ser a sua realidade e é preciso aprender a lidar com essa nova situação.

Foi lindo ver o garoto em meio a uma confusão natural com a sua própria sexualidade naquele momento, se perdendo entre o universo masculino e feminino e se questionando quanto as semelhanças com o seu pai, buscando inclusive encontrá-las, quando na verdade elas eram mais evidentes do que ele poderia imaginar (mas nós todos conseguimos observar na postura dos dois personagens). A cena em que ele pega de surpresa a Mia tomando banho ou quando ele experimenta um look feminino em meio a uma festa em família foram sensacionais e de uma honestidade absurda, além de super sensíveis e que conseguiram transmitir exatamente o quanto uma criança é adaptável as diferenças, desde que elas não sejam ignoradas e sejam apresentadas a elas da forma mais natural possível, sem rodeios ou muita fantasia. “Olha aqui filho, isso existe, funciona assim e é uma possibilidade”, simples assim. (mas que nós também entendemos a sua complexidade, mas é bom aproveitar enquanto as crianças ainda não foram contaminadas com o universo a sua volta e estão mais abertas para o que elas ainda não conhecem)

Mas ao mesmo tempo que encontramos momentos doces como esses e super importantes para uma série de TV que resolve apresentar como personagem principal uma transexual, o outro lado dessa história também não foi ignorado, com Mia recebendo uma recepção pouco calorosa dos irmãos adolescentes de Ryan, que faziam questão de tocar na sua ferida mais profunda para tentar desestabiliza-la e também se livrar daquela que para eles que já estavam acostumados a se virar sozinhos a aquela altura, nada mais era do que uma estranha indesejável em um território que eles já haviam dominado sozinhos. Um comportamento bem preconceituoso, mas nesse caso, apoiado no mecanismo de defesa do envolvidos, o que não justifica, mas explica.

E o fato de Mia ser uma transexual, algo que poderia aparecer apenas como uma pequena parte da sua personalidade já tão interessante e envolta a essa história inesperada e que a todo momento acontecia algo novo, não poderia ter sido abordado de uma forma mais adequada, sem ignorar que aquilo ainda não era um assunto totalmente resolvido inclusive dentro da própria cabeça dela, exibindo a personagem bem desconfortável com a parcela masculina que ela ainda mantinha em seu corpo. Apesar de parecer chocante, ou até mesmo apelativo para alguns, achei muito boa as cenas com ela nua, se auto flagelando, evidenciando que ela não estava nada confortável com a sua atual situação. Ótimas cenas por sinal e também bem justificáveis para esse tipo de drama.

Além de toda essa dinâmica familiar já estar bem complicada, com ela ganhando o papel de tutora de todas aquelas crianças do dia para a noite, que também estão prestes a ser despejadas da casa em que vivem e que pertence ao tal vizinho com quem Riley mantinha um caso escondida (e sua mãe também) e que para complicar ainda mais a garota acabou engravidando do mesmo (detalhe que nos foi revelado depois), ainda tivemos Mia tentando manter o seu emprego como assassina de aluguel sem que ninguém desconfiasse de nada, matando sem dó e nem piedade os inimigos do seu chefe, que tem aquele perfil de chefão da máfia irlandesa que nós já bem conhecemos de outras séries. E além disso, começando um realicionamento com o boy magia local, Ben (Jonas Armstrong), que só descobriu com o tempo que ela não era exatamente a mulher que ele estava esperando e é claro que isso só veio a acarretar mais drama para essa história toda.

Engraçado que se vc parar para pensar, uma transexual está exatamente nesse meio caminho entre o masculino e o feminino e isso foi evidenciado na série o tempo todo e de uma forma no mínimo bem honesta. Mia não era aceita como pai, porque a sua figura era a de uma mulher, mas por outro lado também ainda não se sentia uma mulher por completo, por ainda não ter terminado a sua fase de transição. Complicado, não?

Com Ben, a dinâmica afetiva da personagem também foi bastante importante, porque também acabou nos mostrando um personagem em conflito com a sua sexualidade, uma vez que ele não se considerava gay, mas estava apaixonado por uma mulher que nasceu homem, que foi outra situação importante de ser mostrada e tratada na TV. Achei sensacional quando Ben começou a sair com várias mulheres só para ter certeza do que ele queria para a sua vida e em uma manhã após a candidata da vez deixar a sua casa, ele dar de cara com os lençois completamente imundos de quilos de maquiagem, além de uma extensão de cabelo perdida no meio de sua cama, que foi a forma como a série encontrou para mostrar a ironia de que hoje em dia, nada é exatamente o que aparenta ser e tudo é meio artificial, então se ater a alguns detalhes pode ser uma grande bobagem, além de um obstáculo que só tem a função de impedir que vc seja feliz.

Como se tudo isso que eu disse até agora já não fosse  o suficiente para todo mundo se convencer de que Hit & Miss é realmente uma verdadeira delícia deliciosa, vale a pena dizer também que a série é super bem cuidada, com takes de tirar  o fôlego de tão bem feitos, sempre nos mostrando um ângulo mais interessante da cena e pouco óbvios. Até as cenas com a Mia em ação tem uma plástica absurda, sem contar a trilha sonora que parece perfeita para o clima da série e que também é bem bacana. Tudo isso somado aos campos verdes da Irlanda fazendo o papel de fundo para essa história que nem precisava de mais esse atrativo, mas que mesmo assim acaba colaborando com suas paisagens lindas da vida no campo, bem mais simples do que estamos acostumados (falando por mim na verdade) e aquele sotaque que a gente sempre acha bem vindo. Höy!

É importante dizer que o ritmo da série é bem bom também, onde tudo acontece a cada episódio meio que ao mesmo tempo e mesmo assim, mesmo com a complexidade da história e o seu pouco tempo para ser contada (são apenas 6 episódios e não sabemos se terá continuação ou não) tudo acaba ganhando o seu devido destaque e é resolvido dentro do seu tempo. E a série também foi muito bem amarrada do começo ao fim, deixando várias possibilidades para o caso dela seguir adiante como uma série e até mesmo tendo um final “satisfatório” no caso dela ter terminado a sua história naquele finale mesmo. (que a gente bate três vezes na madeira e torce para o contrário, claro)

Não quero contar muito sobre o que acontece durante essa “temporada”, além do que eu já comentei inevitavelmente ao longo dessa review, porque acho importante preservar certas surpresas para quem ainda não assistiu a minissérie, mas garanto que vcs não vão se arrepender dessa experiência e garanto também a todos vcs que de tudo acontece dentro daquela nova família que acabou se formando de forma inesperada. De tudo mesmo.

O episódio final apesar de não ter sido do agrado de alguns, traz um importante fechamento para esse primeiro ciclo da Mia dentro desse que é apenas um capítulo da sua história e foi importante conhecer um pouco da sua origem e acabar entendendo assim um pouco da sua mitologia, o que além de ser esclarecedor em alguns pontos, acabou trazendo ainda mais drama para a história, só que naturalmente, sem parecer forçado demais. Mas o bacana mesmo foi que essa “viagem” as origens da personagem nesse episódio final, também acabou despertando um olhar para a notável semelhança entre ela e o filho Ryan, que acabou se revelando mais parecido com ela do que eles mesmos conseguiriam imaginar ou perceber durante esse curto período de convivência. Um final super justificável e bem bacana, onde eu só conseguia pensar que uma minissérie como essa não poderia acabar naquele momento.

Mesmo que tenham sido seis excelentes episódios de Hit & Miss, precisamos de mais dessa história. Muito mais! Para assistir e entrar para a minha torcida para que a minissérie tenha uma continuação, ou saia de vez do armário e complete a sua transição para uma série completa indeed.

BANG! (e todo o nosso amor para a Chloë, que não é de hoje que vem se mostrando como uma grande atriz, que como se não fosse o suficiente para a gente gostar dela desde “K.I.D.S” antigo, ainda vem com o bônus de uma coragem não muito comum dentro do meio. Clap Clap Clap!)

 

♥ Já está seguindo a magia do Guilt no Twitter? Ainda não? @themodernguilt


%d bloggers like this: