Posts Tagged ‘We Need To Talk About Kevin’

And in that moment, I swear we were infinite

Novembro 9, 2012

Quando assistimos filmes sobre dramas da adolescência, raramente conseguimos fugir de uma série de clichês que a essa altura, já conhecemos muito bem. Quando eles resolvem retratar os populares da turma por exemplo, a história geralmente beira o pastelão preguiçoso, com personagens que muitas vezes não conseguimos nos identificar pessoalmente (por motivos óbvios), mas que identificamos facilmente na multidão a todo momento. O bobalhão comum, a turma do “Yoo Hoo”, todo high school está e sempre esteve repleto deles. Antes de reclamar, lembrem-se: “Viva a diferença” (#SadFace). Os nerds ou os excluídos da turma também sempre foram uma outra vertente dos estereótipos bastante explorada no cinema, sendo retratados por diversas vezes e geralmente de forma bem caricata ou com a simples função de fazer rir, poucas vezes conseguindo transmitir algo próximo do que seria a sensação de se sentir excluído em um período da nossa vida onde tudo ainda está muito confuso, nossas opiniões mudam a todo momento, nossa personalidade ainda está em desenvolvimento, nosso repertório ainda não é muito extenso e talvez ser aceito por um grupo qualquer nessa época seja uma das nossas maiores batalhas, que podem ou não se tornar grandes conquistas, dependendo do desempenho de cada um.

E “The Perks Of Being a Wallflower” consegue ir justamente contra tudo o que já conhecemos sobre o tema e as diversas formas com que ele já nos foi retratado ao longo do tempo, justamente por tratar tudo com uma honestidade importante, de forma direta e absolutamente natural, uma escolha que vem nos agradado bastante no cinema atual (na TV também, vejam o sucesso de Girls por exemplo) fugindo totalmente da maioria dos clichês que ninguém aguenta mais encontrar nesse tipo de história. Dirigido por Stephen Chbosky, que é também o autor do livro homônimo de 1999, em parceria com os mesmos produtores de “Juno”, encontramos no novo longa uma excelente opção de clássico para uma nova geração que está crescendo agora, onde apesar do tema “adolescente”, é impossível não acabar se identificando com o drama e seus personagens repletos de bagagem, mesmo que a nossa adolescência já tenha passado faz algum tempo. Ainda mais se você conseguir se identificar facilmente como um Wallflower. Done (✓)

Um dos grandes méritos dessa história certamente foi o fato do  filme ter sido dirigido e roteirizado pelo autor do livro, algo que acabou emprestando um caráter muito mais pessoal e importante para uma história recheada de assuntos dos mais variados possíveis. Dramas típicos da adolescência como o simples fato de ser ou não aceito pelo grupo, tentar se encaixar e descobrir o seu lugar no mundo, as primeiras experiências no amor ou com as drogas, até assuntos mais sérios e bem mais complexos como o suicídio, abusos de diversos tipos e a depressão. Todos levados a sério, mesmo quando mencionados apenas de passagem, mas sem dar um peso desnecessário para cada um desses assuntos e sem transformar a história em um dramalhão que opta por comover pelo óbvio.

Como personagem principal encontramos Charlie, um típico garoto nerd e bem tímido, que não consegue lidar muito bem com a tarefa de fazer novos amigos, ainda mais enfrentando o drama do primeiro dia de aula no high school, com uma nova turma e sem nenhum amigo por perto para facilitar as coisas. Claro que o seu maior pesadelo se torna realidade quando ele se vê sozinho nessa nova fase de sua vida (embora ele tenha alguns conhecidos, que fingem que não o conhecem), não recebendo uma recepção muito calorosa por parte dos demais alunos da escola, que logo percebem algo de “diferente” no garoto, para seu total desespero. No primeiro dia de aula, além de passar por uma série de constrangimentos, o garoto acabou encontrando seu primeiro amigo no professor de Inglês (interpretado pelo ator Paul Rudd), que mais tarde viria a se tornar uma espécie de mentor para o aluno, alimentando a sua vocação para que ele se tornasse um futuro escritor. Pessoalmente, foi impossível para mim não acabar me identificando com o personagem, principalmente na cena onde ele sabia as respostas para a pergunta do professor em sala de aula, mas faltava coragem para expressar os seus conhecimentos, muito provavelmente para evitar também a manifestação dos seus colegas de sala na sequência. A história da minha vida. (acreditem ou não, me mantive assim até a Faculdade…)

Charlie que é especialmente interpretado pelo ator Logan Lerman (“Percy Jackson & The Olympians: The Lightning Thief” ), que consegue emprestar uma doçura importante para o personagem, nele que também é possível observar toda a sua insegurança e repressão apenas no olhar ou na sua postura diante dos momentos onde ele se via cercado pelos demais alunos da escola. Aquela câmera intimista, na cara do personagem enquanto ele caminhava pelos corredores do colégio, também ajudou bastante a transmitir essa sensação de medo e insegurança que todo mundo que não é muito bem recebido, ou que é simplesmente tímido, acaba sentindo em um ambiente que reconheça como hostil.

Claro que como dificilmente alguém consegue sobreviver sozinho por muito tempo e para adquirir novas experiências, muitas vezes é necessário trocá-las com alguém, Charlie acaba conhecendo outros dois personagens que passam a ser o seu ticket de entrada para esse seu ritual de passagem da sua vida. O bacana é que esse encontro acaba se dando pelo esforço do próprio personagem, que ao se identificar com alguns dos underdogs da escola (que ele admira), o próprio acaba tentando um aproximação para não permanecer sozinho, demonstrando uma vontade de mudar o cenário ao seu redor que é bem bacana de ser percebida no personagem. Seus novos amigos são Patrick e Sam (e quem não queria ter um melhor amigo como o Patrick e se apaixonar por uma Sam que atire o primeiro VHS dos Smiths que vocês esqueceu de devolver para um amigo e nunca mais o encontrou. NOW – e sim, esse plot do VHS é pessoal), que o próprio acaba confundindo a princípio com um casal, mas que ele descobre que ambos são apenas bons amigos, além de meio irmãos. Patrick é o gay da turma, do tipo libertário, que não está muito preocupado em como o mundo vai enxergá-lo e vive em defesa da sua verdadeira identidade e acima de tudo, da sua liberdade. Sam é a típica garota dos sonhos, essa ainda mais impossível do que a garota ideal do high school (a loira megabitch e cheerleader preguiça), porque além de linda, ela também é super bacana, sensível e acaba fazendo questão de introduzir Charlie a sua turma, porque identifica no menino a grande dificuldade que era ser ele mesmo naquele momento, ainda mais quando em um instante de ‘colocação involuntária”, ele acaba revelando que teve sim um melhor amigo ao longo da vida e nem sempre foi tão solitário, mas que o mesmo acabou cometendo suicídio.

Patrick é interpretado pelo ator Ezra Miller, que todos nós lembramos pelo seu excelente e inesquecível papel em “We Need To Talk About Kevin”, que nesse caso nem chega a ser uma grande surpresa, pelo talento que nós já conhecemos do ator. Seu personagem além de também ser adorável, acaba crescendo ainda mais através da sua bagagem, que é um dos temas abordados no filme, quando ele se vê em uma situação de bullying provocado pelo ex namorado, o atleta popular da escola que ele mesmo ajudou muito no passado, mas que ao ter o namoro descoberto pelo pai homofóbico, acaba levando uma surra daquelas do próprio pai e de certa forma resolve descontar no parceiro suas próprias frustrações. E foi emocionante a forma como Patrick encarou toda aquele situação de frente, sem usar a sua maior arma naquele momento (que seria simplesmente revelar para a escola inteira que Brad – Johnny Simmons – foi seu namorado), sendo espancado covardemente pelos amigos do ex e salvo por Charlie, que entre todos eles foi o único que teve coragem de resgatar o amigo daquela situação pavorosa, talvez porque ele a entendesse como ninguém.

A violência também se faz presente no filme através do comportamento que Charlie observa dentro da própria casa ao ver a irmã em um relacionamento abusivo com o namorado (irmã que é interpretada pela Nina Dobrev de Vampire Diaries e seus pais são os atores Dylan McDermott e a Kate Walsh, que quase não aparecem no filme porque esse não era o foco). Dizem que no livro a situação se aprofunda bem mais nessa história envolvendo a sua irmã, algo que no filme acabou não acontecendo. Falando um pouco sobre as diferenças do filme com o livro, no papel a obra é composta de cartas que Charlie escrevia para um amigo anônimo (que poderia ser ele mesmo no futuro, ou o tal amigo que acabou se suicidando), algo que no filme acabou sendo substituído pela narração do personagem principal, dando voz as principais quotes do livro, como o título dessa review que eu AMO, por exemplo. Algo que eu até acho que poderia ter sido mais presente no filme (algo como em  “Submarine”, sabe?), mas que também não chega a prejudicar o longa, de tão especial que ele acabou sendo.

Outro grande destaque acabou fincando por conta da participação da Emma Watson (I ♥ Hermione) no papel da também adorável Sam, que não é por acaso que acabou se tornando a grande “crush” do Charlie dentro da história. Ela que também carrega muito bem a bagagem do seu personagem, que já havia sido muito diferente no passado, quando fazia parte do grupo dos populares, mas que um dia decidiu que aquela não era a pessoa que ela gostaria de ser e aqueles também não eram exatamente as pessoas com quem ela gostaria de estar, apesar de manter uma certa queda pelas pessoas erradas e que nunca a tratam da melhor forma em todos os seus relacionamentos (talvez porque os caras bacanas nunca a convidem para sair…). Sem sotaque e com um doçura que também não é nenhuma novidade para ninguém, Emma surpreende ao aparecer sexy a seu modo (lindamente, por sinal), enquanto interpretava o seu papel ao lado do Patrick na versão toda especial do grupo para “The Rocky Horror Picture Show”. Em uma certa altura do filme, até o próprio Charlie acaba fazendo parte da peça, algo que ao observar toda a timidez que o personagem carrega ao longo do filme, dá para imaginar que deve ter sido um passo gigantesco para aquele garoto. Go boy!

Os demais personagens também são todos bem bacanas e todos eles, mesmo os menores, tem a sua bagagem para carregar dentro dessa história, algo que eu achei notável, principalmente pela forma simples e eficaz como elas todas foram abordadas. Tem a menina rica que rouba por esporte, o namorado que vive colocado, a namorada que tenta passar uma imagem de badass, mas que na verdade é carente e absolutamente grudenta e os caras mais velhos que não tratam as namoradas mais novas muito bem e preferem apenas se aproveitar daquela situação de “superioridade”. E todas essas histórias, por menores que elas sejam, tem total relevância com a temática do filme, mostrando para o Charlie e também para quem possa se encontrar em uma situação semelhante, que ele não está sozinho naquele mar de inseguranças e que todo mundo tem os seus problemas, com a diferença de que alguns conseguem apenas lidar com eles mais facilmente, ou simplesmente aprenderam a camuflá-los melhor.

E é uma verdadeira delícia ver a trajetória do personagem durante aquele ano da sua vida, que acabou sendo surpreendente e totalmente diferente do que ele imaginava que seria. Tudo que acabou acontecendo com ele e com seus amigos, acabou sendo importantíssimo para o que aconteceu na sequência, uma vez que novamente o personagem estava prestes a se encontrar sozinho novamente, já que seus amigos estavam se formando no colégio, partindo para a faculdade e ele estava apenas no primeiro ano. Mas antes de entrar nessa parte, eu preciso dizer que tudo fica ainda mais especial com a trilha do filme (que é a mesma mencionada no livro), ao som dos Smiths (que figuram nos posteres dos quartos deles todos. Morrissey, eu te amo! Sério. Um dia vou casar ao som de “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want”, com ou sem você, rs – por favor, não roubem a minha ideia. Originalidade é importante. Encontrar a fiancé também, rs), New Order, Sonic Youth  e “Hero” do David Bowie, que tem um papel importantíssimo dentro da trama (e na vida de todo mundo que é legal, claro!). Ou seja, uma trilha imperdível, tipo uma reunião com o dream team tocando no nosso quarto. (sempre imaginei as minhas bandas preferidas tocando dentro do meu quarto, comigo assistindo tudo de pijama, sentado na cama, rs)

Outro detalhe importante em “The Perks Of Being A Wallflower” é que ele é ambientado na década de 90, onde as coisas eram bastante diferentes de hoje em dia, ainda mais para um garoto introvertido como Charlie, que nos dias de hoje poderia muito bem se esconder facilmente atrás do seu computador ou de um gadget qualquer e dificilmente acabaria ganhando as experiências que ele adquiriu naquele que pode ter sido o grande ano da sua vida. Saiam de casa, crianças. Saiam!

Partindo para o final do filme, que por sinal, é bastante angustiante, em meio a todas as experiências desses adolescentes, somos surpreendidos por alguns flashes de memória de Charlie, com pequenas frações da sua infância, nos quais observamos um pouco da sua relação com a tia Helen (Melanie Lynskey de Two and a Half Men), personagem que descobrimos ter morrido em um acidente de carro, o que aparentemente parecem memórias inocentes com certo um ar de saudosismo e doçura, mas que ao se tornarem cada vez mais frequentes e seguidas de alguns desmaios do personagem ao longo do filme, acabamos descobrindo que a situação nesse caso, assim como os traumas todos da vida daquele personagem, eram todos muito mais profundos e bem mais graves do que a gente poderia imaginar até então. Um peso a mais para a história que talvez nem fosse necessário, mas que ao mesmo tempo não transmite a sensação de apelo ou qualquer coisa do tipo e mais uma vez figura mais como um capítulo a mais dentro dessa história contada com tamanha honestidade e até mesmo com bastante delicadeza, algo difícil de se equilibrar. Todo mundo tem uma história triste para contar e essa era a do Charlie. Humpf!

Apesar do clima não ser dos melhores perto do final do filme e a sensação nesse momento realmente não ser das mais bacanas e esse eu acho que é um mérito para o diretor, que conseguiu nos deixar com uma sensação parecida com a da mente do personagem naquele momento, que se encontrava em conflito ao começar a identificar o que suas memórias do passado traziam para completar a sua história presente, algo que acaba nos deixando com o coração ainda mais apertado ao imaginar as possibilidades para aquele personagem que aprendemos a AMAR (e nos identificar) em tão pouco tempo, mas mesmo assim, o saldo final do filme embora essa avalanche de emoções de última hora, é sim bastante positivo, mostrando que existe sim um caminho para tudo desde que você não decida ignorar os fatos. Vai ser doloroso? Vai. Pode demorar? Pode. Não vai ser fácil? Não, não vai. Mas se você tentar, tem mais chances de conseguir passar por isso tudo, carregando apenas um cicatriz aqui e ali com orgulho pela lembrança da forma com que você conseguiu passar por esse pedaço da sua própria história, que nadam mais é do que apenas um pedaço dela.

“The Perks Of Being a Wallflower” é um filme realmente muito especial, com um elenco perfeito. Um novo clássico para ocupar a nossa prateleira especial, ao lado do livro, que não só merece ser comprado, como merece também ganhar uma dedicatória escrita por nós mesmos, do tipo “Para o futuro Eu”. (♥)

 

ps: apesar da alma indie, AMO/Sou Charlie cantando Air Supply no seu quarto, rs (e eu acho “As Vantagens de Ser Invisível” um dos melhores títulos adaptados para o português)

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Nós realmente deveriámos ter falado mais sobre o Kevin

Fevereiro 6, 2012

Mas será que teria adiantado? Ou melhor, teria mudado alguma coisa?

E essas são algumas perguntas que ficaram na minha cabeça após assistir “We Need To Talk About Kevin”, um filme forte, tenso, vermelho, porém de emoções frias, da diretora Lynne Ramsay.

Primeiro, vamos começar falando sobre dois mitos que somos praticamente forçados a acreditar e que o filme faz questão de derrubar.

O primeiro deles é o que “toda mulher nasceu para ser mãe”, o que a essa altura da vida, depois de conhecer várias histórias diferentes e sermos pessoas que conseguem enxergar o mundo em que vivemos e realmente ver alguma coisa, nós já sabemos que isso não é verdade. O segundo mito é o de que “crianças são anjos”. Longe disso, crianças são seres humanos comuns, descobrindo a sua personalidade, formando o seu caráter, experimentando sentimentos dos mais variados possíveis, sejam eles bons ou ruins. Embora seja politicamente correto acreditar no contrário e até socialmente aceito com mais facilidade, basta olhar com cuidado para meia dúzia de crianças brincando na praça, ou observá-las na escola para entender que eles não são tão angelicais assim e quanto antes vc perceber isso pode ser melhor, ainda mais se vc já for pai.

E o filme fala exatamente desses dois aspectos. De uma lado temos Eva (Tilda Swinton, gélida, tentando ser simpática, profundamente magoada e ótima por sinal!) uma mulher que se encontra encarando a maternidade da forma mais real possível. Nada de grávidas confortáveis com aquela barriga pesada e gigante de fora, no meio de uma aula de lamaze qualquer. Ao contrário disso, do perfil da “mulher grávida com uma luz especial”, Eva se encontra incomodada com a sua atual situação, como se talvez ela não estivesse exatamente pronta naquele momento para encarar ter que se transformar em mãe, um pouco além do desconforto natural que já se é esperado.

Um momento que querendo ou não, acaba mudando a sua vida. As prioridades acabam mudando e os sonhos em alguns casos acabam ficando para depois ou vão virando apenas parte da decoração da sua casa, para te lembrar de vez em quando do que vc costumava desejar antes dessa transformação.

Com o nascimento do bebê, podemos observar que o seu desconforto continua, mesmo com ela tentando ao máximo agradar a criança e tratá-la bem, tentando também ignorar a exaustão, onde em um determinado momento do filme, ela chega ao ponto de preferir o barulho de uma britadeira em uma obra local, ao invés do choro constante do seu próprio filho. Uma momento tão honesto, de sinceridade tão difícil de ser visto, principalmente retratado no cinema ou relatado em uma roda qualquer de mães de primeira viagem, que certamente não vão ser tão sinceras assim, porque no mínimo parece errado diante dos olhos da sociedade.

Cansada, incomodada, suada, tentando descansar em casa nos poucos momentos livres que acabam sobrando quando se é mãe, ela ainda tem que lidar com o marido conformista, Franklin (John C. Reilly, que tem conseguido entregar bons papéis recentemente não?) que não parece entender exatamente pelo que ela está passando naquele momento da sua vida ou sequer consegue enxergar o estado de exaustão em que ela se encontra, considerando tudo aquilo muito natural para todo mundo. Talvez porque ele seja do tipo de pessoa que acredita no modelo contrário ao que eu começo descrevendo no início desse post, quando falamos dos mitos que o filme faz questão de derrubar.

Assim, ambos vão construindo uma relação familiar, pai, mãe e filho (e mais tarde uma nova filha), mas não parece que as coisas vão indo muito bem. Kevin (Rock Duer, Jasper Newell e Ezra Miller) é uma criança apática, indiferente e parece completamente distante, como se não tivesse o menor interesse em nada ao seu redor dentro daquele cenário familiar. A mãe, assustada com esse tipo de comportamento, começa a encarar os problemas do filho de forma diferente, como se fosse algo pessoal, diretamente ligado a ela.

O bacana também é que aparentemente, não existe uma coisa concreta que possa ser ligada a esse tipo de comportamento. Sem grandes traumas, sinais de maus tratos dos mais violentos ou qualquer coisa do tipo que pudesse justificar o comportamento do garoto em relação a mãe. Ele apenas se sente assim em relação a ela, simples assim. (talvez aqui caiba aquele teoria de que os bebês sentem o que a mãe está passando durante a gravidez. Mas esse é só um palpite)

Como quando ela o leva ao médico para verificar se está tudo certo com o atraso do filho em desenvolver a fala e acaba ficando visivelmente decepcionada quando ouve do próprio médico que o seu filho é uma criança normal, talvez apenas preguiçoso. E esse tipo de comportamento vai sendo repetido ao longo do filme, em diversos momentos, com o garoto se recusando a comer, ou aprender a ler, contar, como se fizesse questão de colocar a mãe de lado e não deixá-la participar do seu desenvolvimento de propósito.

Ambos na verdade parecem muito distantes um do outro, como se não tivessem vínculo algum além do grau de parentesco. Ela até tenta disfarçar no começo, mas depois chega até a ser pega pelo marido falando para o filho que ela costumava ser mais feliz antes de tê-lo fazendo parte da sua vida. Coisas que a gente ouve quando criança, dentro ou fora de um contexto e que acabam marcando a nossa vida.

Mas tudo muda com a chegada do pai em casa, onde o menino se demonstra animado, disposto, exatamente o contrário do que  quando ele está apenas com a sua mãe, o que dificulta ainda mais para que aquele pai consiga enxergar o ponto de vista da sua mulher em relação ao filho. Uma mudança de humor repentina, exagerada, pouco real, que ela começa a perceber que não se trata de uma simples preferência pelo pai e sim algo que vai muito além disso, mesmo com o garoto sendo ainda apenas uma criança. (“Mas ele é só uma criança” – detesto quando pessoas preguiça dizem isso como argumento)

E crianças podem sim ser malvadas, mentirosas, ou vc nunca perguntou para uma criança algo que ela negou de pés juntos ter feito, mesmo vc tendo certeza de que foi ela quem fez? Por isso vamos deixar a hipocrisia de lado, porque talvez isso te deixe ainda mais distante da mensagem que “We Need To Talk Abou Kevin” gostaria de passar.

Ao meu ver, o marco desse código entre os dois (mãe e filho), onde ambos passaram a se enxergar exatamente como são, foi quando em um momento de descontrole por mais uma de suas inúmeras malcriações (nem sei se essa é bem a palavra, porque no filme parece mais como uma afronta ou desaforo), ela acabou quebrando o braço do garoto, o que o levou a ganhar uma cicatriz para o resto da vida, uma espécie de simbologia para aquele momento que mais tarde,  marcaria a história dos dois.

Quando eles chegaram em casa e o garoto assumiu a total culpa do acidente e a mãe, diante do marido acabou concordando com a mentira (porque o marido já achava que ela não gostava muito do garoto, logo seria um drama), eu senti que foi o momento em que eles mais se aproximaram de se entender na vida, a ponto de se tornarem quase que a mesma pessoa, ou pelo menos ficarem muito parecidos naquele momento. E como sinal de gratidão por ela ter tido o “único momento de sinceridade” aos olhos do garoto mais tarde, ele simplesmente largou as suas fraldas, utilizando pela primeira vez o banheiro sozinho.

A partir desse dia, eles estabeleceram esse código entre os dois, onde ambos sabiam e entendiam exatamente o que haviam feito de errado, apenas com um olhar dessa culpa que ambos dividiram de alguma forma nesse exato momento de suas vidas.

Um dos poucos momentos maternais entre os dois personagens se dá com o nascimento da  sua irmã e ele como qualquer outra criança, acaba disputando pelo espaço no colo da mãe. Um raro momento de afeto e proximidade entre eles que praticamente não se repete ao longo do filme.

E essa relação só vai piorando a medida em que o garoto vai crescendo e se tornando um adolescente ainda mais frio e distante do que de costume, com hábitos fora do comum para qualquer um da sua idade. Como colecionar vírus de computador, ou continuar se masturbando quando a própria mãe o pega no flagra. Certamente, um momento extremamente constrangedor para qualquer pessoa comum. Um comportamento que ela consegue enxergar, mas que acaba de certa forma não fazendo nada a respeito.

O mais interessante no filme também é a forma como ele é contado, misturando o presente da personagem da Tilda Swinton tentando refazer a sua vida em uma pequena casa, sofrendo bullying da vizinhança e até sendo agredida gratuitamente nas ruas (um momento que até assusta), cenas misturadas com as do passado da personagem, um passado cheio de imagens confusas, que parecem ser de um acidente, até que as duas histórias se encontram no tempo para chegar a conclusão do filme e tudo se encaixar perfeitamente. Uma construção muito bem feita eu diria. De certa forma, até me lembrou a edição de “Tree Of Life” em alguns momentos e não de u,a forma óbvia, que fique bem claro. Clap Clap Clap!

Engraçado que, a mesma frieza que o Kevin apresenta no longa em todas as fases da sua vida,  é possível de ser reconhecida na mãe pós o acontecido (no presente pelo menos). Um olhar confuso, distante, que não parece estar concentrado em nada ou em ninguém, apenas esperando os dias passarem. Alguém que simplesmente não se importa mais. Mas será que algum dia realmente se importou ou apenas estava acostumada com a situação? Como o próprio garoto chega a questionar em um determinado ponto da história.

Agora, sinceramente, eu acho que esse título não poderia ter sido melhor (pensando em um contexto geral). Como faltou conversa para aquela família, não?

Ainda mais tendo uma mãe escritora, uma comunicadora, que  até que tentou chamar a atenção do marido por algumas vezes, ele que considerava o comportamento do garoto normal e que de certa forma até acabou colaborando para o resultado final dessa história, não enxergando a verdadeira identidade do filho. Mas ela tentou pouco, falou pouco, não insistiu e talvez por isso a história tenha caminhado para esse triste final.

E esse silêncio da personagem a aproxima muito do perfil do seu filho, que não era muito de falar, pelo menos não com ela. Ambos na verdade, dividiam uma personalidade muito próxima ao me ver e apenar externaram isso para o mundo de formas diferentes. Talvez Eva tenha sido mais contida e controlada a vida inteira, enquanto o seu filho tenha encontrado na necessidade de demonstrar a sua “coragem”, uma muleta para externar tudo que ele guardava de pior dentro de si.

E quantos pais que vc conhece ou ouvir falar, que fazem exatamente isso com seus filhos e fingem que não estão vendo no que aquelas criaturas estão se transformando, hein? Depois eu nunca consigo entender a surpresa, quando o problema aparece. Sempre acho uma reação no mínimo  cínica.

Novamente, de uma forma bem pessoal, o ponto X dessa história no meu olhar, foi quando ele sumiu com o hamster da irmã (não entendo de animais e não sei bem se era um hamster mesmo, rs, mas enfim…). Naquele momento, aquela mulher tinha que ter saido feito uma maluca no quintal, falando alto, mostrado para aquele menino que alguém estava vendo o que ele fazia por ali (que seria o que eu teria feito, por exemplo). Como ignorar tamanho ato de crueldade? Mas não, ela preferiu permanecer em silêncio, mais uma vez.

Atitude essa que se tivesse sido tomada,  talvez tivesse evitado o desfecho da história da pequena irmã do garoto, de quem eu fiquei com uma pena que quase que não cabia dentro de mim mesmo.

A reta final do filme é absurda, com as peças do quebra-cabeças das cenas todas que nós passamos o filme inteiro vendo em flashs, finalmente se encaixando, levando o personagem do Kevin  munido do seu arco e flecha e travas de segurança que ele comprou a preço de banana na internet, a caminho da escola para a conclusão da sua vida.

E nessa hora, quando aquela mãe chega até o colégio, talvez rezando para não encontrar o seu filho no meio das vítimas e acaba se deparando com as travas amarelas que ela mesmo viu o seu próprio filho recebendo em casa como encomenda, essa foi certamente uma das cenas mais primorosas do filme, com aquela mulher completamente sem voz, quase que não acreditando no que aquele garoto foi capaz de planejar e realizar.

Eu que já estava me preparando para esse momento ao decorrer do longa, fiquei ainda mais de boca aberta, quando a personagem volta para casa e dá de cara com a cena final do crime do seu próprio filho, onde naquele momento talvez ela tenha entendido que ele seria capaz de tudo para machucá-la das piores formas possíveis. Mas porque? E essa é a pergunta que ela faz para o filho, que se encontra preso pelos crimes que acabou cometendo e que mesmo apesar dele ter sido o responsável por toda aquela desgraça envolvendo a sua família, ela não teve coragem de abandonar, talvez por sentir o peso da culpa de não ter discutido muito mais o comportamento do filho quando ainda havia tempo.

Naquele abraço final entre os dois então, é possível sentir a presença de ambos em cena, uma forte presença até, que nota-se pelo impacto dos dois corpos ao se abraçarem, mas que não vai além disso e amor mesmo não existe mais por parte daquela mãe, já ele (um excelente ator por sinal!), acaba revelando que já não tem mais a clareza do porque de ter feito aquilo tudo, talvez até por ainda ter a mãe ao seu lado, mesmo depois de tudo o que aconteceu e acaba expressando por uma única vez, alguma sinceridade que ele mesmo sempre cobrou da própria mãe.

Certamente um filme que vai te deixar incomodado, com um nó na garganta no final e que além de destruir alguns mitos que nos são vendidos diariamente por todos os lados, ainda nos deixa uma sábia sugestão de que de repente, uma boa conversa pode ser a solução para tudo. Falar, conversar, discutir, ainda pode ser a saída mais simples, mas pode ser também a salvação para diversos problemas.

Respondendo as duas perguntas que eu começo fazendo nesse texto, ter conversado mais sobre o Kevin talvez não tivesse adiantado muito, porque ele até poderia continuar sendo a mesma pessoa, mas com certeza poderia ter mudado os rumos do final dessa história, ou pelo menos parte dele.


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